sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Há um movimento ambientalista/ecologista nos Açores?




Num texto de Julho do presente ano, João Bernardo, pensador e escritor marxista heterodoxo português, que foi professor convidado em várias universidades públicas brasileiras, afirmou que em Portugal não existem movimentos sociais, como os existentes em outras paragens, nomeadamente na América Latina.

Segundo ele, os movimentos sociais são caracterizados por “desenvolverem-se num plano próprio, independente das instituições dominantes, e não aspirarem a subir nessas instituições nem a participar no poder dentro dessas instituições”. Além disso, a razão da sua existência não é “um programa ideológico” mas sim “uma plataforma reivindicativa prática — ter terra para cultivar ou ter casa para morar …”

Ambientalismo e ecologismo são termos que muitas vezes apresentados como se de sinónimos se tratassem. Contudo, há vários autores que não são dessa opinião e estou de acordo com eles. Assim, para o ambientalismo a crise ambiental pode ser resolvida sem que seja posta em causa o modelo da sociedade de mercado liberal ou neo-liberal enquanto para o ecologismo a crise multidimensional que o mundo atravessa não pode ser ultrapassada sem uma mudança radical no modelo de sociedade.
Para o pai da ecologia social, Murray Bokchin que propõe como alternativa à sociedade actual uma sociedade “baseada na autogestão, onde cada indivíduo participe plenamente, directamente e de forma perfeitamente igualitária, na gestão, sem intermediários, da colectividade”, o ambientalismo ignora a questão fundamental da sociedade de hoje que é a dominação da natureza pelo homem e apenas procura o uso de técnicas que possam minimizar os seus males.
Um contributo para a resposta à questão formulada é-nos dado por Viriato Soromenho Marques que no seu livro “O futuro frágil: os desafios da crise global do ambiente” considera a existência de quatro aspectos, que distinguem os novos (onde se inclui o movimento de defesa do ambiente) dos antigos movimentos sociais (sindicatos, por exemplo), a saber:
1- Enquanto os antigos movimentos sociais acreditavam na “bondade incondicional do progresso científico e técnico”, o movimento ambientalista questiona a “religião” do progresso técnico-científico”;
2- Os antigos movimentos acreditavam na bondade do estado, daí que a sua meta era a “conquista do poder de Estado”, o movimento ambientalista desconfia não tanto da bondade do Estado mas sobretudo do seu poder efectivo;
3- Os antigos movimentos eram “movimentos escatológicos, do fim da história”, tinham “como programa uma bandeira ideológica desfraldada pelo vento das utopias”, como, por exemplo, o fim da exploração do homem pelo homem, como resultado da emancipação da classe operária. O movimento ambientalista recusa as “utopias do fim da história”;
4- Para os antigos movimentos a luta política inseria-se na dicotomia amigo - inimigo, sendo este bem identificado: o capitalista, o vermelho, etc. Para os ecologistas, sobretudo das sociedades industrializadas do Norte, o inimigo é o “nosso presente e insustentável modo de vida”.

Só com muita boa vontade alguém poderá dizer que, hoje, existe um movimento de defesa do ambiente nos Açores. Com efeito, proliferam pequenas associações para as quais o ambiente é uma temática quase marginal, embora sejam reconhecidas como de ambiente pela tutela. Limitam-se a pontualmente (ou não) a prestar de serviços e são consultadas, mesmo que não tenham capacidade para a elaboração de pareceres, os quais, como é sabido, só servem para legitimar as decisões previamente tomadas.
No que toca às chamadas “grandes” associações, foram forçadas a perder o pio ou remeteram-se ao (quase) silêncio. Dizem as más-línguas que alguns dos seus membros estão a posicionar-se para as próximas eleições regionais, outros à espera de não atrapalhar as suas actuais ou futuras carreiras profissionais e outros, ainda, renderam-se ao capitalismo verde.
No que diz respeito ao seu pendor ambientalista ou ecologista, através de uma análise ao que fazem, nomeadamente às suas publicações ou páginas Web, facilmente se chegará à conclusão de que todas elas apresentam uma forte componente ambientalista.
Partindo do princípio de que a missão dos movimentos sociais é a alteração do statu quo que se caracteriza pela perpetuação de uma crise económica, por uma crise política, ecológica e energética, diria que não há grupos ecologistas nos Açores e que os dedos de uma mão talvez sejam suficientes para contar o número de militantes/activistas.

Teófilo Braga