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terça-feira, 26 de setembro de 2023

Não ao abate de aves nativas dos Açores


Não ao abate de aves nativas nos Açores

Perante os recentes planos do Governo Regional dos Açores de autorizar o abate de aves protegidas, como o pombo-torcaz-dos-Açores (Columba palumbus azorica) e o melro-preto-dos-Açores (Turdus merula azorensis), supostamente por causarem prejuízos à agricultura ou devido a um excesso de população [1], afirmações feitas sem nenhuma base científica ou técnica, queremos denunciar as recorrentes falsidades com as quais se pretende justificar este novo e grave atentado contra a fauna e a natureza das nossas ilhas.

É falso que exista um excesso de população destas aves nativas. Na realidade, todas as espécies nativas têm os seus próprios mecanismos de regulação natural, não fazendo qualquer sentido, na ausência de desequilíbrios induzidos, pensar em excessos de população, e ainda menos num meio de tão reduzidas dimensões como o nosso arquipélago. O conceito de excesso de população só é aplicável, regra geral, às espécies exóticas invasoras, introduzidas pelo homem no arquipélago e, portanto, sem nenhum tipo de regulação natural, como é o caso do coelho-bravo e dos ratos, espécies efectivamente causantes de importantes danos na agricultura.

Pelos mesmos motivos, é uma falsidade dizer, em rigor, que uma ave nativa pode ser considerada uma praga. Não existe, de facto, nenhuma ave nativa nos Açores que possa multiplicar-se de forma rápida e sem controlo criando subitamente uma superpopulação causadora de danos.

Pelo contrário, a situação das espécies nativas é muito preocupante em termos de conservação. O pombo-torcaz-dos-Açores é uma espécie incluída no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal [2] e a legislação europeia confere-lhe a máxima protecção, proibindo expressamente o seu abate (Directiva Aves, Anexo I), proibição que é igualmente aplicável durante o período reprodutor a qualquer outra espécie protegida.

A população do pombo-torcaz-dos-Açores apresenta-se, na realidade, muito reduzida como consequência da progressiva perda do seu habitat natural, constituído pela floresta laurissilva, quase desaparecida na actualidade, e por causa da caça ilegal [2]. A densidade de população da espécie nos Açores é muito mais baixa do que é habitual para a mesma espécie no continente, contabilizando-se apenas 5 aves/km2 em época pós-reprodutora na maioria das ilhas [3]. Deve considerar-se também que durante a época reprodutora, que vai de fevereiro a setembro, a espécie tem ainda um comportamento territorial [4].

As características da reprodução desta espécie fazem com que uma eventual recuperação das suas populações seja muito difícil, pois de forma geral só têm uma cria por ano. Pior ainda, segundo um recente estudo realizado na Terceira [4], a ilha aparentemente com maior abundância da espécie, o seu sucesso reprodutor é de apenas 9%, chegando a juvenis só uma décima parte do número inicial de ovos. E mais de metade dos indivíduos juvenis poderia não sobreviver ao primeiro ano de vida [3]. Nestas condições, portanto, é irrealista falar de excesso de população ou de que a espécie possa multiplicar-se fora de controlo, sendo certo que o abate de exemplares poderia colocar em grave risco a sobrevivência da mesma.

A verdade é que a desaparição desta espécie é uma possibilidade bem real, como indica o triste exemplo do arquipélago da Madeira: o pombo-torcaz-da-Madeira (Columba palumbus maderensis) foi completamente exterminado em tempos recentes, encontrando-se a espécie actualmente extinta [2]. E a outra espécie de pombo nativo deste arquipélago, o pombo-trocaz (Columba trocaz), continuamente acusado também de causar prejuízos à agricultura, já desapareceu da ilha de Porto Santo, sobrevivendo actualmente apenas na ilha da Madeira.

De facto, pensa-se que há poucas décadas o próprio pombo-torcaz-dos-Açores poderia ter estado próximo da extinção, reduzido talvez a só duas centenas de casais reprodutores, e unicamente foi salvo pela proibição da sua caça na década de 1990 [3]. Curiosamente, mesmo nesses momentos a espécie continuava a ser acusada de causar danos e de estar em excesso. Os estudos existentes revelam, neste sentido, uma incongruência entre as queixas dos agricultores e o comportamento observado nas aves, responsáveis por apenas estragos pontuais e localizados [5].

Na realidade, existe frequentemente uma incorrecta percepção das espécies que são responsáveis pelos danos nas culturas. Apesar de que os viticultores dos Açores têm assinalado muitas vezes estas espécies como pragas, sendo por vezes eliminadas por isso, um recente estudo realizado na ilha Terceira [6] demonstra que o pombo-torcaz-dos-Açores e o melro-preto-dos-Açores provocam danos pouco significativos neste tipo de culturas. Pelo contrário, as principais responsáveis pelas perdas são duas espécies exóticas invasoras: a lagartixa-da-Madeira (Teira dugesii) e o pardal-doméstico (Passer domesticus), para além das várias espécies de ratos, todas elas igualmente invasoras. Resultados semelhantes foram obtidos na ilha do Pico [7].

Outra das aves acusada de ser uma praga, o melro-preto-dos-Açores, é na realidade uma espécie de comportamento territorial, não existindo portanto possibilidade de haver altas densidades de exemplares nem excessos de população. Para além disso, a sua alimentação é omnívora, consumindo ao longo do ano insectos, lagartas, minhocas ou caracóis, pelo que resulta de facto incompreensível esquecer agora o seu possível papel benéfico para a agricultura, próprio deste tipo de aves [6].

Numa situação diferente em relação às anteriores encontra-se a rola-turca (Streptopelia decaocto), uma espécie que tem vindo a colonizar o continente europeu durante o século passado e chegou aos Açores há apenas uns quinze anos, tendo-se reproduzido e expandido desde então pelo arquipélago. Devido à sua recente chegada, pouco é sabido sobre o seu comportamento e a sua possível tendência populacional, ainda que o mais provável é que venha ocupar um habitat semelhante ao do pombo-das-rochas. Refira-se, já agora, o desconhecimento que existe também sobre esta última espécie, considerada cinegética, pois a forma própria das ilhas, o pombo-das-rochas-atlântico (Columba livia atlantis), poderia ter desaparecido devido à introdução e hibridação com as numerosas variedades domésticas da forma continental da espécie.

