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terça-feira, 5 de agosto de 2008

Ecologia Social: Pobreza e Miséria


Texto de Leonardo Boff

Hoje se fala das muitas crises sob as quais padecemos: crise econômica, crise energética, crise social,crise educacional,crise moral, crise ecológica,crise espiritual etc. Se olharmos bem,verificamos que,na verdade,todas as crise se encontram numa fundamental: a crise do tipo de sociedade que criamos a partir dos últimos 400 anos. Esta crise é global porque este tipo de sociedade se difundiu ou foi imposta praticamente no globo inteiro.

Qual é o primeiro sinal visível que caracteriza este tipo de sociedade? É que ela produz sempre pobreza e miséria de um lado e riqueza e acumulação do outro. Este fenômeno se nota ao nivel mundial. Aí há poucos paises ricos e muitos paises pobres. Nota-se principalmente ao nivel das nações: poucos estratos beneficiados com grande abundância de bens de vida (comida,meios de saude, de moradia,de formação,de lazer) e grandes maiorias carentes do que é essencial e decente para a vida. Mesmo nos paises chamados industrializados do hemisfério norte,notamos bolsões de pobreza (terceiromundialização no primeiro mundo) como existe também setores opulentos no terceiro mundo (uma primeiromundialização do terceiro mundo) no meio de miséria generalizada.

Por que é assim? As críticas vão denunciar o porquê.

l. Três críticas ao modelo de sociedade atual
Há três linhas de crítica ao modelo de sociedade atual. Gostaríamos de enunciá-las rapidamente.

A primeira é feita pelos movimentos de libertação dos oprimidos. Ela diz: o núcleo desta sociedade não está construido sobre a vida,o bem comum de todos,a participação e a solidariedade entre os humanos. O eixo estruturador está na economia. Ela é um conjunto de poderes e instrumentos de criação de riqueza - e aqui vem a característica básica - mediante a depredação da natureza e a exploração do seres humanos. A economia é a economia do crescimento ilimitado,no tempo mais rápido possível,com o mínimo de investimento e a máxima rentabilidade. Quem consequir se manter nesta dinâmica e obedece a esta lógica,acumulará e será rico. Mas tudo isso à custa de um permanente processo de exploração.

Portanto,a economia se orienta por um ideal de desenvolvimento que se coloca entre dois infinitos: o dos recursos naturais pressupostamente ilimitados e do futuro indefinidamente aberto para frente.

Para este tipo de economia do crescimento a natureza é degradada a um simples conjunto de "recursos naturais",ou à matéria prima em disponibilidade dos interesses humanos. Os trabalhadores são considerados como "recursos humanos" ou pior ainda "material humano" em função de uma meta de produção. Como se depreende,a visão é instrumental e mecanicista: pessoas,animais,plantas,mineráis,enfim,todos os seres perdem sua autonomia relativa e seu valor intrínseco. São reduzidos a meros meios para um fim fixado subjetivamente pelo ser humano que se considera o centro e o rei do universo, Este quer enriquecer e acumular bens para si.

Qual a crítica principal que se faz a esta linha? É constatar que esse modelo não consegue criar riqueza sem ao mesmo tempo gerar pobreza; não é capaz de gestar desenvolvimento econômico sem simultaneamente produzir exploração social local e internacional. E ainda não é democrático,porque monta um sistema político de controle e de domínio. Ou cria democracias de elite (as nossas democracias liberais,representativas) ou democraturas (democracias sob a tutela militar). Mas nunca se instaura uma democracia que respeita a palavra democracia,quer dizer, a forma de organização social assentada sobre as maiorias,forma que se articula ao redor do bem estar da maioria mediante a participação que cria mais e mais níveis de igualdade e o sentimento de solidaridade com o respeito das diferenças que são vistas como complementares. Desta crítica nasceram os movimentos dos oprimidos por sua libertação que vão desde a luta dos sem terra,sem teto até os sindicatos bem organizados e combativos. Destarte nasceu uma cultura da cidadania,da democracia,da participação,da solidareidade e da libertação. Aqui lança suas raizes a teologia da libertação,a primeira síntese teológica nascida no terceiro mundo (América Latina) com repercussões em todas as Igrejas e nos centros metropolitanos de pensamento.

Postula-se um desenvolvimento que atenda as demandas de todos e não apenas dos mais fortes.

