Pela criação de um Colectivo Açoriano de Ecologistas que tenha por objectivo a reflexão-acção sobre os problemas ambientais, tendo presente que estes são problemas sociais e que a sua resolução não é uma simples questão de mudanças de comportamentos, mas sim uma questão de modelo de sociedade.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2016
A propósito das pragas no século XIX
A propósito das pragas no século XIX
Há diferentes definições para o vocábulo praga. Caroline Faria na página brasileira InfoEscola escreve que “Praga biológica é um termo que pode ser utilizado para designar organismos que, quando se proliferam de forma desordenada ou fora de seu ambiente natural, podem causar algum tipo de dano ao ambiente, às pessoas ou à economia”.
Entre nós, no século XIX, o termo praga, segundo Francisco Maria Supico era usado para designar “as aves daninhas à agricultura”. Francisco Supico no jornal “Persuasão”, publicado no dia 4 de setembro de 1895, refere que a Câmara Municipal de Ponta Delgada, em 1839, “premiava com razoável quantia quem lhe apresentasse cada dúzia de bicos daquelas aves, que se inutilizavam cuidadosamente para evitar burlas”. Ainda de acordo com a mesma notícia, em 1895, a praga já não eram as aves mas os ratos.
Através da “Persuasão”, de 8 de julho de 1896, fica-se a saber que a perseguição às aves já se fazia no século XVIII, existindo uma postura em cuja certidão, passada a 13 de maio de 1792, obrigava a “que todos os lavradores hortelões, ou quaisquer outras pessoas sem exceção que cultivarem terras, quintas, vinhas ou matas, ou sejam próprias ou por arrendamento, tragam à Câmara duas cabeças de pássaros por cada um alqueire de propriedade que assim lavrarem ou cultivarem, até ao fim do mês de junho de cada um ano, com pena de pagarem 10 reis por cada uma das cabeças com que faltarem até à quantidade de dois moios de terra, ou de qualquer outra propriedade que tiverem por sua conta”.
Muitas posturas se seguiram até ao último ano em que a Câmara de Ponta Delgada cobrou o imposto de praga. De acordo com Supico, tal ocorreu no ano de 1875-1876, sendo o valor recebido de 296554 reis.
Mas, que aves eram incluídas na categoria de praga?
Ainda de acordo com a mesma fonte, no século XVIII todas as aves “eram condenadas ao extermínio”, na postura de 1824 não eram abrangidas “as codornizes, galinholas e perdizes, “para caça da mocidade que devesse dar-se a esse entretenimento nobre”” e na última, a de 1842, eram perseguidos o canário, o melro-negro e o tentilhão.
Em relação ao número de aves mortas, em Ponta Delgada, o Açoriano Oriental estimava que “para mais de 40 000 cabeças de praga daninha foram entregues às chamas”, em 1851. Em 1854, foram queimados, em Ponta Delgada mais de 100 000 “bicos de praga daninha” e no ano seguinte só entre 1 de janeiro e 23 de fevereiro foram queimados 39 067 bicos.
Mas os massacres não ocorreram só em Ponta Delgada, por exemplo em Vila Franca do Campo no ano de 1834 foram mortas 32 968 aves, em 1835, 18 109, e em 1836, 39 247.
Francisco Maria Supico, na Persuasão do dia 14 de setembro de 1898, menciona o “brutal e perigoso emprego de veneno”, arsénico, para ajudar no combate às aves durante alguns anos. Segundo ele “a selvajaria do emprego do arsénico para matar pássaros, não continuou. Desde logo se lhe reconheceriam os grandes perigos”.
A perseguição às aves não mereceu a unanimidade da sociedade micaelense, não tendo merecido a aceitação por parte do Padre João José do Amaral e de Tomaz Hickling.
A propósito da contestação ao combate à praga, Francisco Maria Supico escreveu:
“Tantos anos decorreram e tantas gerações se sucederam a praticar estes dois males: matar inocentes e cercear interesses agrícolas.
Porque afinal veio a conhecer-se que é menor o mal causado pelos pássaros do que o benefício que eles produzem nutrindo-se da bicharada que se desenvolve nos terrenos”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31037 de 14 de setembro de 2016, p. 16)
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Declaração de Viena
Declaração de Viena: defender a nossa herança natural, biodiversidade e segurança e soberania alimentares
Declaração no espírito da verdade, vida e justiça
Apelo urgente para proteger a nossa herança natural, a biodiversidade e a segurança alimentar
O direito fundamental do ser humano de cultivar plantas é a base de toda a civilização. Durante séculos as pessoas têm cultivado as suas próprias plantas para vender e comer, para criar belas hortas e jardins e para criar novos habitats para a vida selvagem.
Tudo isto está agora gravemente posto em risco com a introdução do novo regulamento da União Europeia que controlará a produção, distribuição e venda de TODOS os Materiais para Reprodução Vegetal: sementes, bolbos, plantas já formadas, até mesmo plantas silvestres. O regulamento proposto irá limitar o que as pessoas podem plantar e vender, em nome da defesa do consumidor.
Há um considerável apoio entre as partes negociadoras para reconhecer os direitos dos agricultores. A proposta da Comissão(1) reconhece o direito dos agricultores e horticultores de trocar e vender sementes e plantas, fazendo algumas concessões, embora fracas e mal definidas, para garantir a preservação da biodiversidade, a livre escolha e o livre acesso a material de propagação de plantas.
No entanto, as regras propostas não protegem adequadamente os direitos das pessoas para plantar, vender e trocar plantas, e não são suficientemente fortes para impedir que os interesses comerciais restrinjam as actividades de criação de plantas, resultando numa ameaça para a segurança alimentar futura e para os direitos dos agricultores e das comunidades de reproduzir e cultivar as suas próprias plantas.
Preocupa-nos que os interesses das grandes corporações, que se apropriam das nossas sementes, tenham prioridade sobre os direitos dos pequenos criadores e agricultores, e sobre a necessidade de proteger o nosso património natural, biodiversidade e segurança alimentar, fundamentais perante um futuro de mudanças climáticas.
Enfrentamos hoje pressões crescentes que ameaçam o futuro da nossa produção alimentar, com a diminuição dos recursos, aumento dos custos de combustível, um clima em mudança acelerada, a perda de habitats e a redução da biodiversidade. Precisamos de preservar e desenvolver a nossa biodiversidade natural.
Os representantes de organizações de agricultores, horticultores, pequenos produtores, criadores e guardiões de sementes, e membros da sociedade civil europeia, reunidos em Viena, Áustria, em 24 de Novembro de 2013, estão profundamente preocupados com a proposta de regulamento da União Europeia para o Material para Reprodução Vegetal [2013/0137(COD)], aprovada em 6 de Maio de 2013 pela Comissão Europeia. Temos sérias preocupações relativamente à soberania alimentar, à preservação da biodiversidade, à segurança alimentar e à saúde e liberdade dos cidadãos europeus.
Pelos motivos expostos exigimos que:
1. As pessoas, sejam elas agricultores ou horticultores, não devem ser obrigadas a comprar "Material para Reprodução Vegetal" de fornecedores comerciais. Qualquer regulamento deve garantir os direitos dos agricultores, horticultores e todos os colectivos de utilizar, trocar e vender as suas próprias sementes e plantas, em linha com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e do Tratado Internacional de Plantas (ITPGRFA).
2. As normas industriais não devem determinar as normas adoptadas para o mercado de sementes e plantas, pois implicam um enquadramento técnico e legal com que as plantas naturais não podem cumprir e não reconhecem a importância da biodiversidade.
3. Plantas livremente reproduzíveis não devem ser sujeitas ao registo obrigatório de variedades ou à certificação de sementes e plantas. A biodiversidade deve ter precedência sobre o interesse comercial, já que é um bem público, tal como a água.
4. Todas as propostas que têm impacto sobre a biodiversidade devem ser objecto de consultas públicas e as decisões devem ser tomadas por representantes eleitos. A protecção da biodiversidade não é um "detalhe técnico" na acepção do Tratado sobre o funcionamento da União Europeia.