Apesar de tudo o referido, o Governo Regional decidiu avançar agora, de forma despropositada, com a autorização do abate da rola-turca [8] sem se conhecer a dinâmica da sua população nem quantificar os danos que esta nova espécie nativa possa produzir. A recente autorização contradiz claramente a legislação vigente, pois não são apresentados os imprescindíveis estudos sobre a situação da espécie, não se dá prioridade a métodos de controlo não violentos, não se colocam limites ao abate e não se evita o período reprodutor da espécie. Para além disso, o Governo insiste na falsidade dos danos desta espécie nas culturas vitivinícolas, estigmatizando e relacionando este sector com práticas ambientalmente reprováveis. E longe de tentar clarificar todas estas questões, o Governo Regional ainda evitou propositadamente o debate deste tema na Assembleia Regional [9].

Não há dúvidas de que em toda sociedade moderna qualquer actividade económica, onde a agricultura se insere, deve respeitar limites e regras, não sendo aceitável que essa actividade atente contra as pessoas, a natureza ou o ambiente. Uma agricultura que se quer sustentável e com futuro deve adoptar necessariamente um modelo de actividade integrado e em harmonia com a natureza, mostrando um respeito crescente pelos ecossistemas naturais nos quais se insere.

Surpreende que, ainda hoje, a natureza possa ser considerada como o inimigo e a única solução para qualquer problema seja matar e eliminar as espécies existentes, uma situação própria de tempos passados, quando por exemplo o priolo (Pyrrhula murina), uma ave endémica da ilha de São Miguel, foi considerada nociva e quase exterminada pelos danos que supostamente causava nas culturas de laranja [10]. Mais surpreendente é que o Governo Regional alinhe nesta visão retrógrada e, longe de proteger a fauna nativa e a agricultura, dedique o seu tempo a insistir em falsidades em vez de procurar soluções reais. Existem, de facto, muitas e variadas formas de minimizar os possíveis danos produzidos pelas aves na agricultura: protecções com redes, dispositivos afugentadores de diferentes tipos, plantação simultânea de culturas alternativas, para além das compensações económicas pela eventual perda de rendimentos.

Não é esta, infelizmente, a primeira tentativa de introduzir na região o abate de espécies de aves protegidas. Já em 2015 pretendeu-se autorizar o abate das duas primeiras espécies citadas e do estorninho-dos-Açores (Sturnus vulgaris granti). Finalmente, perante a falta real de argumentos e perante a oposição da opinião pública, o abate foi substituído por medidas reais para minimizar os danos causados na agricultura, preservando-se também, desta forma, a classificação da Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico. Naquele momento, o protesto incluiu uma petição pública [11] que recolheu quase um milhar de assinaturas, contando também com o apoio de diversas organizações ambientalistas regionais e nacionais.

As aves nativas dos Açores, resultado de milhões de anos de evolução, são únicas no mundo, possuem um elevado valor natural e desempenham um papel fundamental na manutenção dos frágeis e ameaçados ecossistemas insulares. É necessário, portanto, adaptar a prática de uma agricultura sustentável à imprescindível protecção das nossas espécies e da natureza das nossas ilhas.

Referências:

[1] Açores vão controlar excesso de aves protegidas que são praga para agricultura. Lusa, 14/08/2023. Acedido em: https://www.sapo.pt/noticias/economia/acores-vao-controlar-excesso-de-aves_64da64e96714d631b617b6ab

[2] Almeida, J., Catry, P., Encarnação, V., Franco, C., Granadeiro, J.P., Lopes, R., Moreira, F., Oliveira, P., Onofre, N., Pacheco, C., Pinto, M., Pitta Groz, M.J., Ramos, J. & Silva, L. 2005. Columba palumbus Pombo-torcaz. Em: M.J. Cabral et al. (eds), Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, p. 329. Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa.

[3] Dickens, M. & Neves, V. 2005. Post-breeding density and habitat preferences of the Azores Woodpigeon, Columba palumbus azorica: an inter-island comparison. Arquipélago. Life and Marine Sciences 22A: 61-69.

[4] Fontaine, R., Neves, V.C., Rodrigues, T.M., Fonseca, A. & Gonçalves, D. 2019. The breeding biology of the endemic Azores Woodpigeon Columba palumbus azorica. Ardea 107: 47–60. doi:10.5253/arde.v107i1.a4

[5] Plano Sectorial para a Rede Natura 2000 – Açores. Espécies da Directiva Aves/Habitats 140/99 Diário da República Anexo A-1: Columba palumbus azorica. IslandLAB. https://islandlab.uac.pt/fotos/publicacoes/publicacoes_Columba_palumbus_azorica_EspeciesDirectivaAvesHabitats140_99_DiarioRepublicaAnexoA-I.pdf

[6] Lamelas-López, L. & Ferrante, M. 2021. Using camera-trapping to assess grape consumption by vertebrate pests in a World Heritage vineyard region. Journal of Pest Science 94:585–590. https://doi.org/10.1007/s10340-020-01267-x

[7] Genética revela que pombo-torcaz é mesmo único nos Açores. Diário Insular, 09/06/2022.