A segunda linha crítica vem dos grupos pacificistas e da não-violência ativa. Estes grupos notam que o tipo de sociedade de desenvolvimento desigual produz muita violência. Violëncia social e injustiça societária,por causa da própria desigualdade,violência a nivel nacional e internacional. Esta violência é consequência direta da dominação de paises que detem poder tecno-científico sobre os outros mais atrasados. O conflito generalizado tem mil rostos,dos quais os mais conhecidos são os conflitos de classe, de etnias, de gênero e de religiões. O modelo vigente de sociedade não favorece a solidariedade,mas a concorrência, não o diálogo e o consenso mas a luta de todos contra todos. Por isso,as potencialidades humanas de sensibilidade pelo outro,de ternura pela vida,de colaboração desinteressada são secundarizadas para dar lugar aos sentimentos menores da exclusão e da vantagem pessoal ou classista. Para manter a coesão mínima de uma sociedade desestabilizada internamente se fazem necessários corpos militares para controle e repressão. Ao nivel mundial dos blocos (seja antes socialistas e liberais e agora ricos e pobres, sul e norte) se cria o complexo militar-industrial que incentiva a corrida armamentística e a militarização de toda a existência. Dados recentes apontavam que 2/3 da inteligentzia mundial trabalha em projetos militares. Mesmo depois do fim da guerra fria,se aplicam na industria da morte cerca de l-3 trilhões de dólares ao ano; para a preservação do planeta terra sequer l30 bilhões de dólares.

Assim surgiram movimentos pela paz e pela não-violência ativa. Postula-se um modelo social que chegue à justiça mediante a democracia social. A violência militar e a guerra atômica,química e bacteriológica constituem formas específicas de agressão global,capazes de produzir o ecocídio,biocíodio e geocídio de vastas regiões do planeta.

O terceiro grupo de crítica,nos interessa diretamente: são os movimentos ecológicos. Eles constatam que o tipo de sociedade e de desenvolvimento que ela se propõe, não produz riqueza sem ao mesmo tempo gerar degradação ambiental . O que o sistema industrialista mais produz é lixo,rejeitos tóxicos, escórias radioativas,contaminacão atmosférica,chuvas ácidas,diminuição do ozônio,envenenamento da terra,das águas e do ar,numa palavra, deteriorização da qualidade de vida. A fome da população,as doenças,a falta de habitação,de educação e lazer,a ruptura dos laços familiares e sociais são agressões ecológicas contra o ser mais complexo da criação que é o ser humano,especialmente,o mais indefeso que é o pobre e marginalizado.

Estas preocupações estão originando uma cultura ecológica,quer dizer, a consciência coletiva da responsabilidade dos seres humanos pela sobrevivência do planeta,das espécies animais e vegetais, responsabilidade na superação da miséria e da pobreza social no mundo, pelas relações que devem permitir vida para todos e um bem estar dos seres humanos e de todos os seres da natureza.

Importa hoje articular todas estas frentes críticas ao sistema imperante. Urge secundar o surgimento de um paradigma novo de sociedade que não repita os equívos e erros do velho e integre mais humanamente os seres na sociedade. E estabeleça relações mais benevolentes para com o meio-ambiente.

2. Somos parte de um imenso equilíbrio: ecologia social
Queremos agora aprofundar a terceira corrente,a ecológica, na sua dimensão social. O grande desafio vem da pobreza e da miséria. Esses são nosso principais problemas ecológicos e não o mico-leão dourado,o urso panda da China e as baleias do Atlântico Norte.

Digamos logo de saida: pobreza e miséria são questões sociais e não naturais e fatais. Elas são produzidas pela forma como se organiza a sociedade. Hoje temos consciência de que o social é parte do ecológico no seu sentido amplo e verdadeiro. Ecologia tem a ver com as relações de tudo com tudo em todas as dimensões. Tudo está interligado. Não há compartimentos fechados, o ambiental de um lado,o social de outro etc. A ecologia social pretende estudar as conexões que as sociedades estabelecem entre seus membros e as instituições e todos eles para com a natureza envolvente.

Antes de mais nada cumpre enfatizar:

- Não basta,em ecologia, o conservacionismo: conservar as espécies em extinção,como se a ecologia se restringisse somente a um setor da natureza,aquele biótico ameaçado. Hoje todo o planeta deve ser conservado,porque todo ele está ameaçado.

-Não basta o preservacionismo: preservar, por reservas ou parques naturais, regiões onde se conserva o equilíbio ambiental. Isso porpicia apenas o turismo ecológico e induziria a um comportamento reducionista; somente nestas reservas o ser humano teria um comportamento de respeito e veneração, em outros lugares obedeceria a lógica da devastação.