5. Os requisitos de rotulagem devem ser verdadeiramente transparentes e reflectir a evolução tecnológica, incluindo os novos métodos de criação microbiológicos, assim como quaisquer restrições técnicas e legais de utilização.
6. Os controlos oficiais que regem as sementes e plantas devem permanecer um serviço público, fornecido gratuitamente aos pequenos operadores (micro-empresas).
(1) Proposta de regulamento para a produção e disponibilização no mercado de material de reprodução vegetal [2013/0137 (COD)], adoptada em 6 de Maio de 2013 pela Comissão Europeia
Os signatários:
AGROLINK Association (BUL) – www.agrolink.org
Arche Noah Verein (A) – www.arche-noah.at
Bese Nature Conservation Society (HU) – www.beseegyesulet.hu
Bifurcated Carrots – www.bifurcatedcarrots.eu
Campaign for Seed-Sovereignty (INT) – www.seed-sovereignty.org
| Kampagne für Saatgut-Souveränität – www.saatgutkampagne.org
Dachverband Kulturpflanzen- und Nutztiervielfalt e.V. (D) – www.kulturpflanzen-nutztiervielfalt.org
Eco Ruralis - in support of traditional and organic farming (RO) –www.ecoruralis.ro
EKOTREND Slovakia – www.ecotrend.sk
Environmental Social Science Research Group (HU) – www.essrg.hu
Fundacja Rolniczej Różnorodności Biologicznej AgriNatura (PL) –www.agrinatura.pl
Föreningen Sesam (SV) – www.foreningensesam.se
GAIA - Grupo de Acção e Intervenção Ambiental (PT) –www.sementeslivres.gaia.org.pt
Garden Organic (GB) – www.gardenorganic.org.uk
GLOBAL 2000 – Friends of the Earth Austria – www.global2000.at
InfOMG - GMO information centre in Romania (RO) – www.infomg.ro
Longo mai (INT) – www.prolongomai.ch
Navdanya International (IN) - http://www.navdanya.org/
Peliti (GR) – www.peliti.gr
Plataforma Transgénicos Fora (Stop GMO Platform, PT) – www.stopogm.net
Red Andaluza de Semillas „Cultivando Biodiversidad“ –www.redandaluzadesemillas.org
Red de Semillas „Resembrando e Intercambiando“ – www.redsemillas.info
Rete Semi Ruralis (I) – www.semirurali.net
Réseau Semences Paysannes (F) – www.semencespaysannes.org
Seed Freedom Campaign (INT) – www.seedfreedom.in
Społeczny Instytut Ekologiczny (PL) – www.sie.org.pl
Stowarzyszenie dla dawnych odmian i ras (PL) – www.ddoir.org.pl
Utopia (SK) – www.utopia.sk
Verein zur Erhaltung der Nutzpflanzenvielfalt e.V. (D) –www.nutzpflanzenvielfalt.de
ZMAG - Zelena mreza aktivistickih grupa (HR)
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Dia Mundial da Alimentação - Dia de Libertação da Semente
DOON VALLEY (ÍNDIA), LISBOA, 16 de Outubro 2012 - Hoje o mundo celebra o dia da alimentação, agradecendo a dádiva da comida e reflectindo sobre a injustiça no acesso a comida nutritiva e culturalmente apropriada, que deixa perto de mil milhões de pessoas à fome e um número ainda maior a sofrer de obesidade (1). Hoje é também o culminar da Quinzena de Acção pelas Sementes Livres, a primeira iniciativa em massa do novo movimento global para a liberdade da semente (2). Num momento crítico em que as sementes locais e tradicionais, que sustentam a alimentação de 75% das pessoas no mundo (3), estão a ser ameaçadas de extinção pela erosão e privatização genéticas, os dinamizadores do movimento pedem a libertação da semente, devolvendo este bem comum fundamental aos povos, para erradicar de vez a fome, a má nutrição e a pobreza.
Segundo o movimento global para a liberdade da semente, a falta e o excesso de comida representam dois lados da mesma medalha: um sistema global de produção de alimentos que privilegia a produção em grande escala de um número reduzido de espécies agrícolas de elevado valor acrescentado (cash-crops), tais como a soja, o milho, a colza e o trigo, em detrimento de centenas de espécies e milhares de variedades de plantas tradicionais (4). A aposta em monoculturas para a exportação e o abandono do cultivo para a auto-suficiência num grande número de países, foram acompanhados por uma perda de 75% da agro-biodiversidade a nível mundial desde 1900 (5).
As organizações e movimentos de base, especialistas, activistas, agricultores, agricultoras, guardiões e guardiãs de sementes que integram a nova aliança global, alertam para o momento de emergência que vivemos, no relatório cívico global sobre o estado das sementes de cultivo, lançado no arranque da campanha a 2 de Outubro (6). O relatório mostra como os actuais regimes de direitos de propriedade intelectual e o continuado crescimento horizontal e vertical das corporações transnacionais, têm resultado numa elevada concentração no mercado global das sementes e em restrições cada vez mais severas para a utilização das sementes, nomeadamente a proibição de guardar sementes protegidas por direitos (7). A física, autora e activista indiana, Vandana Shiva, que fez o apelo inicial para que todos se unissem na luta pela liberdade da semente, afirma: “Se a semente se torna monopólio nas mãos de meia dúzia de corporações, isso significaria a destruição da nossa biodiversidade”.
Centenas de eventos por todo o mundo assinalaram a Quinzena de Acção pelas Sementes Livres (8). Em Portugal foram organizados 17 eventos de Norte a Sul, com trocas de sementes, projecções do filme internacional “A Liberdade da Semente” (Seed Freedom), trabalho comunitário em hortas, oficinas de preservação de sementes tradicionais, e debates e encontros sobre a “emergência” da semente. Hoje pelas 15h30, mulheres e homens defensores de sementes juntar-se-ão num desfile performativo pela Baixa de Lisboa, retratando a “Maria Liberdade da Semente” - uma alusão ao quadro de Delacroix onde a mulher do povo guia o povo -, e distribuindo sementes tradicionais “livres” (9). Antes do desfile, a Campanha pelas Sementes Livres entregará um saco de sementes tradicionais juntamente com a Declaração para a Liberdade da Semente (10) à representação da Comissão Europeia em Portugal.
Para conseguir segurança e soberania alimentares, a diversidade é crucial. As explorações agrícolas biodiversas têm uma produtividade mais elevada com mais nutrientes por hectare do que as explorações que praticam a monocultura (11). Mas a agricultura baseada na biodiversidade só é possível se todos tiverem acesso às sementes adaptadas aos seus ecossistemas e culturas. Só libertando as sementes poderemos libertar a humanidade da fome e da má nutrição. O dia mundial da alimentação é o dia da libertação da semente.
Para mais informações:
Lanka Horstink – coordenadora da Campanha pelas Sementes Livres em Portugal, tel 910 631 664, sementeslivres@gaia.org.pt
Campanha pelas Sementes Livres
semear o futuro,colher a diversidade
Campo Aberto | GAIA | MPI | Plataforma Transgénicos Fora | Quercus
www.sosementes.gaia.org.pt
www.seed-sovereignty.org
Movimento global para a Liberdade da Semente:
Smitha Peter, Navdanya, http://www.navdanya.org/
Email: smthpeter@gmail.com
Mobile: + 91 (0) 8800 254470
Notas
1) Burlingame, B. and Dernini, S. (Eds.) (2012). Sustainable diets and biodiversity: Directions and solutions for policy, research and action. Proceedings of the International Scientific Symposium BIODIVERSITY AND SUSTAINABLE DIETS UNITED AGAINST HUNGER, 3–5 November 2010, FAO Headquarters, Rome. Os números para obesidade incluem pessoas com excesso de peso (cerca de dois terços), definido como um índice de massa corporal de > 25%. Dados da WHO (Organização Mundial para a Saúde).
2) ALIANÇA GLOBAL PARA A LIBERDADE DA SEMENTE
3) ETC Group (2008). Who Owns Nature? Corporate Power and the Final Frontier in the Commodification of Life. ETC Group Report, (publication)
4) FAO (2004) Factsheet “What is agrobiodiversity?”. In “Building on Gender, Agrobiodiversity and Local Knowledge” (2004), FAO.