[8] Despacho n.º 1556/2023 de 8 de setembro de 2023. Jornal Oficial II Série - Número 174, 8 de setembro de 2023. https://jo.azores.gov.pt/#/ato/0f622003-4b8b-432c-848f-9cfb8820beec

[9] Partidos de direita ignoram estudo e permitem abate indiscriminado de ave protegida provocando danos na biodiversidade e reputacionais. Nota de imprensa do Grupo Parlamentar do BE. http://base.alra.pt:82/Doc_Noticias/NI18508.pdf

[10] Tavares, J. (coord). 2015. Parecer do Departamento de Biologia sobre o “Projecto de Resolução Nº96-X – Plano estratégico de combate às pragas dos Açores”. Universidade dos Açores. http://base.alra.pt:82/iniciativas/p_social/ps1588.pdf

[11] Petição Pública: Em Defesa da Avifauna Açoriana. Pela conciliação da protecção das espécies com uma exploração agrícola sustentável. http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=DefesaAvifaunaAcores

ASSOCIAÇÕES E GRUPOS ASSINANTES:

Amigos dos Açores – Associação Ecológica

Amigos do Calhau – Associação Ecológica

IRIS – Associação Nacional de Ambiente, Núcleo Regional dos Açores

Avifauna dos Açores

Coletivo Açoriano de Ecologia Social

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Torda-anã


Torda-anã

Foi encontrada no Pico da Pedra, no dia 15 de janeiro uma ave marinha, denominada torda-anã (Alle alle) que possui plumagem preta e branca, com bico espesso e curto.

De acordo com a Wikipédia, “ nidifica nas regiões árcticas em latitudes muito elevadas (80 graus N) e inverna normalmente no mar acima do Círculo Polar Árctico (por exemplo no Mar de Barents, no estreito da Dinamarca e no Mar da Noruega). Mais para sul é pouco comum, sendo excepcional a sua ocorrência em Portugal.”

Esta ave que não é muito comum aparecer nos Açores, foi assinalada pela primeira vez por Godman na publicação “On the Birds of the Azores”, datada de 1866.

Damos os parabéns ao sr. Filipe Travassos que a recolheu e que tudo fez para que a ave fosse devolvida à liberdade depois, de devidamente observada por quem de direito.

Ainda ontem foi contatado o Centro de Reabilitação de Aves Selvagens de São Miguel que ficou de vir buscar a ave ao Pico da Pedra. Esperamos que o tenha feito.

Nota- agradecemos a Gerbrand Michielsen pela sua pronta identificação da ave.

Pico da Pedra, 16 de janeiro de 2018
TB

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Assine e divulgue

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A propósito das pragas no século XIX


A propósito das pragas no século XIX

Há diferentes definições para o vocábulo praga. Caroline Faria na página brasileira InfoEscola escreve que “Praga biológica é um termo que pode ser utilizado para designar organismos que, quando se proliferam de forma desordenada ou fora de seu ambiente natural, podem causar algum tipo de dano ao ambiente, às pessoas ou à economia”.

Entre nós, no século XIX, o termo praga, segundo Francisco Maria Supico era usado para designar “as aves daninhas à agricultura”. Francisco Supico no jornal “Persuasão”, publicado no dia 4 de setembro de 1895, refere que a Câmara Municipal de Ponta Delgada, em 1839, “premiava com razoável quantia quem lhe apresentasse cada dúzia de bicos daquelas aves, que se inutilizavam cuidadosamente para evitar burlas”. Ainda de acordo com a mesma notícia, em 1895, a praga já não eram as aves mas os ratos.

Através da “Persuasão”, de 8 de julho de 1896, fica-se a saber que a perseguição às aves já se fazia no século XVIII, existindo uma postura em cuja certidão, passada a 13 de maio de 1792, obrigava a “que todos os lavradores hortelões, ou quaisquer outras pessoas sem exceção que cultivarem terras, quintas, vinhas ou matas, ou sejam próprias ou por arrendamento, tragam à Câmara duas cabeças de pássaros por cada um alqueire de propriedade que assim lavrarem ou cultivarem, até ao fim do mês de junho de cada um ano, com pena de pagarem 10 reis por cada uma das cabeças com que faltarem até à quantidade de dois moios de terra, ou de qualquer outra propriedade que tiverem por sua conta”.

Muitas posturas se seguiram até ao último ano em que a Câmara de Ponta Delgada cobrou o imposto de praga. De acordo com Supico, tal ocorreu no ano de 1875-1876, sendo o valor recebido de 296554 reis.

Mas, que aves eram incluídas na categoria de praga?

Ainda de acordo com a mesma fonte, no século XVIII todas as aves “eram condenadas ao extermínio”, na postura de 1824 não eram abrangidas “as codornizes, galinholas e perdizes, “para caça da mocidade que devesse dar-se a esse entretenimento nobre”” e na última, a de 1842, eram perseguidos o canário, o melro-negro e o tentilhão.

Em relação ao número de aves mortas, em Ponta Delgada, o Açoriano Oriental estimava que “para mais de 40 000 cabeças de praga daninha foram entregues às chamas”, em 1851. Em 1854, foram queimados, em Ponta Delgada mais de 100 000 “bicos de praga daninha” e no ano seguinte só entre 1 de janeiro e 23 de fevereiro foram queimados 39 067 bicos.

Mas os massacres não ocorreram só em Ponta Delgada, por exemplo em Vila Franca do Campo no ano de 1834 foram mortas 32 968 aves, em 1835, 18 109, e em 1836, 39 247.

Francisco Maria Supico, na Persuasão do dia 14 de setembro de 1898, menciona o “brutal e perigoso emprego de veneno”, arsénico, para ajudar no combate às aves durante alguns anos. Segundo ele “a selvajaria do emprego do arsénico para matar pássaros, não continuou. Desde logo se lhe reconheceriam os grandes perigos”.

A perseguição às aves não mereceu a unanimidade da sociedade micaelense, não tendo merecido a aceitação por parte do Padre João José do Amaral e de Tomaz Hickling.

A propósito da contestação ao combate à praga, Francisco Maria Supico escreveu:

“Tantos anos decorreram e tantas gerações se sucederam a praticar estes dois males: matar inocentes e cercear interesses agrícolas.

Porque afinal veio a conhecer-se que é menor o mal causado pelos pássaros do que o benefício que eles produzem nutrindo-se da bicharada que se desenvolve nos terrenos”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31037 de 14 de setembro de 2016, p. 16)

sábado, 30 de julho de 2016

Ave rara


Açores, 12 de abril de 1973

sábado, 6 de junho de 2015

Assine a petição em defesa da avifauna açoriana


Em Defesa da Avifauna Açoriana

Para: Governo Regional dos Açores, Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, Comissão Europeia, Parlamento Europeu, UNESCO.