-Não basta o ambientalismo,como se a ecologia tivesse apenas a ver com ambiente natural,com o verde,as águas e o ar. Esta perspectiva pode ser até anti-humanista,segundo a qual,o ambiente é melhor sem o homem/mulher. Estes seriam antes o satã da terra do que o anjo bom e protetor. Diz-se: onde o ser humano anuncia sua presença revela agressão e apropriação egoista dos bens da terra. Essa visão ambientalista é encontradiça em muitos no hemisfério norte. Depois de haverem dominado política e economicamente o mundo, o querem, purificado,somente para si. A realidade é que o ser humano faz parte do meio-ambiente. Ele é um ser da natureza com capacidade de modificar a natureza e a si mesmo e assim fazer cultura; ele pode agir com a natureza expandindo-a, bem como contra a natureza agredindo-a. Devemos estar atentos a um ambientalismo político que esconde por detrás de seus projetos, uma atitude de permanente violação ecológica. Este ambientalismo político quer uma harmonia entre sociedade e ambiente. Mas esta harmonia visa desenvolver técnicas para saquear o ambiente natural com a menor alteração possível do habitat humano. Perdura nesta visão a idéia de saquear a terra,de que o ser humano deve dominar a natureza; então mais que uma harmonia permanente,se quer,na verdade,uma tregua,para a natureza se refazer das chagas, para em seguida continuar a ser devastada. O que importa,hoje, é ultrapassar o paradigma da modernidade,devastador e energívoro e desenvolver uma nova aliança ser humano-natureza,aliança que os faz a ambos aliados no equilíbio,na conservação,no desenvolvimento e na garantia de um destino e futuro comum.

- Não basta a ecologia humana que se ocupa com as ações e reações do ser humano universal,relacionado com o meio-ambiente. Ela é importante,porque trabalha as categorias mentais (ecologia mental) que faz com que o ser humano singular seja mais ou menos benevolente ou mais ou menos agressivo. Mas é ainda uma visão idealista,pois o ser humano não vive no geral mas nas malhas de relações sociais. As próprias predisposições mentais e psíquicas possuem uma característica eminentemente social. Por isso precisamos de uma adequada ecologia social que saiba articular a justiça social com a justiça ecológica. É dentro da ecologia social que os temas da pobreza e da miséria devem ser discutidos. Pobreza e miséria são questões eco-sociais que devem encontrar uma solução eco-social.

a) Que é a ecologia social
Há já reflexões maduras sobre a ecologia social. A começar pela contribuição da enciclopedia francesa de ecologia de Charboneau Rhodes,das obras de antropologia social de Edgar Morin. Importante é o aporte canadense de M. Bookchin e do noruegues A. Naess. Mas ganhou força na A.Latina,particularmente depois da Iª Conferëncia Internacional sobre meio ambiente,organizada pelas Nações Unidas em 1972 em Estocolmo. Ai se confrontaram as duas visões básicas, dos paises do Norte,preferentemente ambientalista e dos paises do Sul,preferentemente político-social. Ai surgiu uma vertente forte latino-americana de ecologia social, no Peru com Carlos Herz e Eduardo Contreras e no Uruguai que encontrou em Eduardo Gudynas um de seus melhores formuladores.

Ele define assim a ecologia social: "é o estudo dos sistemas humanos em interação com seus sistemas ambientais" (Ecología social: la ruta latinoamericana,CIPFE 1990). Os sistemas humanos abarcam os seres humanos individuais,as sociedades e sistemas sociais. Os sistemas ambientais comportam componentes naturais (selvas,desertos,cerrados), civilizacionais (cidades, fábricas) e humanos (homens,mulheres,crianças,etnias,classes etc).

b) Quais as principais questões da ecologia social

Segundo os referidos autores os postulados básicos ecologia social são os seguintes:

l. O ser humano sempre interage intensamente com o ambiente. Nem o ser humano nem o ambiente podem ser estudados separadamente. Há aspectos que somente se compreendem a partir desta interação mútua,particularmente as florestas secundárias,toda a gama de sementes (milho,trigo,arroz etc) e de frutas que são resultado de milhares de anos de trabalho sobre sua genética.

2. Esta interação é dinâmica e se realiza no tempo. A história dos seres humanos é inseparável da história de seu ambiente e de como eles inter-agem.

3. Cada sistema humano cria seu adequado ambiente. É diferente e possui simbolizações singulares, por exemplo,o ambiente próprio habitado pelos yanomamis,pelos seringueiros ou pelos latifundistas,pelos europeus ou pelos indianos.