5) Dados do Banco Mundial, URL http://data.worldbank.org/topic/agriculture-and-rural-development (baseado nos dados da FAO).
6) http://www.navdanya.org/attachments/Seed%20Freedom_Revised_8-10-2012.pdf
7) Segundo o relatório recente de ETC Group, que estuda o sector agrícola e alimentar desde há 30 anos, dez empresas controlam 73% do mercado das sementes comerciais, apenas cinco empresas detêm mais de 50% e uma única empresa, Monsanto, domina 27%. In ETC Group (2011). Who will control the Green Economy?
8) Calendário dos eventos para a Quinzena a nível mundial. Calendário dos eventos em Portugal.
9) Desfile pela Liberdade da Semente
10) Declaração do movimento global para a Liberdade da Semente
11) Altieri, M.A. (2009). “Agroecology, small farms, and food sovereignty”. Monthly Review Vol 61 Nº 3 p:102-113.
Informação adicional
1) Mais sobre a Quinzena de Acção pelas Sementes Livres | Fortnight of Action for Seed Freedom
2) Mais sobre as patentes sobre as sementes e suas implicações: http://www.no-patents-on-seeds.org/ + http://seedfreedom.in/learn/who-owns-the-seed/
3) Filme Seed Freedom (2012)
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Campanha Europeia pelas Sementes Livres alerta para o desaparecimento das sementes tradicionais
Lisboa, 4 de Novembro 2011 – Hoje dá-se início à Seed Savers Tour, uma digressão em defesa das sementes de cultivo não comerciais organizada pelas ONGs, associações, produtores e colectivos que dinamizam em Portugal a Campanha Europeia pelas Sementes Livres (1). Durante 10 dias, horticultores e horticultoras, aspirantes a horticultores e público em geral terão a oportunidade de saber mais sobre as sementes tradicionais que alimentam o mundo: as suas características, a sua importância para a agro-biodiversidade e segurança alimentar e como evitar o seu desaparecimento. A Tour ocorre num momento de grande preocupação com o futuro das sementes de cultivo, depois do anúncio do Instituto Europeu de Patentes que a patente sobre o brócolo da Monsanto não será revogada.
As sementes de cultivo são o resultado de milhares de anos de adaptação e melhoramento de plantas por agricultores e agricultoras em todo o mundo. Até os anos 70, quando a agricultura industrial tomou o globo, cada espécie de planta tinha milhares ou mesmo centenas de milhares de variedades, nalguns casos cultivadas só por uma família. Na altura na Índia existiam perto de duas centenas de milhares de variedades de arroz. Hoje, apenas quatro variedades de arroz alimentam a maioria da população humana e na Índia estima-se que sobrem talvez 10% das variedades tradicionais (2).
O que aconteceu com o arroz verifica-se para todas as espécies de plantas essenciais para a sobrevivência humana. Nos últimos 40 anos, as variedades tradicionais, consideradas não rentáveis, foram sendo substituídas por uma pequena quantidade de híbridos, muito dependentes de agro-químicos para garantir a sua produção e mais susceptíveis a pragas, doenças e intempéries que as variedades adaptadas localmente.
As maioria das sementes comerciais pertencem a apenas dez empresas, gigantes da agro-química. Estas controlam os mercados mundiais das sementes comerciais convencionais, sementes transgénicas e os agro-químicos que sustentam a sua produtividade (3) e gradualmente estão a reforçar os seus direitos intelectuais sobre as plantas que alimentam o mundo. A última versão da Convenção UPOV já proíbe expressamente aos agricultores de preservar sementes de plantas protegidas por direitos (4). Na Europa, a Comissão Europeia prepara-se para propor uma “Lei das Sementes” que virá restringir significativamente a livre circulação e reprodução de sementes (5). E num precedente inesperado recente, o Instituto Europeu de Patentes (EPO) anunciou que não vai revogar a contestada patente concedida à Monsanto sobre um brócolo convencional, apesar da Convenção Europeia das Patentes proibir as patentes sobre variedades de plantas e animais. A nova interpretação dada pelo EPO ao artigo 53 da Convenção (6) vai abrir a porta às patentes sobre as plantas comuns, incluindo os seus produtos e subprodutos, como o molho de tomate ou a farinha (7).
Com a concessão de patentes sobre plantas de cultivo e a crescente restrição na circulação de sementes, os agricultores estão a perder o seu papel milenar de curadores da nossa herança genética. Foi a preocupação com a perda gradual de sementes de variedades tradicionais e dos conhecimentos associados à sua preservação, que há 25 anos levou os Seed Savers australianos Michel e Jude Fanton, convidados especiais da Seed Savers Tour, a fundar a sua rede de preservação e troca de sementes (8). Com 100 redes locais de sementes criadas na Austrália, os Fanton viajam pelo mundo para espalhar a mensagem da semente livre, inspirando milhares de hortelões e defensores da nossa herança alimentar comum.
A Seed Savers Tour arranca hoje em São Brás de Alportel com a projecção do filme dos Fanton “As Nossas Sementes” no Encontro Anual da Semente da rede Colher para Semear, a congénere portuguesa da rede Seed Savers (9). Nos próximos 10 dias a Tour passa ainda por Lisboa e Coimbra, com um total de oito eventos sob a égide da semente tradicional.
Para mais informações:
Lanka Horstink – coordenadora da Campanha pelas Sementes Livres em Portugal, tel 910 631 664, sementeslivres@gaia.org.pt
Programa da Seed Savers Tour: www.seedsaverstour.gaia.org.pt
Campanha pelas Sementes Livres
semear o futuro,colher a diversidade
Campo Aberto | GAIA | MPI | Plataforma Transgénicos Fora | Quercus
www.sosementes.gaia.org.pt
Notas:
A Campanha pelas Sementes Livres é uma iniciativa europeia com núcleos na maioria dos Estados-Membros da União Europeia. Em Portugal a campanha é dinamizada pelo Campo Aberto, GAIA, Movimento Pró-Informação para Cidadania e Ambiente, Plataforma Transgénicos Fora e Quercus, para além de contar já com várias dezenas de subscritores. A Campanha visa inverter o rumo da agricultura na Europa, onde os modos de produção intensivos se sobrepõem cada vez mais à agricultura tradicional e de pequena escala e onde as variedades agrícolas e as próprias sementes, a base da vida, estão a ser retiradas da esfera comum e entregues nas mãos de multinacionais do agro-negócio.
http://independentsciencenews.org/environment/valuing-folk-crop-varieties/
Controlo do mercado mundial de sementes comerciais: As dez maiores empresas de sementes controlavam 55% do mercado e 67% do mercado das sementes patenteadas em 2007 . In Who Owns Nature? Corporate Power and the Final Frontier in the Commodification of Life (2008), ETC Group Report, (publication)
Artigo 14 da Convenção UPOV
Mais sobre a Nova Lei das Sementes
Artigo 53: http://www.epo.org/law-practice/legal-texts/html/epc/1973/e/ar53.html
Algumas das patentes concedidas sobre plantas reproduzidas por métodos convencionais pelo Escritório Europeu de Patentes em 2011:
Brócolo “mais saudável” (EP1069819), pela Monsanto
Tomate com reduzido teor de água (O “Tomate Enrugado”, EP1211926), pelo Estado de Israel
Pepino com sementes inviáveis (EP1433378), pela Bayer
Melão resistente a um vírus (EP1962578B), pela Monsanto
Tomate “sem sementes” (EP1026942), pela Monsanto
Seed Savers Network
Mais sobre a Colher para Semear
domingo, 16 de outubro de 2011
A propósito do Dia Mundial da Alimentação
ONGs e movimentos sociais reclamam Soberania Alimentar no dia mundial da alimentação
Lisboa, 14 de Outubro 2011 - Por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, no próximo Domingo 16 de Outubro, organizações e movimentos da sociedade civil unem as suas vozes para exigir Soberania Alimentar na Europa e no mundo. Desde o início desta semana que por toda a Europa se multiplicam os eventos para chamar a atenção para a urgência de uma nova política europeia e global em matéria de alimentação e agricultura.