Pela conciliação da proteção das espécies com uma exploração agrícola sustentável.

O Governo Regional dos Açores decidiu permitir pela primeira vez o abate de três espécies de aves protegidas dos Açores: o Pombo-torcaz, o Melro-preto e o Estorninho, em zonas de cultura da vinha das ilhas do Pico e da Terceira (Despachos n.º 378/2015 e n.º 1057/2015). Face a esta deliberação, vimos manifestar o seguinte:

As aves nativas dos Açores são únicas no mundo e possuem um elevado valor natural, desempenhando um papel fundamental na manutenção dos frágeis e ameaçados ecossistemas insulares. Assim acontece com o Pombo-torcaz-dos-Açores (Columba palumbus azorica), com o Melro-preto-dos-Açores (Turdus merula azorensis) e com o Estorninho-dos-Açores (Sturnus vulgaris granti), subespécies só existentes no nosso arquipélago e cuja conservação é fundamental e deve ser motivo de orgulho para todos os açorianos.

A legislação europeia confere a máxima proteção ao Pombo-torcaz-dos-Açores, proibindo expressamente o seu abate (Directiva Aves, Anexo I). Proíbe igualmente o abate de qualquer espécie protegida durante o seu período reprodutor, como é o caso de qualquer uma das três espécies aqui mencionadas: o Pombo-torcaz, o Melro-preto e o Estorninho. Por esta razão a presente autorização é claramente contrária à legislação europeia, e também à legislação nacional e regional dela derivada.

As razões utilizadas agora pelo Governo Regional dos Açores para justificar esta autorização são a existência de um excesso de população destas aves e os estragos causados à agricultura. Do nosso ponto de vista, esta medida, que dizem excecional, carece de uma sólida sustentação científica, pois não são conhecidos quaisquer inventários, e não é conhecida nenhuma avaliação minimamente rigorosa dos danos que estas espécies ocasionam.

Em qualquer sociedade moderna toda a actividade económica, onde a agricultura se inclui, deve respeitar limites e regras, não sendo aceitável que essa actividade atente contra as pessoas, a natureza ou o ambiente.

Uma agricultura que se quer sustentável e com futuro deve adotar necessariamente um modelo de atividade integrado e em harmonia com a natureza, com um respeito crescente pelo ecossistema nativo no qual se insere. Os possíveis e eventuais danos criados sobre as culturas pela fauna nativa devem ser minimizados por métodos não violentos, dos quais existe uma grande variedade, desde os mais tradicionais até aos mais inovadores, como são as culturas alternativas, as proteções com redes ou a utilização de diversos dispositivos afugentadores. E quando tal não for possível os agricultores deveriam ser compensados pela perda de rendimentos.

A Paisagem da Cultura da Vinha da ilha do Pico foi reconhecida pela UNESCO como parte do Património Mundial por ser um exemplo de desenvolvimento sustentável, integrando uma actividade humana tradicional com a manutenção dos seus valores naturais e da biodiversidade. A sua área inclui ainda locais únicos e biótopos de um elevado valor para a conservação. Estes valores e este reconhecimento internacional devem ser potenciados e não colocados em causa.

Assim, nós cidadãos pedimos:

- A retirada imediata dos Despachos governamentais que autorizam a caça destas espécies nativas protegidas.

- A implementação de medidas para criar nas culturas da vinha um modelo de agricultura sustentável e respeitador do ambiente e da natureza.

- Uma decidida aposta no ecoturismo como factor de desenvolvimento das nossas ilhas, nomeadamente da Paisagem da Cultura da Vinha.

Assine aqui: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=DefesaAvifaunaAcores

sábado, 10 de dezembro de 2011

A Propósito de Aves



1- A estrelinha ou ferfolha é uma ave granívora?

Uma notícia da Agência Lusa publicada, no Açoriano Oriental, no passado dia 29 de Outubro, e em outros órgãos de comunicação social regionais e nacionais sobre o anúncio, por parte do Governo Regional dos Açores, de um conjunto de medidas para a conservação do habitat da estrelinha-de-Santa-Maria é deveras reveladora do deslize governamental ou da criatividade do(a) jornalista.
Nada tenho contra a substituição das espécies exóticas existentes no Pico Alto por espécies endémicas e acho que tudo deve ser feito para a protecção da estrelinha de Santa Maria, que, de acordo com a versão mais recente do Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, encontra-se criticamente em perigo, isto é enfrenta um risco de extinção na natureza extremamente elevado.
Mas o que me levou a escrever esta nota foi a divulgação de uma pretensa alteração dos hábitos alimentares da estrelinha.
De acordo com o texto que venho mencionando, o Secretário Regional do Ambiente terá afirmado que a estrelinha é “uma ave granívora, que depende da vegetação natural de grãos, que é muito reduzida na ilha de Santa Maria”.
Foi precisamente esta afirmação que me deixou perplexo, já que sempre ouvi dizer que a estrelinha é uma ave insectívora. Como não sou especialista no assunto, fui consultar tudo o que estava ao meu alcance e não fiquei com quaisquer dúvidas. Com efeito, toda a bibliografia consultada, confirmou que a estrelinha alimenta-se de insectos (Observação de Aves nos Açores, de Pedro Rodrigues e Gerbrand Michielsen) ou mais especificamente de “insectos, vermes minúsculos e aranhas” (Aves dos Açores, de Carlos Pereira).
Nova descoberta científica, erro colossal ou invencionice jornalística?
Também, não fiquei suficientemente esclarecido acerca do que efectivamente se pretende para Santa Maria. Criar um projecto “estrelinha”, à semelhança do Projecto Life Priôlo?