4. A ecologia social se interessa por tais questões como: Através de que instrumentos os seres humanos agem sobre a natureza: com tecnologia intensiva,como por exemplo com agrotóxicos ou com adubos orgânicos? De que forma os seres humanos se apropriam dos recursos naturais, de forma solidária,participativa ou elitista,com tecnologias não socializadas? Como são eles distribuidos,de forma equitativa,consoante o trabalho de cada um,atendento as necessidades básicas de todos ou de forma elititas e excludente? Uma distribuição desigual afeta de que maneira os grupos humanos? Que tipo de discurso usa o poder para justificar a concentração em poucas mãos,por isso, sua relação de desigualdade que tende à dominação? Como reagem os movimentos sociais no confronto com o estado e com o capital e para melhorar a qualidade de vida no trabalho,na cidade e no campo?

Pertence à discussão da ecologia social,a miséria e a pobreza das populações periféricas,a concentração de terras no campo e na cidade,as técnicas agrícolas e agropecuárias, o crescimento populacional e o processo de inchamento das cidades,o comércio internacional de alimentos e o controle de patentes, a produção do buraco de ozônio,o efeito estufa, a dizimação das florestas tropicais e a ameaça à floresta boreal,o envenanamento das águas,dos solos,da atmosfera etc.

c) Uma ecologia integral
Para uma perspectiva integral,a sociedade e a cultura pertencem também ao complexo ecológico. Ecologia é a relação que todos os seres,vivos e não vivos,naturais e culturais têm entre si e com o seu meio-ambiente. Nesta perspectiva também as questões econômicas,políticas,sociais,eduacionias,urbanísticas,agrícolas entram no campo de consideração da ecologia,como ecologia social. A questão de base em ecologia é sempre esta: em que medida,esta ou aquela ciência,atividade social,prática institucional ou pessoal ajuda a manter ou a quebrar o equilíbrio de todas as coisas entre si, a preservar ou destruir as condições de evolução/desenvolvimento dos seres? Nós somos parte,com tudo o que somos por natureza e fizemos por cultura, de um imenso equilíbrio,do ecosistema. Diz um dos bons ecólogos sociais na América Latina Ingemar Edström,um sueco que vive há anos na Costa Rica:

"A ecologia chegou a ser uma crítica e até uma denúncia do funcionamento das sociedades modernas. Entre as coisas que se tem denunciado temos a superexploração do hemisfério sul,quer dizer, o chamado terceiro mundo,por parte dos paises compatarativamente ricos do norte,do chamado primeiro mundo. Neste sentido,tomar cosnciência sobre a problemática ecológica global deve significar aquirir consciência da situação socio-econômica,política e cultural de nossas sociedades,o que implica conhecer a situação de exploração dos paises do sul pelos industrializados do norte" (Somos parte de un gran equilibro,DEI,Costa Rica l985,12).

3. O atual sistema social é anti-ecológico e gerador de miséria
Dentro dos parâmetros da ecologia social devemos denunciar que o sistema social dentro do qual vivemos - a ordem do capital,hoje mundialmente integrado - é profundamente anti-ecológico.

Em todas as fases ele se baseou e se baseia na exploração das pessoas e da natureza. No afã de produzir desenvolvimento material ilimitado,ele cria desigualdades entre o capital e o trabalho. Disso se segue exploração dos trabalhadores com toda a sequela de deteriorização da qualidade de vida.

Entre nós ele se implantou a partir da Conquista no século XVI com grande virulência pelo genocídio,impondo aos que aqui viviam uma forma de trabalhar e de se relacionar com a natureza que implicava o ecocídio,vale dizer,a devastação de nossos ecosistemas. Nós fomos incorporados a uma totalidade maior que é a economia capitalista. Nosso sistema capitalisa é de economia de exportação dependente.

Implantou-se aqui a apropriação privada da terra,de suas riquezas e das águas que são fonte de riqueza. Esta apropriação se operou de forma profundamente desigual e irracional. Uma minoria possui as melhores terras,muitas vezes,não cultivadas. As terras mais pobres foram deixadas para as maiorias que para sobreviver tem que superexplorá-las e esgotar o solo,terminando por desflorestar as matas e quebrando o equilíbrio natural. Os negros antes escravizados,com a libertação jurídica,não foram compensados em nada. Da casa grande foram jogados diretamente nas favelas. Tiveram que ocupar os morros,desmatar,abrir valas para o saneamento ao ar livre e assim viver sob ameaças de muitas doenças,de desabamentos e de mortes. Todas estas manifestações significam outras agresões ao meio provocadas socialmente.

