Pela criação de um Colectivo Açoriano de Ecologistas que tenha por objectivo a reflexão-acção sobre os problemas ambientais, tendo presente que estes são problemas sociais e que a sua resolução não é uma simples questão de mudanças de comportamentos, mas sim uma questão de modelo de sociedade.
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terça-feira, 21 de março de 2017
Um parque zoológico que condena a Povoação ao ostracismo
Um parque zoológico que condena a Povoação ao ostracismo
Nos primeiros dias de fevereiro, foi divulgado um "Livro Negro do Parque Zoológico da Povoação" e um manifesto assinado por cerca de 100 pessoas propondo o encerramento daquele espaço que estará aberto há alguns anos apesar de desrespeitar a legislação em vigor.
Para os autores dos documentos mencionados, o parque zoológico tal como está ou com a remodelação anunciada, para além de não passar de uma prisão para os animais, não beneficia a economia local e, pelo contrário, é motivo para afastamento de visitantes ao centro da vila.
Para além dos relatos presentes, no livro citado, de cidadãos, sobretudo de outros países, que descrevem as más condições existentes para os animais, recebemos e divulgamos o depoimento de uma sócia de uma conhecida Agência de Viagens que afirmou ser "chocante" e "uma verdadeira vergonha… tratar animais dessa maneira", e acrescentou o seguinte: "Quando tenho grupos de turistas prefiro não parar no centro de Povoação para não mostrar uma vergonha e um crime …. A Camara devia fechar o espaço".
Sobre o referido parque no início deste ano circularam notícias que referem a morte, numa mesma semana, de dois macacos, um babuíno e um macaco-verde, sem que até hoje os responsáveis pelo espaço, indagados por uma associação local, tenham dado uma explicação para tal.
Termino, referindo que não se compreende que um espaço que não respeita a legislação, nomeadamente o Decreto-Lei nº 59/2003, de 1 de abril, alterado pelo Decreto-Lei nº 104/2012, de 16 de maio, continue aberto ao público, contribuindo para dar uma má imagem de um concelho que possui um património natural único no mundo, a freguesia das Furnas com todas as suas manifestações de vulcanismo e com os seus jardins botânicos e já possuiu uma rede de trilhos pedestres que metia inveja aos restantes concelhos da ilha.
Ao contrário do que propalam os autarcas a atração pelo centro da Vila não se fará só pelas fofas e muito menos pela remodelação do Parque Zoológico.
Ponham a imaginação a funcionar!
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31185, 21 de março de 2017, p. 13)
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Sobre zoológicos
Ainda sobre zoológicos
No momento em que escrevo este texto mais de mil e cem pessoas já subscreveram uma petição dirigida ao presidente da Câmara Municipal da Povoação, pedindo para que o mesmo repense o projeto de recuperação do chamado parque zoológico e procure uma alternativa que não implique a manutenção de animais em cativeiro.
O sucesso da petição, lançada por pessoas que acompanham a situação daquele espaço, situado no centro da Povoação, pelo menos desde 2009, deve-se ao facto de não só no estrangeiro, mas também entre nós ser cada vez maior o número de pessoas preocupadas com os direitos dos animais.
A preocupação crescente, a nível mundial, com a situação dos animais e com a deseducação dos humanos associada à criação de animais selvagens em cativeiro tem levado ao encerramento de muitos zoológicos ou à sua reconversão.
De acordo com um “dossier” da responsabilidade do Projeto ZOOXXI, entre os países que têm fechado mais parques e jardins zoológicos estão os Estados Unidos, a China, a Inglaterra, a Austrália e o Canadá.
Ainda segundo o mesmo Projeto, as principais causas para o encerramento de zoológicos são as crises económicas, as condições precárias e um inadequado manejo dos animais e a pressão pública para a sua melhoria ou eliminação, quando estão a causar danos aos animais ou mesmo a prejudicar a imagem das localidades onde estão instalados.
O conhecido escritor inglês Desmond Morris, responsável durante dez anos pelos mamíferos do Zoo de Londres, um dia afirmou: “Sei que os bons jardins zoológicos são importantes por muitas razões, mas aprendi o suficiente para me aperceber dos danos causados aos animais ao mantê-los cativos. E simplesmente não quis continuar”
De entre as razões importantes referidas por Desmond Morris, estarão a função educativa e o seu papel na conservação das espécies, as quais são contestadas por vários autores.