2-Turismo de aviário

Os últimos tempos têm sido pródigos em polémicas a propósito de uma petição lançada por um grupo de ambientalistas, ecologistas, ornitólogos e observadores de aves que pretendem, no essencial, duas coisas: evitar a inclusão de aves nativas dos Açores na lista de espécies cinegéticas e a introdução na região de espécies exóticas para serem caçadas.
A petição, que já seguiu para a Comissão de Assuntos Parlamentares, Ambiente e Trabalho para ser anal e já foi assinada por mais de um milhar de cidadãos nacionais e estrangeiros, terá sido responsável por uma tomada de posição pública por parte da SPEA- Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.
Embora não me reveja nas posições da SPEA, associação que desenvolve projectos “em conjunto” ou, melhor, financiados pelo Governo Regional dos Açores, considero que foi positiva a sua defesa da “suspensão da caça com munições de chumbo em sistemas aquáticos, a suspensão de caça aos patos, a suspensão de introdução de espécies exóticas e a regulamentação da caça em áreas protegidas e de interesse para turismo de natureza”.
Sobre este assunto, seria de todo o interesse ouvir ou ler a opinião de todas as outras associações que se dizem de ambiente ou, pelo menos, das que se fazem representar no CRADS- Conselho Regional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. É que tenho acompanhado, através da página da Assembleia Legislativa Regional dos Açores, a sua nula actividade quanto à emissão de pareceres qualquer que seja o assunto em questão. Se nada têm a dizer sobre nada, não acham que seria um favor que fariam aos cofres da região a sua não presença em reuniões daquele órgão que, na verdade, para pouco serve.
Se para a SPEA parece não haver incompatibilidade entre a morte das aves e a sua observação, para o vice-presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, os Açores encontraram um novo maná, a observação de aves engaioladas. Com efeito, é dele a seguinte afirmação: “a observação de aves criadas em cativeiro…pode constituir um nicho de mercado turístico nos Açores”.
Quanto ao conceito de biodiversidade do Dr. Bolieiro, nem vale a pena comentar.
Teófilo Braga
Correio dos Açores, 7 de Dezembro de 2011, p. 13)

domingo, 20 de novembro de 2011

Avifauna dos Açores- novo blogue




Foi criado um novo blogue sobre aves dos Açores que pode ser consultado aqui:
http://avifaunadosacores.blogspot.com/

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

For the protection of azorean birds and against its inclusion in the list of cynegetic species



Considering the intention of the Regional Government of the Azores to include native azorean species in the List of Cynegetic Species, in the new Regional Law – Regulatory Law for the Protection of Biodiversity, which is now being discussed in the Azorean Regional Parliament, the signers of this petition want to point out the following:

1. The lack of scientific studies on the biology of these species and their habitats. There is a profound lack of knowledge on the genetic characterization of some of these species, raising many problems in the conservation of their biodiversity. Also, the habitats occupied by all these species are very restricted and highly sensitive, which means that any change in these habitats may also have strong implications in their conservation. There is also a lack of studies on the importance of the Azores in the migration of certain birds.
2. The absence of a conservation status attributed to the species included in this list. None of the species included in the list has been attributed a conservation status in the Azores biogeographic region, due to the inexistence of the scientific studies which are necessary for that effect. However, considering the international criteria which are used, it seems likely that some of these species will be qualified as threatened species (and therefore will be qualified as critically endangered, endangered or vulnerable species).
3. The lack of studies on the impact of hunting on these species and their habitats. Hunting the species included in the list may have an extremely negative impact, considering that the size of their populations is extremely small and some of them occupy habitats, namely for feeding, which are extremely scarce and localized. The hunting activity should also cause a negative impact on all the other species occupying that habitat, whether they are included in the list of cynegetic species or not. And in the case of humid regions, hunting may cause the contamination of water resources with lead, which may provoke a disease known as saturnism.

4. This list is impossible to apply, due to the extreme difficulty to identify the species correctly. Some of the species included in this list are almost indistinguishable from other species which are not included and which are regularly present in the Azores. This happens namely with several species of European ducks versus their American counterparts, and even more concerning European and American snipes.
5. The problem of introducing exotic species. The inclusion of two species of exotic birds in the list means they will be introduced in the natural environment. This kind of introduction has been carried out in the past and seems to ignore the risks associated with exotic species in a particularly fragile ecosystem such as the one existing in the Azorean islands. Exotic species and varieties may cause, such as in the case of the quail, serious hybridization problems and decrease genetic diversity in the native species, besides introducing pathogenic agents.
6. The importance to recognize the economic potential of birdwatching tourism. The Azores archipelago is a privileged region for the observation of both American and European migratory bird species (more than 400 species have been observed in recent years), and has a high potential to develop birdwatching tourism, which has been steadily growing. This type of tourism has numerous economic advantages for the Azores: it is an activity which takes part in all the islands; it occurs mainly during autumn and winter, i.e, during the low season; it is a green and sustainable tourism, with low environmental impact; and it brings external money into the Azorean economy. This type of tourism is obviously incompatible with the permission to hunt species from the Azorean bird fauna.
In this context, the signers of this petition request that:

- Native species (breeding or visiting) must not be included in the list of cynegetic species of the Azores.

- Exotic species, namely birds, must not be introduced in the Azores natural environment for hunting purposes.

- The development of a green tourism based in birdwatching, which brings economic advantages to all the Azorean islands is promoted.


Signatures
http://www.peticaopublica.com/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=AVESACOR

NOTE. The birds included in the proposal of the Cynegetic List of Species for the Azores Autonomic Region are:
1) Native: Common Snipe (Gallinago gallinago), Eurasian Woodcock (Scolopax rusticola), Mallard (Anas platyrhynchos), Gadwall (Anas strepera), Northern Shoveler (Anas clypeata), Common Teal (Anas crecca), Eurasian Wigeon (Anas penelope), Northern Pintail (Anas acuta), Garganey (Anas querquedula), Common Quail (Coturnix coturnix).
2) Exotic: Red-legged Partridge (Alectoris rufa), Grey Partridge (Perdix perdix), Rock Pigeon (Columba livia).

