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quarta-feira, 21 de julho de 2010

O priôlo adora automóveis


Máquinas à solta nas áreas protegidas

Este ano o Sata Rallye Açores vai passar novamente pelas Áreas Protegidas da Tronqueira e do Planalto dos Graminhais, tal como em anos anteriores (ver). Como é bem sabido, esta zona oriental da ilha de São Miguel é precisamente o único lugar do mundo onde vive o priôlo (Pyrrhula murina), ave endémica desta ilha e que se encontra entre as espécies mais ameaçadas do planeta. E outra vez, tal como em anos anteriores, o rallye vai passar nesta zona durante a época de reprodução desta ave açoriana única (a época de reprodução decorre de meados de junho ao fim de agosto).

No seu dia, os governantes açorianos pareceram demonstrar uma grande consciência ambiental ao criar as referidas Áreas Protegidas da Tronqueira e dos Graminhais, nascidas sem dúvida com o nobre propósito de preservar a laurissilva original da ilha e o habitat necessário para a sobrevivência do priôlo. Mas curiosamente, na altura do ano em que os rallyes aparecem no calendário, todos esses nobres e louváveis propósitos parecem ficar bem atrás nas suas cabeças pensantes. Sim, a laurissilva e o priôlo são sem dúvida símbolos de excelência do património natural dos Açores –parecem pensar–, mas não são nada que se compare, na realidade, a um bom espectáculo de rallyes com montes de carros barulhentos a percorrer a alta velocidade a ilha, e tudo isso bem regado com uma boa e abundante dose de cerveja para acompanhar o evento.

É nesta triste perspectiva que o rallye Sata Rallye Açores, um evento financiado por entidades públicas, acaba por conseguir, uma vez e outra, as licenças necessárias para passar por quaisquer áreas protegidas, mesmo nas épocas mais perniciosas. Afinal, contra mais protegida e mais natural é a zona percorrida pelo rallye, maior e mais vistoso é o espectáculo.

Mas será que para isto era preciso dar-se ao trabalho de declarar a Serra da Tronqueira como área legalmente protegida? Será que este e outros rallyes tem de passar necessariamente pelas zonas protegidas da ilha? Não há mais caminhos disponíveis? Será que, sendo assim, tem de passar precisamente na época de reprodução duma espécie tão ameaçada? Será que a necessidade de espectáculo do rallye é mais importante que a preservação das espécies nativas açorianas? Será que é ainda necessário gastar tanto dinheiro público para realizar este tipo de eventos? E será que, afinal, há alguma coisa na cabeça dos nossos governantes?

O priôlo, a flora nativa e, em geral, a natureza das ilhas estão ainda muito longe de ser vistos com orgulho pelo povo açoriano e de ser contemplados como uma parte substancial do seu património e da sua essência cultural e afectiva. Nesta necessária tarefa de sensibilização e de enriquecimento cultural, os governantes deveriam dar sempre o exemplo. Mas não é isto que acontece… Perguntem aos priôlos!

Posted by D.M. Santos

Fonte: http://osverdesacores.blogspot.com/

Nota- Seria interessante conhecer, se existe, algum estudo sobre o impacto da passagem do rallye na Tronqueira, numa altura em que o priôlo está em período de reprodução. O que pensará de tudo isto a tutela do ambiente? E a CE que tem financiado os vários projectos? Ou os "negócios" estão em primeiro ligar e acima de tudo?

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Entrevista à Contacto Verde, nº 46, 15 de Julho de 2008


Foto: Clube Asas de São Miguel.

1. Quando surgiu a Associação? O que motivou o seu início de actividade?

R- A associação apareceu em 1984, como núcleo regional da Associação Portuguesa de Ecologistas- Amigos da Terra. No inicio as preocupações principais eram a conservação da natureza e a educação para a paz e a procura de alternativas para a vida em sociedade.

2.Que grupos de trabalho e colectivos existem na Associação? Poderia abordar um pouco da actividade de cada um?


Nos Amigos dos Açores existem os seguintes grupos de trabalho: GTE- Grupo de Trabalho de Espeleologia, GTAAL - Grupo de Trabalho de Actividades de Ar Livre, GTEA- Grupo de Trabalho de Educação Ambiental e Grupo de Fotografia de Natureza.
O Grupo de Trabalho de Espeleologia que tem por objectivos, entre outros, realizar estudos espeleológicos e editar publicações fez o levantamento das grutas e algares de São Miguel, bem como tem realizado estudos no âmbito da vulcanoespeleologia. Além disso, o Grupo tem participado em diversos encontros internacionais de espeleologia, onde tem apresentado comunicações e elaborou o livro Grutas, Algares e Vulcões.
O Grupo de Trabalho de Actividades de Ar Livre, que tem por objectivo principal a defesa, valorização e divulgação do património natural e cultural através da prática do pedestrianismo, promove a realização de saídas de campo de redescoberta de caminhos antigos, com vista à sua recuperação para a prática do pedestrianismo, faz a monitorização dos trilhos existentes, promove e participa em acções de formação na
O Grupo de Trabalho de Educação Ambiental tem por objectivos principais reflectir sobre a temática da educação ambiental, apoiar professores e educadores e coordenar projectos de educação ambiental da associação. O GTEA, para além da elaboração de materiais diversos, tem participado em acções de sensibilização, sobretudo em escolas dos mais diversos níveis de
O Grupo de Fotografia de Natureza tem por objectivo a divulgação e a defesa do património natural dos Açores através da fotografia. Neste sentido o grupo já criou um blog (http://ecofoto-acores.blogspot.com/) e tem em preparação a realização de vários cursos de fotografia.
3. Há alguns momentos-chave da vida da Associação que gostasse de destacar?