A soberania alimentar é a liberdade e capacidade de cada pessoa e cada comunidade de exercer os seus direitos económicos, sociais, culturais e políticos relativos à produção de, e acesso à, sua alimentação. Reconhecer o direito à alimentação é também reconhecer o direito à produção de alimentos e ao acesso aos recursos comuns, tais como terra, água e sementes.
A luta pela soberania alimentar é um movimento transformativo, lançado em 1996 pela Via Campesina 1, que procura recriar o ideal democrático e regenerar a diversidade dos sistemas alimentares autónomos baseados na equidade, justiça social e sustentabilidade ecológica.
A mobilização a favor de uma alternativa aos actuais sistemas alimentar e agrícola, fortemente dominados pela indústria agro-química, tem como pano de fundo o descontentamento generalizado da sociedade civil com o estado da democracia. Um pouco por todo o mundo as pessoas saem à rua para reclamar o direito à informação transparente e uma participação real nas tomadas de decisão.
Desde a marcha “Right2Know” entre Nova Iorque e Washington para exigir a rotulagem dos organismos geneticamente modificados, passando pela ocupação de Wall Street para denunciar o poder abusivo das grandes corporações e bancos – protesto esse que no dia 15 de Outubro será significativamente amplificado quando em cerca de 1.300 cidades as pessoas se manifestarão para pedir uma democracia real -, até à concentração frente à sede da FAO em Roma para protestar o “land grabbing” e o investimento corporativo, as duas últimas semanas de Outubro prometem não dar tréguas ao poder político e corporativo 2.
Estas mobilizações, aparentemente díspares, convergem no entanto na crítica que fazem ao actual modelo económico, que tem permitido a umas poucas dezenas de grandes multinacionais, com a conivência de governos nacionais e apoiadas por convenções internacionais favoráveis à indústria, de controlar não só os recursos financeiros como os recursos naturais comuns.
Em nenhuma área o controlo da indústria é tão evidente como na alimentação e agricultura. Por esse motivo a Via Campesina afirma que “a Soberania Alimentar não representa apenas uma mudança nos nossos sistemas alimentar e agrícola, mas também o primeiro passo para uma mudança mais profunda nas nossas sociedades” 3.
A partir deste ano, o Dia Mundial da Alimentação deverá ser conhecido como o Dia Mundial da Soberania Alimentar, assinalando o movimento imparável para uma nova governança dos recursos naturais: uma governança que garante o direito à comida apropriada a todos os homens e mulheres, que aproxima os produtores dos consumidores, que respeita os limites da natureza e os conhecimentos tradicionais e locais e que restitui o controlo local de terras, sementes, água e modos de produção de alimentos 4.
Para mais informações:
Lanka Horstink – coordenadora da Campanha pelas Sementes Livres em Portugal, tm 910 631 664.
Campanha pelas Sementes Livres
semear o futuro,colher a diversidade
sementeslivres@gaia.org.pt
www.sosementes.gaia.org.pt
Notas:
La Via Campesina é um movimento internacional de camponeses, agricultores de pequena e média dimensão, camponeses sem terra, agricultoras, povos indígenos e trabalhadores agrícolas de todo o mundo.
Algumas das iniciativas a favor da Soberania Alimentar e uma Democracia Real:
Marcha Right2Know
Millions Against Monsanto
Democracia Sai à Rua + 15october.net - united for #globalchange
No Patents on Seeds
OccupyWallStreet
Comunicado da Via Campesina por ocasião da semana Europeia da Soberania Alimentar
O movimento pela Soberania Alimentar: Fórum Nyeleni
Notas adicionais:
A Campanha pelas Sementes Livres é uma iniciativa europeia com núcleos na maioria dos Estados-Membros da União Europeia. Em Portugal a campanha é dinamizada pelo Campo Aberto, GAIA, Movimento Pró-Informação para Cidadania e Ambiente, Plataforma Transgénicos Fora e Quercus, para além de contar já com várias dezenas de subscritores. A Campanha visa inverter o rumo da agricultura na Europa, onde os modos de produção intensivos se sobrepõem cada vez mais à agricultura tradicional e de pequena escala e onde as variedades agrícolas e as próprias sementes, a base da vida, estão a ser retiradas da esfera comum e entregues nas mãos de multinacionais do agro-negócio.
Em Novembro próximo, a Campanha organiza a SEED SAVERS TOUR, uma digressão pelas sementes livres em Portugal com os permacultores e especialistas em sementes tradicionais Michel e Jude Fanton, da rede australiana Seed Savers.
domingo, 19 de junho de 2011
As aparências iludem?
1-A SCUT para a Fajã
A fim de satisfazer a pretensão de alguns proprietários, o Governo Regional dos Açores decidiu abrir uma estrada para a Fajã do Calhau. No início dos trabalhos, um dos responsáveis afirmou-me, aquando de uma visita que fiz ao local, que a dificuldade da obra se encontrava no ponto mais alto dos terrenos pois por razões económicas não poderiam tirar a terra do local, sendo a única opção viável empurrá-la para o litoral.
Na mesma ocasião, manifestei a minha discordância com a referida obra, mas nunca acreditei que a mesma viesse a atingir as proporções que todos nós conhecemos. O desagrado com o que estava a ser feito, não foi apenas dos chamados ambientalistas, havendo, também, dentro do próprio governo quem levantasse muitas dúvidas.
A cereja em cima do bolo, veio, mais tarde, quando alguém, para justificar o injustificável afirmou que a obra se destinava ou era muito importante para o combate às infestantes.
Não tenho qualquer fobia a estradas e a da Fajã do Calhau não é a minha inimiga de estimação predilecta, como também não tenho nada, pessoalmente, contra as pessoas que têm a suas propriedades, terras e casas, na referida localidade, podendo alguns deles testemunhar que eu (e outras pessoas, claro!) um dia pensei que seria possível a instalação de um projecto inovador para alimentar as casas lá existentes, através de uma pequena central eléctrica fotovoltaica.
O projecto falhou na Fajã do Calhau ou noutra fajã qualquer por diversas razões, sendo uma delas o facto de ter sido preterido a favor da produção de hidrogénio que iria revolucionar a produção energética nos Açores e no mundo. Continuamos à espera…
Mas, com a estrada da Fajã do Calhau, aprendi que, muitas vezes, as pessoas envolvem-se civicamente não com fins altruístas, mas para implementar projectos pessoais, o que há partida não tem nada de mal, desde que tal não seja um objectivo oculto.
Também aprendi que as pessoas, por muito democratas que sejam ou que o digam ser, por vezes, não toleram opiniões diversas das suas.
Será caso para dizer “se queres conhecer o vilão, põe-lhe o pau na mão”?
2-Ambiente, desporto ou agricultura?
Entre as diversas associações ditas de ambiente, existem algumas que não possuem qualquer vida associativa, limitando-se esta a uma eleição formal dos órgãos sociais, já que o mando historicamente sempre esteve e continua a estar na mão de uma só pessoa.
Essa pessoa, simpática e de bom trato com todos, tem o defeito (ou virtude?) de não dizer não a ninguém, sobretudo aos detentores dos mais diversos poderes instalados. Para evitar a pessoalização, que não é o nosso objectivo, essa ou essas pessoas dirigem associações que têm todas as características de associações de carácter recreativo ou desportivo e as associações deste tipo têm objectivos muito direccionados para os seus membros e o seu contributo para o debate na esfera pública é muito diminuto, para não dizer que é nulo. José Manuel Viegas, num texto publicado em 2004 e a propósito da presença das associações desportivas ou culturais na comunicação social, menciona que “tendem apenas a valorizar a sua identidade, as suas tradições e o consenso social, esquivando-se às questões mais políticas ou conflituais. Exceptuam-se as situações em que estão em causa os apoios financeiros a receber por essas associações”.
Mas, o episódio que não me sai da cabeça foi o aproveitamento da possibilidade que as associações têm para estarem representadas em determinados órgãos de carácter consultivo para fins pessoais ou de outrem, de carácter no mínimo duvidoso.