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Petição A favor da avifauna açoriana e contra a sua inclusão na lista de espécies de carácter cinegético



Para:
Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores; Sua Excelência Presidente do Governo Regional dos Açores; Sua Excelência Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores; Suas Excelências Presidentes dos Grupos Parlamentares à ALRAA;

Face ao recente propósito do Governo Regional dos Açores de incluir espécies de aves nativas açorianas na Lista das espécies cinegéticas, através do novo decreto regional - Regime Jurídico da Conservação da Natureza e da Protecção da Biodiversidade, actualmente em discussão na Assembleia Regional, os assinantes desta petição querem chamar a atenção para:

1. A falta de estudos científicos sobre a biologia destas espécies e dos seus habitats. Existe um grande desconhecimento sobre a caracterização genética dalgumas destas espécies, levantando grandes problemas na conservação da sua biodiversidade. Para além disso, os habitats que todas estas espécies ocupam são muito restritos e sensíveis, pelo que qualquer alteração neles poderá ter também grandes implicações na sua conservação. Faltam igualmente estudos sobre a importância que a região desempenha nas migrações de determinadas aves.

2. A falta de atribuição dum estatuto de conservação às aves incluídas nesta lista. Nenhuma das espécies incluídas nesta lista de espécies cinegéticas tem atribuída uma categoria de conservação na região biogeográfica dos Açores, não existindo ainda os estudos científicos necessários para tal efeito. No entanto, atendendo aos critérios internacionais utilizados, parece provável que algumas destas espécies venham a ser qualificadas como espécies ameaçadas (e catalogadas portanto como criticamente em perigo, em perigo ou vulneráveis).

3. A falta de estudos sobre o impacto da caça nestas espécies e os seus habitats. O impacto da caça nas espécies incluídas na lista poderá ser especialmente grave devido às suas muito reduzidas populações e ao facto delas ocuparem habitats, nomeadamente os de alimentação, muito escassos e localizados. A actividade da caça deverá ainda afectar a todas as espécies que ocupam esse habitat, incluídas ou não nesta lista das espécies cinegéticas. E no caso das zonas húmidas, a caça poderá levar à contaminação das águas com chumbo e à aparição da doença do saturnismo.

4. A impossibilidade prática de aplicar esta lista devido à enorme dificuldade de identificar correctamente as espécies. Algumas espécies incluídas nesta lista são quase impossíveis de diferenciar de outras espécies não incluídas nela e que também estão presentes regularmente nos Açores. Isto acontece nomeadamente com várias espécies de patos europeus em relação aos seus equivalentes americanos, e mais ainda em relação às narcejas europeias e americanas.

5. O problema da introdução de espécies exóticas. O facto da lista de espécies cinegéticas incluir também duas espécies de aves exóticas coloca em clara perspectiva a introdução destas no meio natural. Introduções deste tipo, já realizadas no passado, parecem ignorar os riscos associados às espécies exóticas num meio tão particularmente frágil como o meio insular açoriano. As espécies e variedades exóticas podem causar, como no caso das codornizes, graves problemas de hibridismo e de diminuição do património genético das espécies nativas, para além de introduzir também agentes patogénicos.

6. A necessária aposta no turismo de observação de aves. O arquipélago dos Açores é uma região privilegiada para a observação de aves migratórias americanas e europeias (mais de 400 espécies observadas nos últimos anos) e tem enormes oportunidades para o desenvolvimento do turismo de observação de aves (birdwatching), já em franca expansão. Este tipo de turismo traz inúmeras vantagens económicas para a Região: é uma actividade repartida por todas as ilhas; acontece principalmente durante os meses de outono e inverno; é um turismo verde e sustentável, quase sem impacto no ambiente; e injecta dinheiro de fora da Região na economia das ilhas. Mas este turismo, como é evidente, é incompatível com a permissão da caça das espécies da avifauna açoriana.

Assim, os assinantes desta petição solicitam:


- A não inclusão das espécies de aves nativas (reprodutoras ou visitantes) na lista de espécies de carácter cinegético dos Açores.

- A não introdução de espécies exóticas, nomeadamente aves, com um propósito cinegético no meio natural dos Açores.

- O desenvolvimento dum turismo verde associado à observação de aves que traga vantagens económicas a todas as ilhas açorianas.

Assine aqui:

http://www.peticaopublica.com/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=AVESACOR

domingo, 6 de novembro de 2011

Há espaço para uma associação açoriana de ornitologia?



No passado dia 24 de Outubro realizou-se, em Ponta Delgada, o Iº Encontro Regional de Observadores de Aves nos Açores, onde foi discutido, entre outros assuntos, a viabilidade da criação de uma associação regional de observadores de aves.

Podemos agrupar as várias intervenções que ouvimos sobre o assunto em três categorias: a das pessoas que claramente se manifestaram a favor da criação de uma associação açoriana, a das que defenderam que uma associação regional só fazia sentido se, para além da observação de aves, tivesse como objectivos a sua protecção, bem como a dos seus habitats e, um grupo minoritário que achava que já tínhamos nos Açores uma associação, a SPEA- Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.

No encontro referido, fui a primeira pessoa, da assistência, a manifestar a minha opinião de que é importante a criação de uma nova associação, de carácter regional, pois, hoje, não faz qualquer sentido que os açorianos – onde incluo os naturais e residentes - fiquem dependentes de decisões tomadas a muitos milhas náuticas de distância.

Para o associativismo ambiental, e não só, defendo as seguintes características: a autonomia, a descentralização, a democracia participativa, a participação voluntária e a independência face aos diversos poderes, nomeadamente económico e político.

A SPEA que chegou aos Açores em 2003, associada ao Projecto LIFE Priôlo – “Recuperação do Habitat do Priôlo na Zona de Protecção Especial (ZPE) Pico da Vara/Ribeira do Guilherme” e que tem desenvolvido um trabalho exemplar, associada ao Governo Regional dos Açores, na área da conservação das aves e dos seus habitats, do meu ponto de vista, na prática, está muito longe perfilhar as características atrás mencionadas.

Assim sendo, e sem por de parte a possível e desejável colaboração com a SPEA sempre que haja acordo mútuo, faz todo o sentido, diria mesmo que é urgente a criação de uma associação açoriana para a observação e protecção das aves que tenha, entre outros os seguintes objectivos:

- Estimular a conservação da avifauna e dos seus habitats;

- Incentivar a inclusão da observação de aves na cultura da população, como um instrumento de conservação da avifauna e difusão de conhecimentos;

- Denunciar, por todos os meios ao seu alcance, todas as situações que ponham em causa a biodiversidade e a riqueza da avifauna açoriana.