Hoje a Conquista continua especialmente através da dívida externa que comporta,em seu bojo,uma forte agressão às relações sociais,uma devastação social dos pobres e a contaminação da biosfera pela tecnologia suja que nos é imposta.

Mais e mais fica claro que a dívida externa tem fundamentalmente um significado político. Economicamente os bancos já se asseguraram e se protegeram contra o não-pagamento dela. Mesmo assim é mantida por sua importância política como instrumento de controle e aumento da dependência a partir dos centros de poder nos paises do Norte. Pela dívida o sistema continua se impondo a si mesmo,sua lógica e sua perpetuação. Ele estimula um desenvolvimento que privilegia os mega-projetos e as mono-culturas (soja no Brasil,gado na A.Central, frutas no Chile): ele fornece créditos para implementar tais projetos com financiamentos do Banco Mundial e do FMI; com isso se cria o endividamento; o pagamento da dívida e de seus juros se faz pela exportação; mas pela exportação,cujos preços são aviltados no mercado mundial, não se consegue honrar toda a dívida; então se reduzem os investimentos sociais para com a sobra compensar parte da dívida; esta estratégia produz uma devastação social em termos das políticas publicas concernentes a alimentação,saúde,criação de empregos e organização das cidades; junto com esta taxa de perversidade social caminha o deficit ambiental,pois os pobres ocupam áreas perigosas nas cidades,se lançam na fronteira agrícola,destruindo,no esforço de sobreviver, florestas,produzindo queimadas,poluindo os rios pelos garimpos ou por pesca e caça predatórias; por causa da insolvência dos paises devedores, fazem-se novos empréstimos para pagar os juros,com novos juros aumentados como condição para financiamento de novos projetos ; e assim recomeça a ciranda da dependência,do neo-colonialismo e da dominação.

Cancelar a dívida não resolveria a questão. Enquanto permanecer o modelo de desenvolvimento imperante,saqueador dos homens e da natureza, voltado para fora,produzindo o que os ricos querem que produzamos para eles consumirem, e não atendento o mercado interno,o círculo vicioso retornaria com as mesmas consequëncias perversas.

O economista americano Kennet E.Baoulding chama a economia capitalista de economia de cowboy: baseia-se na abundância aparentemente ilimitada de recursos e de espaços livres para invadir e se estabelecer. É o antropocentrismo desbragado.

A outra economia,para a qual devemos caminhar, a chama , de economia da nave espacial terra. Nesta nave,como em qualquer avião, a sobrevivência dos passageiros depende do equilibrio entre a capacidade de carga do aparelho e as necessidades dos passageiros. Disso resulta que o ser humano deve se acostumar à solidariedade,como virtude fundamental,encontrar o seu lugar no sistema ecológico equilibrado,no sentido de poder produzir e reproduzir a sua vida a vida dos demais seres vivos e ajudar a preservar o equilibrio natural. A terra,portanto, é um sistema fechado,equilibrado e não aberto que permita qualquer tipo de aventura anti-ecológica.

Das reflexões feitas até aqui se depreende a interelação existente entre sociedade e meio-ambiente,como um influencia positiva ou negatiamente o outro.

A proposta de Chico Mendes se tornou paradigmática. Propunha o desenvolvimento extrativista que combinava o social com o ambiental. Ele compreendeu que os povos da floresta (questão social) precisam da floresta para sobreviver (questão ambiental). Ele se deu conta também dos dois tipos de violência,vilência ecológica contra o meio-ambiente e violência social,violência contra os indígenas e seringueiros. Ambas obedecem a mesma lógica,lógica de acumulação via dominação de pessoas e coisas.

Como se fará então o desenvolvimento e como se montará a sociedade dos povos da floresta que rompa com esta lógica? Em primeiro lugar há de se respeitar,apoiar e reforçar todo o conhecimento que aqueles povos da floresta (indígenas e seringueiros) desenvolveram com milênios de história,seu conhecimento da natureza,das árvores,das ervas,do solo,dos ventos,do ruido da selva. E ao mesmo tempo,incorporar tecnologias novas que tragam mais benefícios sociais com a salvaguarda do equilíbrio natural e social.

4. Uma ética sócio-ambiental
É neste contexto que emerge uma nova exigência,de uma ética que não apenas se restrinja aos comportamentos dos seres humanos entre si,mas em sua relação para com o meio-ambiente (ar,terra,agua,animais,florestas etc).