Em 2008, o Governo Regional dos Açores solicitou o nome de uma pessoa para representar as várias associações no Comité Prorural. Fui contactado pelo presidente de uma associação que manifestou o interesse em estar presente no referido comité e em nome dos Amigos dos Açores manifestei a minha concordância. Tal não foi o meu espanto, quando me foi dado conhecimento que o representante das associações não era o que foi previamente acordado, mas sim o membro de outra que era simultaneamente técnico de uma associação de agricultores, que, como é sabido, tem interesses directos naquele programa.
Acreditando na boa fé dos envolvidos, fica a questão: tratou-se apenas de juntar o útil ao agradável?
Teófilo Braga
domingo, 24 de abril de 2011
Com os pés na terra... (2): Sementes
1 - 1º de Maio
O 1º de Maio é uma data celebrada, em todo o mundo, como dia do trabalhador. A escolha está relacionada com uma greve realizada, a 1 de Maio de 1886, em Chicago, Estados Unidos da América, que contou com a presença de 350 mil trabalhadores, com o objectivo de reivindicar a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias. Na sequência de um confronto entre a polícia e os grevistas foi convocada uma manifestação para o dia 4, tendo no decorrer desta morrido um polícia, resultado de uma explosão, e sido assassinados 80 operários. Foram presos alguns dos líderes, dos quais depois de encerrado o processo em Outubro de 1887: 4 foram enforcados, 5 condenados à morte, 3 condenados a prisão perpétua e 1 foi morto, em circunstâncias estranhas, na prisão.
Por todo o país, mesmo durante o Estado Novo, o 1º de Maio nunca deixou de ser comemorado muitas vezes não por razões laborais ou políticas, mas porque entre as populações estava enraizada a tradição das Maias.
Entre nós, o primeiro dia de Maio também tem tradições e com mais ou menos entusiasmo continua a ser lembrado. No início do século passado, o padre Ernesto Ferreira referia-se aos Maios como uma “simples manifestação da poesia com que a alma popular celebra a sua comunhão com o renovamento da natureza” e manifestava o seu desejo de que os mesmos não desaparecessem “da rica mina dos costumes micaelenses”. De acordo com aquele sacerdote, era usual muitas famílias confeccionarem no primeiro dia de Maio papas de carolo (farinha grossa de milho) “para significar que Abril vendeu um dia a Maio por um prato de papas, alusão ao facto de Abril ter menos um dia do que Maio”.
O primeiro de Maio foi também o dia escolhido, em 2006, para os cidadãos, individualmente ou em grupos contribuírem para o embelezamento dos espaços verdes, nomeadamente os que se encontram abandonados pelas instituições responsáveis pela sua manutenção.
No primeiro de Maio deste ano, o quinto “Dia Internacional da Guerrilha Girassol” todos os que queiram participar deverão adquirir sementes de girassol e semeá-las num jardim degradado, num canteiro abandonado ou em qualquer espaço livre, de preferência num local onde passem muitas vezes para irem seguindo o crescimento das plantas e em caso de necessidade retirar alguma infestante ou fazer a rega, o que nos Açores poderá não ser necessário.
2 - Sementes Livres
Hoje, dez empresas, entre as quais a Bayer, a Monsanto, a Syngenta e a Limagrain, controlam 67% do mercado mundial de sementes e é sua intenção aumentar aquela percentagem, impondo, em todo o mundo, as suas variedades registadas.
A Comissão Europeia está a preparar a chamada “Lei das Sementes” que irá alterar as leis anteriores, retirando ao agricultor o seu papel de curador de sementes, que vem desempenhando desde o nascimento da agricultura há cerca de 10 000 anos.
Para contrariar, entre outras, a pretensão de restringir a livre reprodução e circulação de sementes, patentear as diferentes variedades de plantas agrícolas e ilegalizar as variedades não registadas, em toda a Europa grupos de cidadãos, agricultores e diversas associações sem fins lucrativos lançaram uma petição (http://gaia.org.pt/civicrm/petition/sign?sid=1) onde reclamam:
“- O direito a produzir livremente, sem necessidade de licenças, as nossas próprias sementes a partir das nossas colheitas, a voltar a semeá-las e a dá-las a outros;
- A promoção das variedades regionais de sementes, através do apoio aos homens e às mulheres que conservam e melhoram variedades de agricultura biológica;
- A proibição de tecnologias genéticas na agricultura;
- A proibição de patentes sobre as plantas;
- Uma nova lei para a introdução de novas variedades de sementes, que exclua as sementes geneticamente modificadas e as que exijam utilização intensiva de químicos;
- Acabar com os “insumos” de elevado teor energético na produção agrícola, que são a consequência das monoculturas, do transporte a longas distâncias, bem como do cultivo de plantas que requerem fertilizantes químicos e pesticidas.”
Autor: Teófilo Braga
Data: 20 Abril 2011
Fonte: Correio dos Açores
domingo, 17 de abril de 2011
MANIFESTO EM PROL DA SEMENTE E DA SOBERANIA ALIMENTAR
Não se sabe bem ao certo, mas terá sido há dez ou onze mil anos que a humanidade lançou à terra as primeiras sementes com o intuito de colher algo para seu sustento. Dessa colheita terão resultado, por certo, não apenas alimentos imediatos, mas também novas sementes, que tornariam a ser semeadas no ano seguinte. Ficou assim traçada a orientação que viria a assegurar, até há algumas dezenas de anos atrás, a capacidade de todos nós, homens e mulheres, conseguirmos ultrapassar as contingências da natureza, deixando de estar sujeitos à sua aleatória generosidade no tocante à oferta de alimentos colectáveis, passando a cultivá-los para assegurar a soberania alimentar.
Passados alguns milhares de anos de evolução desta orientação de vida, foram sendo domesticadas pelo homem milhares de variedades de plantas e animais, ampliando muito as espécies disponíveis. Esta diversidade de espécimes de cultivares e de animais, fomentada pelo homem, muitas vezes como resultado do seu engenho, permitiu-lhe transpor as mais diversas barreiras, físicas e temporais, para conquistar os mais recônditos lugares do planeta. Hoje sabemos, pelos muitos factos históricos conhecidos, que em cada novo contacto do homem com diferentes plantas e animais ocorre não apenas um enriquecimento do indivíduo enquanto ser cultural, mas também uma melhoria no seu ser físico, graças ao acesso a acrescidas fontes de alimentos.
Estas longas conquistas da humanidade estão agora prestes a ser eliminadas ou, pelo menos, restringidas, pois outros interesses se levantam. A pretexto de questões como a necessidade de rastrear o percurso dos alimentos e a segurança alimentar, a Comunidade Europeia prepara-se para estabelecer uma directiva legal no sentido de impedir que as pessoas que sempre semearam e recolheram, assegurando a sua soberania alimentar, possam continuar a agir dessa maneira. Esta lei põe em causa um direito ancestral conquistado para todos nós, o de utilizarmos e guardarmos as sementes resultantes do trabalho e engenho dos nossos antepassados, direito esse que devemos continuar a legar às gerações futuras. Esta lei pretende atribuir estatuto museológico às variedades tradicionais que nos foram legadas por incontáveis gerações, enraizando-as no seu suposto lugar de origem e impondo que a sua comercialização e cultura, bem como o aproveitamento das suas sementes, se faça apenas nesse local e somente por alguns. Esta lei europeia, a ser aprovada, limita as áreas de cultivo e o número de pessoas que podem aceder às variedades tradicionais, as quais só terão direito a existir depois de submetidas a certificação. Não se entende como uma Europa que defende os valores da democracia, do livre acesso a bens e da sua livre circulação, pretende assim limitar o acesso de todos nós a este legado das sementes ancestrais.
No caso em apreço, podemos estar mais uma vez perante uma mentira. Quais são os verdadeiros interesses que estão por trás destas leis restritivas da Comunidade Europeia? Na verdade, por trás de palavras como «certificação», cujo sinónimo deveria ser autenticidade ou segurança, esconde-se muitas vezes a restrição no acesso a um direito, que fica, a partir daí, apenas ao alcance de quem pode pagar ou tem mais meios. A certificação significa, para uma Europa ávida de dinheiro e com uma economia em ruínas, a entrada de mais dividendos nos seus cofres.