Teófilo Braga

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Estudo e Protecção de Aves nos Açores no final do século passado



Neste texto, que, por opção não é exaustivo, não me debruçarei sobre o contributo de vários ornitólogos amadores que, a nível individual, sempre observaram aves, nem sobre o trabalho realizado nos primeiros anos da Universidade dos Açores, dinamizado pelo Dr. Gerald Le Grand e pelo seu colaborador Eng. Duarte Furtado. Assim, limitar-me-ei a apresentar, sucintamente, o que foi feito por algumas associações.
Nos Açores, das várias associações de defesa do ambiente existentes no final do século passado, poucas se interessaram pelo estudo e protecção das aves. Entre as que mais preocupações demonstraram, destacaria o Centro de Jovens Naturalistas, o NPEPVS/Delegação dos Açores e os Amigos dos Açores.
O Centro de Jovens Naturalistas de Santa Maria, cuja actividade foi mais intensa nas décadas de 70 e 80 do século passado, sob a liderança do Sr. Dalberto Teixeira Pombo, procurou sensibilizar os mais jovens para a importância das aves, tendo, entre outras publicações, editado o “Jogo da Migração”, da autoria da RSPB, e um autocolante sobre a estrelinha, ave endémica dos Açores.

O NPEPVS/Delegação dos Açores, que esteve em actividade em São Miguel, de 1982 a 1984, tinha, de acordo com os seus estatutos, como objectivo prioritário a protecção da natureza, em especial da fauna e da flora. Para a concretização daquele objectivo o NPEPVS conseguiu organizar um centro de documentação, localizado em Vila Franca do Campo, com diversas publicações e filmes sobre a vida de aves e lançou duas campanhas, uma em defesa das aves marinhas e outra para protecção das aves de rapina.
Da mesma associação, destaca-se a edição de dois números (Primavera de 1983 e Inverno de 1984) do “Priôlo - Boletim para a Conservação da Natureza nos Açores”. Nos dois números do boletim, para além de textos sobre o milhafre, o mocho, o priôlo e o “status” e distribuição da avifauna nidificante nos Açores, eram também divulgadas notas ornitológicas, onde eram registadas as observações de aves efectuadas em toda a Região.
Ao longo da sua história, os Amigos dos Açores tiveram dois grupos específicos para o estudo e protecção das aves.
O primeiro denominou-se NOATA - Núcleo de Ornitologia dos Amigos dos Açores, criado em Abril de 1989, que ao longo da sua existência organizou diversas visitas de estudo para observação de aves e dinamizou, em 1990, uma Campanha em Defesa do Pombo Torcaz. Nesta, foram editados um autocolante e um desdobrável que foram distribuídos por alunos de diversas escolas e foi feita uma impressão de uma t-shirt com uma gravura do pombo torcaz da autoria do biólogo Gerald Le Grand.
Nos últimos dias de Agosto e no primeiro dia de Setembro de 1990, o referido grupo organizou um Curso de Introdução à Ornitologia, dinamizado pela Dr.ª Fátima Melo Medeiros, que contou com a presença de 15 participantes.
Mais tarde, em 1993, foi criado o GTEA- Grupo de Trabalho para o Estudo das Aves, que foi responsável, entre outras iniciativas, pela campanha “Um espaço para os garajaus” que, para além de exposições sobre a espécie editou, no primeiro ano, mais de 4000 folhetos que foram distribuídos pelas escolas da Região. Também em 1993, o mesmo grupo lançou a campanha “ A Escola e o Cagarro” que consistiu na realização de um inquérito sobre a espécie e a distribuição de cerca de 10 000 desdobráveis pelas escolas dos Açores.
Em1995, o GTEA promoveu um curso de introdução à observação e censo de aves que contou com a participação de 20 pessoas, algumas das quais coordenadoras de clubes escolares de ambiente, dinamizou, em São Miguel, a campanha SOS Cagarro, promoveu um estudo sobre o milhafre que foi apresentado na 2ª Conferência Nacional sobre Aves de Rapina, realizada em Vila Nova de Gaia, e editou 5000 desdobráveis sobre o milhafre.
No ano seguinte, 1996, o GTEA promoveu um curso de introdução ao estudo das aves de rapina, implementou o projecto Rapinas dos Açores e continuou a dinamizar a campanha SOS Cagarro.
Até ao final do século, foi sempre a associação Amigos dos Açores que, ano após ano manteve de pé, em São Miguel, a campanha SOS Cagarro e reeditou várias vezes os desdobráveis, referidos anteriormente, sobre o pombo torcaz, o cagarro, o milhafre e o garajau.

Teófilo Braga

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O nome das coisas



1- Bufo?

Há alguns anos, já não me lembro quantos, um jovem investigador ligado à Universidade dos Açores, não sei se finalista de algum dos cursos da área da biologia, chegou à conclusão de que os açorianos estavam redondamente enganados. Com efeito há vários séculos chamavam milhafre ou queimado àquilo a que deviam chamar de águia-de-asa-redonda.
Há quase trinta anos aprendi com investigadores seniores das Universidades de La Laguna (Canárias) que, em relação aos nomes vulgares das localidades, de plantas ou animais, o mais correcto é perguntar às pessoas e não estar a “inventar” nada de novo. Assim, entendo que quem nos visita ou quem está cá por qualquer razão não tem o direito de impingir designações que não são as nossas.
Vem este arrazoado a propósito de várias designações de plantas e de aves que têm aparecido em algumas publicações. Se em relação às plantas, tive a oportunidade de confirmar através de consulta bibliográfica que muitas das designações comuns foram importadas da ilha da Madeira, no que toca às aves, a maioria das designações que têm surgido ou são “inventadas” ou são copiadas das usadas em Portugal continental.
Nada tenho com a divulgação dos nomes que são dados às várias espécies nas mais diversas localidades do país, mas não posso respeitar a substituição, qualquer seja o pretexto invocado, das designações usadas nos Açores por outras venham donde vierem
Mas, no meio de tanta imaginação criadora há uma coisa que me irrita: designar “bufo” à rapina nocturna que desde criança conheço com o nome de coruja, mas que também é conhecida por mocho. A ave não merece!
Consultando alguma bibliografia é fácil chegar à conclusão de que as duas designações usadas nos Açores sempre foram coruja ou mocho, nunca aparecendo qualquer menção ao dito bufo, provavelmente por não existir entre os animais ditos irracionais quem se comporte como alguns humanos.
Tanto o Dr. Francisco Carreiro da Costa, num dos números do Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, como o Padre-mestre, vila-franquense, Ernesto Ferreira, em apontamentos etnográficos, falam sobre a coruja na superstição popular. Este último diz-nos o seguinte: “o pio da coruja e de um palmípede marinho, a cagarra, por cima de uma casa, prognostica que nesta haverá morte próxima”.
O terceirense Alfredo da Silva Sampaio, por seu lado, refere que o mocho existe no interior da ilha e é raro e acrescenta: “Drouet menciona também o Strix-flammea (coruja), como existente nos Açores, mas na Terceira é desconhecida”.