Devemos de saída, ir além uma compreensão da ética ambiental,recorrente nos paises ricos do Norte. Segundo esta ética devemos superar nosso antropocentrismo,limitar a violência contra a natureza presente no paradigma de desenvolvimento ilimitado,acolher a alteridade dos demais seres da criação,desenvolver reverência face à totalidade da natureza. Desta ética emerge, certamente, uma nova benevolência e até a recuperação de um encantamento perdido pelo processo de tecnificação e secularização. Há valores inestimáveis nesta ética ambiental.

Mas ela omite em sua reflexão um elo fundamental: o contexto social,com suas contradições. Não há apenas o meio-ambiente. Nele estão os seres humanos socializados na forma de morar,de trabalhar,de distribuir os bens,de agir e reagir com referëncia a este meio-ambiente; neste contexto social há violências,há os condenados a viver em péssima qualidade de vida,com ar poluido,com águas empestados, morando sobre solos envenenados. Há aqui uma nova agressão.

A ética não pode ser apenas ambiental,mas sócio-ambiental,pois como vimos,o ambiente vem marcado pelo social e o social pelo ambiental.

Discernimos pois dois tipos de injustiças: a injustiça sócio-econômico-política,consequëncia da violência contra os trabalhadores,contra os cidadãos e contra as classes subalternas. Esta injustiça atinge diretamente as pessoas e as instituições sociais. Existe também a injustiça ambiental que é a violência contra o meio-ambiente,contra o ar,contra a camada de ozônio,contra as águas. Estas injustiças afetam indiretamente,mas de forma perversa, a vida humana,produzindo doenças,desnutrição e morte. Não somente para a bio-esfera mas também de forma mais global sobre todo o planeta.

Impõe-se,portanto,uma justiça social que se compagine com a justiça ambiental.

Esta nova ética sócio-ambiental deve manter-se equidistante de duas crispações que sempre quebram o equilíbrio ecológico: o naturismo e o antropocentrismo. Pelo naturismo se concebe a natureza como um sujeito hipostaziado, em si,com suas leis imutáveis,intocáveis e sagradas; os seres humanos devem se submeter a elas. O antropocentrismo diz o inverso,o ser humano é senhor e rei da criação,pode interferir a seu bel prazer e não deve sentir-se ligado e limitado por nada da natureza.

Estas visões são equivocadas,porque separam o que deve vir junto. Natureza e ser humano são sempre interdependentes,um está dentro do outro,são partes de um todo maior. Existe o ecosistema planetário; dentro dele,como um dos seres singulares, está o ser humano,homem/mulher,está a sociedade como conjunto de relações entre estes seres com suas instituições e estruturas de significação.

Como parte e parcela do meio-ambiente o ser humano possui a sua singularidade. É da espécie dos seres vivos que se apresenta como um sujeito moral. Quer dizer, um ser vivo complexíssimo,capaz de agir livremente,de sopesar argumentos em favor e em contra,de tomar posição movido não apenas por interesses mas também por solidariedade,por compaixão e amor. Pode eventualmente pensar e agir a partir dos interesses do outro,. Pode ainda por solidadariedade e amizade sacrificar vantagens pessoais. Ele pode interferir nos ritmos da natureza. Tudo isso o torna um ser responsável. É a responsabilidade que o faz um ser ético. Pode se sentir o anjo bom da natureza,seu guardião,herdeiro responsável pela herança que recebeu do Criador. Como pode se comportar como satã da terra,destruir,quebrar equilíbrios e devastar espécies de seres vivos e até seus semelhantes.

No processo histórico-cultural o ser humano sempre interferiu no meio-ambiente. Aplicou violências bem como aplicou seu ingênio para melhorar em seu benefício certas espécies (o tamate,a batatinha,o milho, etc). Os incômodos ecológicos eram de pouca monta, à exceção talvez, dos maias que devastaram a natureza a ponto de se autodestruirem como cultura. Mas nos últimos quatro séculos com a montagem da máquina industrialista,a agressão se fez maciça e sistemática,transformando tudo em recurso para a acumulação e benefício primeiro dos setores de detinham privadamente esses meios e sem seguida dos demais.

O resultado atual é desolador. O ser humano elaborou uma relação injusta e humilhante para com a natureza. A terra não aguenta mais a máquina de morte ou a voracidade capitalista. Impõe-se uma justiça ecológica.

A justiça ecológica significa: o ser humano tem uma dívida de justiça para com a terra. A terra possui sua dignidade,sua alteridade,seus direitos; ela existiu há milhões de anos antes que surgisse o ser humano. Ela tem direito a continuar a existir em sua complexidade,com o seu patrimônio genético,com seu bem comum, com o seu equilíbrio e com as possibiliades de continuar a evoluir.