Com efeito, se a semente não fosse «a origem», não seria tão aliciante querer controlar os seus destinos. A pressão que nos últimos anos vem sendo exercida por algumas multinacionais do sector da agro-indústria, as quais, não satisfeitas com o domínio que já exercem através das patentes das suas «criações», procuram também apropriar-se das plantas que são património comum da humanidade estabelecendo patentes sobre as variedades ancestrais, revela a urgência imperativa de controlarem a distribuição dos alimentos desde a origem até à nossa mesa.
Na verdade, não se percebe como é possível permitir que alguém, pessoa ou empresa, registe em seu nome algo que não criou e se torne seu «legítimo» proprietário. Não se percebem estas leis europeias com dois pesos e duas medidas, a não ser, repetimos, porque o registo de patentes constitui mais uma fonte de receitas para os cofres das instituições que as pretendem impor. Mas é evidente que corremos sérios riscos quando as sementes das variedades tradicionais, que são património da humanidade e como tal devem estar livremente acessíveis a todos, passam a ser objecto de controlo estatal para ficarem nas mãos de entidades exclusivas.
Poderemos estar prestes a assistir à consumação do maior atentado cometido na história das civilizações humanas, em que alguns homens, com as suas leis, põem em causa a sobrevivência da maioria. Porque é disso que se trata quando se pretende reduzir drasticamente o número de variedades e obrigá-las a permanecer imóveis nos seus supostos locais de origem, parando assim a sua e a nossa evolução.
Perante a possibilidade de ser aprovada a nova Lei das Sementes na Europa, declaramos ser nossa intenção continuar a fazer o que sempre fizemos: lançar as sementes à terra, recolhê-las no fim da estação, guardar algumas para o ano seguinte e partilhar outras com amigos, vizinhos e interessados. Achamos que esta será a melhor forma de resistir, pois foi a postura que os nossos antepassados mantiveram ao longo de milénios e que, apesar das muitas hecatombes a que a humanidade se viu sujeita ao longo da sua existência, não impediu que chegasse até nós um sem número de espécies e variedades. É certo que muitas se perderam ao longo desse percurso, mas isso aconteceu mais por desinteresse ou por abandono da actividade agrícola do que por qualquer lei impeditiva. Esta será sempre a nossa principal linha de acção. Se não assumirmos esta postura, será difícil reclamarmos o direito a usar e guardar as sementes, pois só isso permite que elas continuem a existir.
Instigamos todas as pessoas favoráveis à permanência das variedades tradicionais que nos sigam no exemplo e resistam, mesmo que a referida lei venha a ser aprovada. Por ser também da máxima importância usá-las no nosso dia-a-dia, instigamos todos os interessados a conhecer melhor este espólio, solicitando-o nos pontos de venda, estimulando a sua oferta e consumo.
A Colher para Semear vai levar a cabo uma iniciativa de âmbito nacional, no dia 17 de Abril, em Lisboa, no Jardim da Estrela, pedindo a todos os interessados que se desloquem à capital para trocar as suas sementes e manifestar o seu apreço pelo direito à existência das variedades tradicionais como um legado da humanidade.
Colher para Semear (recebido por e-mail)
quinta-feira, 24 de março de 2011
Campanha Europeia pelas Sementes Livres lança petição online!

A Campanha pelas Sementes Livres tem o prazer de anunciar que já foi criada a petição europeia pelas Sementes Livres 'online'. Esta petição será entregue no dia 18 de Abril, 2º dia das Jornadas Internacionais de Acção pelo Primado das Sementes, ao Parlamento Europeu.
Pessoas individuais podem assinar a petição aqui.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
SOS Sementes - Campanha Europeia pelas Sementes Livres

Em 2011 a Comissão Europeia vai propor uma nova regulamentação relativa à reprodução e comercialização de sementes, a chamada “Lei das Sementes”. As novas regras, a serem aprovadas, terão força de lei e sobrepor-se-ão às leis nacionais de cada estado-membro, podendo vir a limitar drasticamente a livre circulação de sementes, impedir os agricultores de guardar sementes e ilegalizar todas as variedades de plantas não homologadas, onde se incluem actualmente milhares de variedades tradicionais, a herança genética vegetal da Europa.
Com esta nova lei, a Comissão Europeia pretende satisfazer os pedidos repetidos da indústria de sementes, que nas últimas décadas assumiu os contornos de um oligopólio, com dez empresas – gigantes da agro-química – a controlar actualmente metade do mercado mundial das sementes comerciais e a quase totalidade do mercado das sementes transgénicas. A indústria de sementes considera que a prática de guardar sementes e a produção de variedades não registadas constituem concorrência 'desleal'. Ao eliminar esta concorrência, sob pretexto de criar um mercado 'justo' e da protecção da saúde pública, as grandes empresas de sementes preparam-se para cobrar direitos aos perto de 75% de agricultores no mundo que ainda guardam e utilizam as suas próprias sementes.
A tendência da privatização das sementes, que se inicou com a autorização de patentes sobre formas de vida, e que a prevista Lei das Sementes vem reforçar, constitui uma ameaça ao nosso património genético comum e à segurança alimentar. Os agricultores deixarão de poder guardar sementes e os criadores independentes deixam de poder melhorar variedades. Por consequência, não haverá nenhum incentivo para preservar variedades tradicionais e o mercado restringir-se-á a um espólio infinitamente mais reduzido de variedades comerciais, onde irão dominar, entre outras, as variedades transgénicas.
Junte-se à Campanha pelas Sementes Livres
Dezenas de milhares de pessoas por toda a Europa estão a pedir activamente que o direito de produzir sementes permaneça nas mãos dos agricultores e horticultores. As sementes de cultivo são um bem comum, criado pela acção humana ao longo de milénios, e uma fonte insubstituível de recursos genéticos para assegurar o acesso a alimentos, tecidos e medicamentos. Devem permanecer no foro público e sob condições algumas entregues para a exploração exclusiva da indústria de sementes.
Os pedidos da Campanha europeia pelas Sementes Livres
O direito dos agricultores e horticultores à livre reprodução, guarda, troca e venda das suas sementes.
A promoção da biodiversidade agrícola através da preservação das sementes de origem regional e biológica.
A recuperação dos conhecimentos tradicionais e a cultura gastronómica local agrícolas.
O fim às patentes sobre a vida e ao uso de organismos geneticamente modificados na agricultura e na alimentação.
Uma nova política agrária que, em vez de apoiar a produção industrial intensiva e as monoculturas, promove a produção ecológica e biodiversa.
Ajude-nos a inverter o rumo da legislação sobre sementes e a apoiar a biodiversidade agrícola e a agricultura tradicional, com informação on e offline, campanhas de sensibilização, a dinamização de hortas guardiãs de sementes e feiras de troca de sementes tradicionais, nacionais e internacionais.
Campanha pelas Sementes Livres
semear o futuro, colher a diversidade
GAIA | Plataforma Transgénicos Fora | Quercus
sementeslivres@gaia.org.pt
www.sosementes.gaia,org.pt (até 25/2 www.gaia.org.pt/node/15859)
www.seed-sovereignty.org/PT
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Sete mitos fatais da agricultura industrial

Mito Um
A agricultura industrial vai alimentar o mundo.
A verdade
A fome no mundo não é causada por falta de alimentos, mas pela pobreza
e pela falta de terra que impedem o acesso à comida. Na realidade a
alimentação industrial aumenta a fome ao aumentar o custo do cultivo,
ao expulsar dezenas de milhões de agricultores de suas terras e ao
cultivar principalmente colheitas lucrativas para exportação e luxo.
Como alimentar um mundo faminto? Transformando cada terreno vazio em
um canteiro.
Mito Dois
Alimentos industrializados são seguros, saudáveis e nutritivos.