2- Ignorância e educação

No início da década de noventa do século passado, houve um reputado escritor que chamou ignorantes aos açorianos pois, nas suas andanças pelas ilhas, ao perguntar a várias pessoas os nomes de algumas plantas ouviu como resposta, muitas vezes, que eram ervas, não conseguindo identificar as espécies em questão.
Se o mesmo voltasse, hoje, aos Açores ficaria aterrorizado. Com efeito, excluindo algumas pessoas mais idosas e um ou outro jovem mais curioso, é cada vez menor o número de pessoas capaz de identificar uma simples planta, mesmo das mais comuns, ou qualquer ave, para além do pardal ou do milhafre e mesmo assim, ainda, vão ouvir da boca de muitos que se trata de um açor.
A título de exemplo, há cerca de dois anos, entregaram-me, no meu local de trabalho, um pombo jovem (borracho) que tinha caído do ninho para tratá-lo e depois libertá-lo. Não é que algumas das pessoas que o observaram diziam que se tratava de um corvo!
Mais recentemente um grupo de jovens encontrou um pardal pequeno e também me entregou. Estaria tudo bem se entre eles não tivesse surgido uma grande dúvida: tendo em conta a sua cor seria uma ave ou um rato.
Face ao exposto, todos os esforços que se façam para dar a conhecer o nosso património natural são sempre bem-vindos. A minha grande dúvida é se chegam a quem verdadeiramente deles precisa.

Teófilo Braga

Fonte: Correio dos Açores, 6 de Julho de 2011

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Melro-negro



Foto de 30 de Abril de 2011

domingo, 26 de dezembro de 2010

Caça ou “Birdwatching”?


(Praia de Água d'Alto, 27 de Outubro de 2002)

Como já por várias vezes escrevi, não temos um Governo Regional nos Açores, mas sim vários. Uns mais ambientalistas, outros mais anti-ambientalistas, sendo que, de uma maneira geral os meios e os montantes usados na protecção do ambiente são menores do que os usados na destruição da natureza, que é, diria eu, lenta mas “sustentável.

Vem esta introdução a propósito de uma proposta que mantém como espécies cinegéticas várias espécies de patos, alguns deles com ocorrência muito rara nos Açores, o que a ser aprovada entrará em contradição com o investimento que a região tem feito no turismo de natureza. No caso presente, temos a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar a inviabilizar o trabalho da Secretaria Regional da Economia, através da Direcção Regional do Turismo.

A caça em todo o mundo está a sofrer uma enorme pressão por parte de uma nova geração mais sensibilizada para a defesa do património natural, sendo substituída por outras actividades como o pedestrianismo, com mais de 15 milhões de participantes, e o Birdwatching ou Observação de Aves, praticada por mais de 80 milhões de pessoas. Mesmo alguns caçadores desportivos têm diminuído a sua prática ou mesmo abandonado o seu “hobby”, trocando-o pela observação de aves, pela “caça” fotográfica ou pela realização de filmagens.

Por seu lado, a observação de aves, embora seja uma actividade com alguns impactos ambientais negativos, sempre muito menores do que, por exemplo a caça ou a pecuária intensiva, para além de trazer riqueza para as populações das várias localidades onde aquela é feita, pode contribuir para a conservação do ambiente, a longo prazo, pois os praticantes, normalmente pessoas com algum poder económico e elevado grau de instrução, para além de estarem dispostos a pagar para a conservação dos lugares que visitam, poderão ser preciosos auxiliares na fiscalização das zonas visitadas.
Embora não tenha sido nossa intenção esgotar os argumentos para justificar a necessidade da promoção de actividades mais saudáveis e mais respeitadoras do ambiente e dos animais, como são o pedestrianismo e a observação de aves, em detrimento de uma outra actividade, a caça, com maiores impactos ambientais e que provoca alguma insegurança (para não mencionar os acidentes e mortes) derivada do uso de armas, pensamos que os mesmos são mais do que suficientes para que o Governo Regional retire todas as espécies de patos na lista de aves cinegéticas.

Por último, pensamos que caberá a todos nós - não caçadores, ambientalistas consequentes, ecologistas de vários matizes, birdwatchers, defensores do património natural ou simples amantes da natureza – manifestar o nosso repúdio pela aprovação de uma legislação que vai contribuir para o empobrecimento da biodiversidade dos Açores e impedir o próprio desenvolvimento de toda uma região para benefício de uns poucos.

Pico da Pedra, 26 de Dezembro de 2010

Teófilo Braga

Nota- É possivel que tenha saído num jornal de São Miguel uma versão deste texto com algumas incorrecções.

sábado, 27 de novembro de 2010

Aves dos Açores



Realço neste livro o respeito dos autores pelos nomes dados às várias espécies nos Açores, ao contrário de muitos outros que não têm qualquer consideração pela história e tradições de quem vive nestas ilhas plantadas no Atlântico.

Vale a pena a leitura.

TB

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

As aves dos Açores em Livro