Um de seus filhos, o ser humano,se voltou contra ela. A justiça ecológica se propõe uma nova atitude para com a terra,de benevolência e de mútua pertença e ao mesmo tempo uma atitude de reparação das injustiças praticadas. Se o projeto técnico-científico desestruturou,ele pode hoje redimir.

Essa injustiça ecológica (contra o meio-ambiente) se transformou também numa injustiça social porque pela exaustão dos recursos,pela contaminação atmosférica, enfim pela má qualidade de vida foi atingido o ser humano e a inteira sociedade.

Esta nova ética sócio-ambiental só se implementa se surgir mais e mais uma nova consciência planetária,a consciência da responsabildidade comum para com o destino comum de todos os seres. Desta consciência vai se formando lentamente uma nova cultura ecológica,o predomínio de um novo paradigma mais reverente e integrador para com o meio-ambiente.

Um notável filósofo da ética da responsabilidade,Hans Jonas, formulou assim,na linha de Kant,um novo imperativo ético para nossos dias: Comporta-te de tal meneira que os efeitos de tuas ações sejam compatíveis com a permanência da natureza e da vida humana sobre a terra.

Teologicamente podemos falar de pecado ecológico. Quer dizer,daquelas atitudes que comprometem o equilíbrio ecológico e a evolução e que provocam consequëncias perversas para os seres vivos e para os humanos.

Esse pecado ecológico não se restringe apenas ao presente. Ele alcance o futuro,pois podem ser feitas intervenções na natureza cujas consequëncias se prolongam para além da geração atual,atingindo aqueles que ainda não nasceram. O preceito bíblico: "Não matarás"( Ex 20,l3) abarca também o biocídio e o ecocídio futuros. Não nos é permitido criar condições ambientais e sociais que produzam futuramente doenças e mortes aos seres vivos, humanos e não humanos. O pecado ecológico é um pecado social e histórico.

Em razão destes efeitos se entende a solidariedade generacional; cumpre sentirmo-nos solidários para com aqueles que ainda não vieram a este mundo. Eles têm direito de viver,de não ficar doentes,de desfrutar da natureza,de consumir águas limpas,respirar ar oxigenado,de contemplar as estrelas,a lua e o sol,enfim a natureza conservada e integrada humanamente.

Consequëncia desta nova consciência ética é a assim chamada recorversão da dívida externa dos paises devedores em função de políticas protetoras do meio-ambiente natural e social. Segunda esta proposta parte da dívida externa seria cancelada,desde que os estados e as empresas se dispusessen a proteger o meio-ambiente e a manter relações sociais mais simétricas e justas. Mas não basta a reconversão da dívida feita aos estados e às grandes empresas. Para ser socialmente justa deveria incorporar como interlocutores também os grandes movimentos sociais e seus representantes. Eles seriam sujeitos de uma transformação econômica,política e social que atenderia suas demandas históricas e que articulasse a justiça social com a justiça ecológica de forma permanente.

Por outra parte, é farisaico e injusto que os paises ricos do Norte exijam atenção ao meio-ambiente aos paises pobres do Sul,se não lhes dão condições técnicas que facilitem a preservação ecológica. Antes pelo contrário: o que assistimos é a transferência de tecnologias sujas para os paises pobres a fim de que produzam para o mercado interno e internacional os produtos ainda consumíveis mas produzidos com uma taxa considerável de prejuizos ecológicos.

A ecologia convencional surgiu desvinculada do contexto social. Igualmente as teologias vigentes,também a teologia da libertação foram elaboradas sem inserir o contexto ambiental. Agora importa completar as perspectivas numa visão mais completa e coerente: a lógica que leva a dominar classes,oprimir povos e discriminar pessoas é a mesma que leva a explorar a natureza. É a lógica que quer o progresso e o desenvolvimento ininterrupto e crescente,como forma de criar condições para a felicidade humana. Mas esta forma de querermos ser felizes está consumindo as bases que sustentam a felicidade que é a própria natureza e o ser humano.

Para chegarmos à raiz de nossos males e também ao seu remédio,necessitamos de uma nova cosmologia teológica, i.é. de uma reflexão que veja o planeta como um grande sacramento de Deus,como o templo do Espírito, o lugar da criatividade responsável do ser humano,a morada de todos os seres criados no Amor. Ecologia etimologicamente tem a ver com morada. Cuidar dela,repará-la e adaptá-la às eventuais novas ameaças,alargá-la para abrigar novos seres culturais e naturais, eis a sua tarefa e também a sua missão.