Para além da criação da associação em Janeiro de 1984, há a destacar a passagem a associação regional, em 2 de Dezembro de 1987, com a designação “Amigos da Terra/Açores, e a adopção da actual designação, a 19 de Outubro de 1989.

4. Há alguns elementos do património natural particularmente ligados à vida da Associação? Quais? O que os distingue?

Entre outros exemplos, destacaríamos quatro áreas protegidas que foram classificadas como tal por propostas dos Amigos dos Açores que foram aceites pela Secretaria Regional do Ambiente e do Mar: Caldeira Velha, Pico das Camarinhas e Ponta da Ferraria, Gruta do Carvão e Lagoas do Congro e Nenúfares.
A Caldeira Velha apresenta fumarolas, afloramentos rochosos traquíticos e uma nascente termal que origina uma ribeira de vale encaixado.
A Gruta do Carvão, maior túnel lávico conhecido na ilha de São Miguel (com 1869 m actualmente conhecidos) apresenta diversas estruturas vulcanospeleológicas, com destaque para paredes estriadas, longos balcões, canais sobrepostos, vestígios de bolhas de gás, numerosas estalactites de fusão e algumas estalagmites resultantes da sobreposição de pingos de lava.
O Pico da Camarinhas corresponde a um cone de escórias basálticas associado à fajã lávica da Ponta da Ferraria. Nesta fajã existe uma nascente termal e um cone litoral que constitui um pequeno cone piroclástico sem conduta de alimentação profunda.
As Lagoas do Congro e dos Nenúfares ocupam uma cratera de explosão hidromagmática (maar) e apresentam um grande interesse paisagístico.

5. Que problemas ambientais se destacam na Região dos Açores?

Em primeiro lugar, queríamos destacar o défice de participação pública que estará associado a uma deficiente educação ambiental, muito centrada na divulgação do património natural dos Açores e não na alteração de comportamentos.

Outra das questões que é muito esquecida é a forte dependência dos Açores dos combustíveis fósseis. Achamos que a região não está a aproveitar em pleno as suas potencialidades em termos de recursos renováveis e sobretudo não tem apostado seriamente na poupança e eficiência energéticas.

Há também problemas relacionados com o ordenamento do território, um dos quais, o mais mediático, está relacionado com a eutrofização das grandes lagoas de São Miguel, problema que se arrasta há muitos anos, e com a gestão dos resíduos sólidos, apontando-se neste caso a grande falha que consiste na inexistência de um Plano Regional para a Redução dos mesmos. A política tem sido “os resíduos são um negócio” quando o lema deveria ser “o melhor resíduo é o que não se produz”.


6. Actualmente, há algum atentado ambiental que tenha suscitado a acção da Associação? Qual? Com que desenvolvimentos?


Não queríamos destacar nenhum problema específico, estamos atentos ao que vai acontecendo e tem sido nosso objectivo pressionar as entidades para a resolução dos diversos problemas, quer directamente, quer através dos órgãos de comunicação social. A título de exemplo, e embora não tenhamos tomado uma posição pública, falaria no caso da construção de uma estrada para a Fajã do Calhau (já referida na entrevista concedida pela Associação Amigos do Calhau). Neste caso, temos a certeza que pouco seria possível fazer pois tratava-se de uma obra da “responsabilidade” da presidência do Governo Regional dos Açores e com a conivência de quase todos os grandes partidos regionais, como o PS e o PSD que nunca se manifestaram contra. Também, devido a um caso anterior, não acreditamos nas queixas à Comunidade Europeia.



7. Têm estado em contacto com outras associações no âmbito da vossa actividade? Consideram importante esse contacto?

Achamos que é importante manter contactos, aos mais diversos níveis, com associações congéneres com vista à troca de experiências e à realização de actividades em comum. Nesse sentido os Amigos dos Açores têm protocolos celebrados com várias outras associações, como com o GEOTA e a SETA, a nível nacional, com os Montanheiros e a Gê-Questa, a nível regional, e está em preparação um protocolo, envolvendo uma associação da Madeira e outra das Canárias.

Começamos, recentemente, a colaborar com outra associação existente em São Miguel, a Associação Ecológica Amigos do Calhau.

Ler a entrevista aqui.