No que diz respeito à sua função educativa, o facto dos animais enjaulados em pequenos recintos apresentarem comportamentos anormais em nada contribui para o real conhecimento das diversas espécies.
Alguns pedagogos sustentam mesmo que o cinema, a televisão, as animações informáticas constituem um recurso muito mais útil do que os parques zoológicos.
A segunda ideia, a de que os jardins zoológicos contribuem para a preservação de algumas espécies com vista à sua reintrodução na natureza, é também posta em causa pelos autores que vimos citando. Com efeito, aqueles autores referem que são muito poucos os casos em que tal aconteceu e mencionam o facto de nos anos 90 das três mil espécies em cativeiro em zoológicos apenas 66 estavam em vias de extinção.
No ano 2000, a presidente da Liga Para a Protecção da Natureza, afirmou que “o que se verifica é que os parques zoológicos são meras instituições de atividades lúdicas e até de alguma exploração animal ligada a atividades financeiras, quase industrializadas.”
De então para cá pouco se modificou e no caso da Povoação, para além da manutenção dos animais em condições precárias, mesmo ilegais perante a legislação em vigor, o parque nunca teve nem tem condições para ter uma função pedagógica nem nenhum papel para a conservação de espécies e é insuficiente querer aumentar o tamanho das jaulas quando o que importa é mudar de paradigma.
Termino, apelando ao bom senso da Câmara Municipal da Povoação e citando um comentário, deixado na página web da petição referida no início, de Milou van Mulken, que visitou o local e não gostou: “Eu vi pessoas dando cigarros aos macacos !! E não havia pessoal responsável para evitar que tal fosse feito. Este não é lugar para macacos. Muito pequeno e eles parecem deprimidos.”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31103, 14 de dezembro de 2016, p.16)
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
Um zoológico para São Miguel
São Miguel precisa de um zoológico?
Com o aumento do número de visitantes à ilha de São Miguel, nos últimos tempos, quase só se pensa em sacar dinheiro aos mesmos, não importa como e com que custos, nomeadamente ambientais. Há quem venda gato por lebre, como peças de “artesanato” que nada têm de açoriano e há quem imagine novas atrações que já tiveram a sua época, mas que hoje estão completamente ultrapassadas, como aquários e zoológicos.
Não me vou pronunciar sobre o anunciado aquário para Ponta Delgada porque os governantes já deram o seu aval, embora não queiram assumir a sua responsabilidade se o dito for à falência por falta de visitantes. Para poderem lavar as mãos inventaram a realização um referendo que à partida terá uma participação ridícula, pensando que a vitória do sim ao mesmo é mais do que garantida, pois uma população desinformada e deseducada facilmente opta pela megalomania e por música mesmo desafinada e roqueiras.
Nadando a favor da maré, tal como faz o peixe moribundo, a Câmara Municipal da Povoação, depois da desistência do Nordeste em criar um jardim zoológico, anuncia que vai investir cerca de 250 mil euros para remodelar o seu parque zoológico pois segundo ela atrai turistas e crianças.
Não posso negar que o referido parque não atraia visitantes e a prova foi que, por curiosidade, e por já ter ouvido falar tão mal da situação em que se encontravam os animais, o ano passado lá fui e saí desolado com o que vi e com o que ouvi de alguns continentais que tal como eu tiveram a oportunidade de ver os macacos a comerem uma pomba que havia ficado detida na prisão onde eram obrigados a sobreviver.
Mas o meu desapontamento ainda é maior ao saber que gente jovem que está à frente dos destinos da autarquia pensa como pensavam os velhos do século XIX, com a agravante de quererem, para não maçar as vistas, fazer a rotação dos animais em exposição, com animais vindos de Lisboa. A que preço para os contribuintes e com que custos para os animais?
Esta ideia enclausurar animais não é de hoje. Com efeito, em 1972, houve uma tentativa de criar um mini zoológico e um aquário em Ponta Delgada, no Parque da Cidade (Jardim António Borges).