A verdade
A agricultura industrial contamina vegetais e frutas com pesticidas e
introduz hormônios de crescimento geneticamente manipulados no leite.
Não é surpresa que o câncer, doenças provocadas pela alimentação e
obesidade estejam alcançando picos nunca vistos.
Não há nada de seguro no uso rotineiro de fumigantes com brometo de
metila e cloropicrim.
Milho consorciado com amarante e leguminosas em base de rotação
dispensa pesticidas e adubos químicos para aumentar a fertilidade do
solo
Mito Três
A alimentação industrializada é barata.
A verdade
Se você acrescentar o custo real dos alimentos industrializados — seus
custos para a saúde, o meio ambiente e os custos sociais — nem nossos
cidad ãos mais ricos teriam meios de pagá-los.
Um coquetel químico cobre filas intermináveis de feijão. O "sucesso"
comercial da industria de pesticidas exige um custo muito elevado em
ecossistemas e saúde humana
A orgia de cores e sabores atrai as pessoa para a feira dos
agricultores. Amigos e vizinhos se reúnem para comprar, encontrar-se e
celebrar as "estrelas" da estação. Estes são alimentos verdadeiros a
preços verdadeiros
Mito Quatro
A agricultura industrializada é eficaz.
A Verdade
Pequenas propriedades produzem mais alimentos por área do que as
grandes fazendas. Além disso, fazendas maiores, não diversificadas,
requerem maior quantidade de máquinas e produtos químicos. Esta
quantidade crescente de insumos está destruindo o meio ambiente e,
muitas vezes, levam o agricultor à falência.
Um campo de mil acres,
sem uma única erva daninha à vista, indica o uso nocivo de pesticidas
e herbicidas
Cada paisagem contém uma história. Fileiras de colheitas variadas
indicam que a roça é diversificada, em pequena escala, permitindo que
os predadores e os polinizadores naturais realizem a sua tarefa
Mito Cinco
Os alimentos industrializados oferecem mais variedades.
A Verdade
O que o consumidor realmente recebe no supermercado é uma escolha
ilusória. A variedade de produtos nas prateleiras dos supermercados
esconde na verdade uma perda trágica de dezenas de milhares de
espécies causada pela agricultura industrial.
80,6% das variedades conhecidas de tomates foram
perdidas entre 1903 e 1983
Mito Seis
Agricultura industrial beneficia o meio ambiente e a fauna.
A Verdade
A agricultura industrial é a maior ameaça à biodiversidade.
Mito Sete
A biotecnologia vai resolver os problemas da agricultura
industrializada.
A Verdade
A biotecnologia vai destruir a biodiversidade e segurança alimentar e
vai forçar os agricultores a deixarem suas terras, consolidando o
controle da oferta mundial de alimentos na mão de algumas poucas
corporações enormes.
Fonte: Resurgence nº 217, março/abril 2003. Extraído do livro Fatal
Harvest
editado por Andrew Kimbrell, Island Press, 2002 www.islandpress.org
sexta-feira, 4 de junho de 2010
EM DEFESA DO MUNDO RURAL?

Gasta, por abuso, a moda de praticar as mais diversificadas barbaridades (lembram-se da construção da Estrada para a Fajã do Calhau para combater as plantas infestantes?) em nome do desenvolvimento sustentável, já que capitalismo e uma sociedade mais justa, limpa e pacífica são incompatíveis, chegou aos Açores a moda de tudo fazer invocando a defesa do mundo rural.
Apresentada como uma grande conquista da modernidade, a redução do número de activos, na agricultura, sem a criação de quaisquer alternativas viáveis a longo prazo, traduz-se na desertificação humana das zonas rurais e no abandono da produção agrícola, mesmo a de auto-subsistência. Com efeito, hoje, nos Açores, das culturas industriais, não falando no chá que é muito localizada e quase peça de museu, persistem apenas e a muito custo a beterraba e o tabaco, ambas subsidiadas.
O que enche de orgulho os nossos governantes é outro sector ligado à terra, a pecuária. Mas, mesmo este não navega em mar de rosas. Com efeito, de acordo com notícias e reportagens publicadas na imprensa regional, as fábricas de lacticínios do Corvo e do Faial estão longe de ser rentáveis, em São Jorge as cooperativas estão sempre em dificuldades, em todas as ilhas há lavradores que devido à não actualização do preço do leite e à necessidade de adquirir alimento para o gado no exterior (30 a 50% do mesmo é importado) encontram-se em situação crítica e estariam na falência não fora o apoio comunitário. Além disso, como também já foi publicado e não desmentido, quando acabar o regime de quotas leiteiras apenas algumas explorações em São Miguel e na Terceira serão viáveis.
É neste contexto que, para esconder a incompetência governamental, se tem assistido à realização de um conjunto de concursos e feiras e festivais pretensamente organizados para dinamizar o sector, que contam sempre com a presença dos actuais responsáveis máximos pela degradação da agricultura regional, Noé Rodrigues, Secretário Regional da Agricultura e Florestas, e Joaquim Pires, Director Regional do Desenvolvimento Agrário.
Um dos últimos eventos, o IX Concurso Micaelense da Raça Holstein Frísia, promovido (com apoio público?) pela Associação Agrícola de São Miguel, terminou com muita comida e bebida oferecida aos presentes e com uma (não tradicional) tourada à corda, apresentada como promoção do mundo rural.
São precisamente as touradas à corda, em locais onde não são tradicionais, como na ilha de São Miguel e em zonas piscatórias como é o Porto da Lagoa ou a Caloura, pagas com dinheiros públicos o único indicador de “sucesso” do pretenso desenvolvimento agrário e rural.
Como se tal não bastasse, e como não fosse demasiado o apoio da UE recebido pelos ganadeiros para a criação de gado bravo, a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo propõe-se, em nome da dinamização do mundo rural, abocanhar verbas do programa LIDER para ajudar a pagar a feira taurina das Sanjoaninas, deste ano, cujo custo ronda os 400 mil euros (interessante é haver cortes noutras iniciativas, como o Angra Rock, ma as touradas de praça são intocáveis).
Face a esta situação, não se compreende a passividade de uma população que está a passar por dificuldades em virtude da crise que abala o sistema capitalista mundial e muito menos se percebe (ou percebe-se?) o silêncio comprometedor de associações ambientalistas e da esmagadora maiores dos defensores do ambiente e dos direitos /bem-estar animal.
É caso para dizer que Marx estava errado, o problema não é da religião, o ópio do povo são as touradas.
Açores, 30 de Maio de 2010
Mariano Soares
(Terra Livre nº 21 Junho de 2010)
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Ciclo de cinema – Que alimentação para o século XXI?
Neste início de século, a forma como nos relacionamos com o mundo está a ser transformada em todos os aspectos.
Vivemos concentrados em grandes centros urbanos com uma vida cultural abundante. Os centros comerciais oferecem-nos um sem número de opções onde gastar o nosso dinheiro, e parece ser isso que define o nosso conceito de qualidade de vida. As viagens de avião de baixo custo fazem parecer que estamos mesmo a viver numa aldeia global… Ao mesmo tempo, com a internet e os “gadgets” electrónicos, queremos estar sempre perto de tudo. Enquanto isso esquecemos a importância de algumas necessidades básicas, como a alimentação. Não sabemos, ou não queremos saber o que se esconde por detrás das prateleiras dos supermercados. Mas devíamos!
A agricultura moderna divorciou-se completamente da natureza e já é um dos maiores consumidores de energia e água, bem como causadora de poluição. A agricultura intensiva destrói a biodiversidade e contamina a terra com pesticidas e fertilizantes artificiais. A isso vem somar-se a contaminação biológica e outras ameaças da introdução de organismos geneticamente modificados.
As regras do mercado livre globalizado aplicadas ao sector estão a destruir o modo de subsistência de milhões de pessoas e comunidades ao redor do mundo. E o resultado final disso também é péssimo para nós consumidores. Os alimentos estão repletos de resíduos químicos que se acumulam no nosso corpo com potenciais efeitos graves para a saúde.
Que decisões individuais ou colectivas podemos tomar para mudar este rumo? Este ciclo de cinema pretende lançar algumas ideias.
24 de Maio
* Filme “Quem alimenta o mundo?” (duração 93 minutos)
* Prova de produtos da Quinta de Segade.
31 de Maio
* Filme “o futuro dos alimentos” (duração 89 minutos)
* Prova de produtos da Naturocoop.
* Debate sobre agricultura biológica.
7 de Junho
* Filme “Carne, uma verdade mais que inconveniente” (duração 74 minutos)
* Prova de produtos da Casa da Horta.
* Debate sobre alimentação vegetariana.
14 de Junho
* Filme “TranXgenia – A História da Lagarta e do Milho” (duração 37 minutos)
* Prova de produtos do Projecto Raízes.
* Apresentação da Plataforma Transgénicos Fora e debate sobre organismos geneticamente modificados.
As sessões terão lugar sempre às 21h30 no auditório do Clube Literário do Porto – Rua Nova da Alfândega, 22.
Entrada livre. Mais informações em www.campoaberto.pt/cicloalimentacao
Organização:
Movimento Pró-Informação para a Cidadania e Ambiente,
Campo Aberto,
Plataforma Transgénicos Fora
Apoios: Clube Literário do Porto,
Quinta de Segade,
Casa da Horta,
Naturocoop,
http://www.campoaberto.pt/cicloalimentacao/
PS- Uma ideia a ser seguida nos Açores. As associações têm que promover a reflexão sobre as questões alimentares e da agricultura e deixarem-se de serem meras figurantes das "telenovelas" realizadas por outros.
domingo, 22 de março de 2009
COLHER PARA SEMEAR- Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais

PORQUÊ PRESERVAR VARIEDADES TRADICIONAIS?
A perda da biodiversidade agrícola, em todo o mundo, é da ordem dos 75%,
segundo estudo da FAO em 1984. A situação portuguesa contribui
certamente para este panorama, tendo em conta o número de variedades
desaparecidas nas últimas décadas das nossas hortas e pomares. Poderemos
apontar várias razões para esta situação.
A generalização do uso de sementes híbridas na agricultura contribui
para aumentar a pobreza varietal e também para a dependência dos
agricultores: devido à degeneração e perda natural de vitalidade destas
sementes logo à segunda geração, a sua compra anual torna-se necessária.
O comportamento actual dos agricultores que deixam de colher sementes
das suas culturas, preferindo comprar os lindos pacotes que os cativam
com as fotografias e as promessas de boas colheitas, é outra destas razões.
Por outro lado, a aglutinação das pequenas casas de sementes, geralmente
por parte das multinacionais do ramo, reduziu drasticamente a oferta de
variedades regionais e tradicionais, pois estas não têm qualquer
interesse económico num sistema globalizado. Por essa razão, hoje
cultivam-se as mesmas variedades por todo o mundo, não se adaptando
estas, como é óbvio, a todos os climas, microclimas e tipos de solos
existentes. Consequentemente, necessitam de uma gama enorme de biocidas
para completar o seu ciclo, contribuindo assim para os efeitos
sobejamente conhecidos de poluição a vários níveis, e para a redução da
qualidade alimentar
As variedades que empreenderam uma viagem ao longo de inúmeras gerações
para chegarem até nós, foram cuidadosamente criadas e acompanhadas,
muitas vezes com grandes sacrifícios, pelos nossos antepassados. São a
nossa herança mais preciosa, elas são a vida em forma de semente, são o
nosso passado sem o qual não existiria vida em nós. Cabe-nos portanto
dar continuidade a essa herança que nos foi tão generosamente cedida,
semeando estas variedades, dando-lhes vida e utilidade, podendo assim
ser vistos com orgulho por aqueles que nos antecederam, e também pelas
gerações vindouras.
OBJECTIVOS DA ASSOCIAÇÃO:
- Inverter a situação actual de contínua perda de biodiversidade
genética agrícola, por meio da recolha, cultivo e catalogação das
variedades tradicionais ainda existentes;
- Formar e incentivar os agricultores para a recolha anual das suas
próprias sementes, assim como estimular a sua troca, assegurando-lhes
uma independência e autonomia em termos de sementeiras;
- Contribuir para o conhecimento do nosso património vegetal, promovendo
e participando em colóquios e feiras com exposição de sementes, levando
o tema onde for necessário;
- Promover o uso de variedades tradicionais em agricultura biológica por
estas estarem melhor adaptadas ao local de cultivo e terem menos
problemas fitossanitários;
- Estimular o uso de legumes esquecidos, para uma maior diversidade
alimentar e uma culinária mais rica, atractiva e completa;
- Dar a conhecer aos jovens a herança que nos foi transmitida pelos
nossos antepassados, pois cada semente tem um percurso e uma história
própria;
- Defender a segurança alimentar continuando a semear as nossas
variedades tradicionais de polinização aberta, perfeitamente adaptadas
ao seu meio de origem, em detrimento das práticas actuais que usam as
sementes híbridas e, no pior dos cenários, as sementes transgénicas ou
geneticamente modificadas.
COMO CONTRIBUIR?
Para concretizar estes objectivos, que são do interesse de todos nós, é
necessária a contribuição do maior número de pessoas.
De que modo?
- Através da inscrição como sócio;
- Pela oferta de donativos ou géneros;
- Voluntariado em diversas áreas: parte administrativa, pesquisa e
trabalho de campo, recolha e propagação de sementes, inventariação,
outras áreas relacionadas com as actividades da associação;
- Ser sócio guardião de sementes: comprometendo-se a multiplicar a(s)
variedade(s) que apadrinhar, devolvendo à associação parte da sua
colheita anual, devidamente seleccionada. Este sócio deve ter assistido
previamente a uma oficina de formação sobre recolha, caracterização e
propagação de sementes. O sócio guardião é mencionado no catálogo de
variedades como reprodutor da semente que apadrinhar.
INFORMAÇÕES E CONTACTOS:
Colher Para Semear
Rede Portuguesa
de Variedades Tradicionais
Quinta do Olival, Aguda
3260 Figueiró dos Vinhos
José Miguel Fonseca - 236 622 218
Graça Ribeiro - 91 490 9334
fcteixeira@esb.ucp.pt
gcaldeiraribeiro@gmail.com
Fonte: http://gaia.org.pt/?q=node/417
Nota- foi publicado recentemente o seu boletim nº 12 que pode ser consultado aqui.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Noé Rodrigues-Secretário das Vacas da Moita

Noé critica associações de defesa dos animais
"O secretário açoriano da Agricultura rejeitou ontem as críticas contra a exposição de vacas na Praça de Espanha, em Lisboa, acusando as associações de defesa dos direitos dos animais de procurarem protagonismo mediático. “A motivação principal (destas associações) parece-me ser a vontade de ter algum protagonismo junto dos órgãos de comunicação social”, afirmou ontem aos jornalistas Noé Rodrigues, reagindo às críticas contra uma acção publicitária do destino Açores, a decorrer na capital portuguesa até ao final da semana, que colocou vacas a pastar na Praça de Espanha.
A Liga Portuguesa dos Direitos do Animal considerou que a acção de promoção turística dos Açores com recurso a animais vivos estava em “total desrespeito pela legislação portuguesa e europeia”.
Também a associação ANIMAL se juntou aos protestos, qualificando a acção de “profundamente infeliz”, pois considera que as vacas foram colocadas “num ambiente urbano profundamente movimentado e stressante totalmente diferente dos pastos de onde estas vacas não deveriam ter sido retiradas”.
“Não sei se é desconhecimento de causa. As pessoas até podem visitar os Açores com facilidade e verificar como é que os animais são tratados”, disse Noé Rodrigues."
Notícia extraída do Açoriano Oriental de 23de Janeiro de 2009
Comentário- Não sei o que tem Noé Rodrigues a ver com a promoção turística dos Açores em Lisboa ou com as vacas que não são açorianas. De Secretário da Agricultura e Florestas Noé Rodrigues passou ser o bombeiro deste governo já que, no caso em apreço, substituiu Vasco Cordeiro e no famoso caso da Fajã do Calhau substituiu José Contente.
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