De acordo com informações colhidas, já havia a possibilidade de conseguir, a título gratuito, alguns animais nas Províncias Ultramarinas bem como o seu transporte. O Dr. Carlos Medeiros, na altura, defendeu que não fosse sacrificado o Jardim António Borges e que fosse adquirido um terreno “situado no lado nascente daquele jardim para ali se ir instalando o futuro Mini-Zoo” e acrescentou que “no referido terreno se encontra um edifício que poderia, salvo melhor opinião, ser utilizado para se instalar um aquário nos moldes do que foi proposto por nós à Exma. Comissão Executiva da Junta Geral em 8 de maio de 1970”.
Não sei porque falhou a criação do zoológico e do aquário, mas uma explicação plausível foi dada através do seguinte diálogo, entre caçadores, publicado no jornal “A Ilha”:
“ Ouvi que vamos ter um jardim Zoológico? Não é como o de Lisboa, mas será coisa para se ver. Diz que a Câmara é que faz isso? Creio que sim, amigo Xico. Mas por todos os lados se diz que a Câmara não tem dinheiro e até o preço das licenças dos cães subiu, etc.. Como é isso? Os passeios das ruas da cidade mal-amanhados e outras necessidades urgentes mas não há bala, para o Zoo vai aparecer. O que diz o irmão? Ó Xico os tempos são outros e há dinheiro apenas para o que convém…
Passados mais de 40 anos, o que não terá sido feito por falta de dinheiro ou porque o mesmo era usado com parcimónia, volta a estar em discussão.
A grande diferença é que hoje faz-se muita asneira por haver dinheiro a mais e por não haver qualquer receio dos projetos não serem bem-sucedidos pois, quer sejam públicos ou privados, o contribuinte é que acaba por os pagar.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31087, 23 de novembro de 2016, p.16)
sábado, 6 de fevereiro de 2010
No Nordeste, ilha de São Miguel (Açores) vai nascer um elefante

Depois da experiência falhada de criar e manter um Parque Zoológico no Pico da Pedra por parte de um privado, o qual chegou a ter alguns animais sem quaisquer condições de segurança e de espaço que garantisse as mínimas condições para os animais, assiste-se à aberração que é a Câmara Municipal da Lagoa manter em cativeiro um macaco numa gaiola num jardim em Santa Cruz e à teimosia da Câmara Municipal da Povoação em persistir em manter, em local de segurança duvidosa e sem condições, um conjunto de animais presos no denominado Parque Zoológico da Povoação.
Relativamente à Povoação, tivemos a oportunidade de ouvirmos o veterinário responsável pelo espaço dizer, na RTP - Açores, que o futuro do parque seria definido pelas escolas em termos das suas necessidades educacionais. Se a continuação daquele espaço, mesmo em condições mais dignas para os animais, depender das escolas podemos estar descansados já que os seus dias estarão contados pois a observação de animais em cativeiro, com comportamentos alterados por este facto, não tem a mínima importância em termos do ensino da biologia ou da ecologia e muito menos da educação ambiental. Para esta temos os nossos espaços naturais, com a sua flora e fauna características que muitos mais ensinamentos nos podem dar do que animais encaixotados apenas para satisfazer as mentes doentias de alguns.
Insensível a todos os argumentos contra a criação de Parques Zoológicos, o presidente da Câmara Municipal de Nordeste, persiste na criação de um no seu concelho, sabendo que o mesmo não estará ao serviço da educação das novas gerações, já que um bom filme/documentário desempenhará melhor este papel, em nada contribuirá para um melhor conhecimento dos animais e não será no zoológico de Nordeste que será feito algo para evitar a extinção de qualquer espécie.
Assim, o que faz correr a Câmara Municipal de Nordeste?
A ilusão de que o concelho ficará inundado de resmas de turistas, contribuindo para melhorar a fraca economia dos nordestenses?
Os tempos dirão, mas estamos certos que tal não acontecerá e no Nordeste nascerá um elefante branco cuja manutenção ficará a cargo do erário público enquanto vida tiver.
Pico da Pedra, 6 de Fevereiro de 2010
Teófilo Braga
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