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ADENDOS
Exemplos de mútua relação negativa entre o social e o ambiental:
l.Morte de aves em Minas Gerais
Em l985 constatou-se uma mortandade fenomenal de aves em Minas Gerais,cerca de 50.000 entre pombos e gaviões. Verificou-se que estas aves haviam visistado uma plantação de arroz,recentemente,regada com o inseticida Furadan,fabricado pela Guaicuhy Agropecuária. Fenômeno análogo ocorreu na cidade do México. Em 1986 morreram de repente na cidade milhares de pombas e aves migratóiras. Os especialistas constataram que morreram durante uma forte inversão térmica da cidade durante a qual o cadmio e o chumbo de uma refinaria de petróleo a noroeste da cidade não pode se dissipar no ar,ocasionando a morte das aves. Milhares de crianças foram também contaminadas,muitas das quais morreram.

2. O fenômeno da inversão térmica
Tanto S.Paulo quanto a cidade do México apresentam,geralmente,no inverso o fenômeno da inversão térmica.Especialmente grave é o problema na cidade do México. A cidade fica a mais de 2.500 metros de altura,numa imensa planície (outrora um lago) cercada de morros. A inversão térmica ocorre porque camadas de ar contaminado mais denso não podem subir verticalmente até dissipar-se na estratofera. Elas permanecem próximas à superfície da cidade. Formam uma camada densa de névoa,tipo fog ou smog. Com isso a circulação de ar fica impedida e se produz a asfixia de muitíssima gente. Calcula-se que,caminhar pelas ruas da cidade do México por um dia,equivale fumar 40 cigarros diários. Sabe-se que durante a grande inversão térmica de l952 em Londres,morreram 4000 pessoas.Calcula-se que por ano morrem no México cerca de 30 mil crianças e ao redor de l00 mil adultos.

Junto com a inversão térmica se produz no verão as chuvas ácidas. O ar contaminado de ácidos, especialmente de enxofre , nitrogênio e dióxido de carbono contamina por sua vez a água das nuvens. Ao chover afeta as fontes,os lagos,as plantações e animais.

Outras vezes se produz a precipitação ácida provocada pela transformação química da atmosfera,sobrecarregada de áxidos industriais. Cainda em forma de chuva,de neve ou de resíduos secos,contaminam os metais que estão in natura na terra,como o zinco,o chumbo,o mercúrio e alumínio. Estes metais são altamente tóxicos para a vida humana. São absorvidos pela água,pelas hortaliças e legumes e mesmo pelo ar. Não somente a saúde humana é afetada,mas também as matas,os lagos,os animais aquáticos,as plantações,os materiais das cidades. Com um nível crescente,pode-se até interromper a cadeia alimentícia,dos lagos. A flora aquática absorve os tóxicos, que é comida pelos peixes pequenos que então se contaminam,estes servem de comida para os peixes grandes e estes para os seres humanos. Todos ficam contaminados por esta cadeia de envenenamento.

3.Hamburguerização das florestas da A.Central
A partir da criação da rede McDonald em 1955,se produziu um enorme problema ecológico em toda a A.Central.Para baratear a carne dos hamburguers americanos,se começou a importar carne barata da A.Central. As companhias exportadoras de canre,começaram a desmatar, para criar gado em pastoreio extensivo. Entre l960-1980 cresceu a exportação de carne na ordem de 160%. Ao mesmo tempo diminuiu enormemente a mancha verde da A.Central. De 400 mil km2 de florestas únidas havia 20 anos após apenas 200 mil. Como disse o ecólogo Ingemar Hedström,produziu-se uma "hamburguerização" da A.Central (Somos parte de un gran equilibrio,op.cit. 46-47).

Fato parecido ocorreu com os famosos projetos de Daniel Ludwig e da Volkswagen na Amazônia. Em Jari de Ludwig foram desmatados 2 milhões de hectares de florestas.A Volkswagen desmatou l44 mil hectares para no território colocar 46.000 cabeças de gado. Para cada cabeça de gado havia 30 mil metros quadrados. Os projetos fracassaram,as pessoas não foram beneficiadas e todos perdemos as florestas.

(extraído de http://www.leonardoboff.com/site/vista/outros/ecologia-social.htm)

domingo, 20 de julho de 2008

Ecologia Social, segundo Leonardo Boff



"A segunda _a ecologia social_ não quer apenas o meio ambiente. Quer o ambiente inteiro. Insere o ser humano e a sociedade dentro da natureza. Preocupa-se não apenas com o embelezamento da cidade, com melhores avenidas, com praças ou praias mais atrativas. Mas prioriza o saneamento básico, uma boa rede escolar e um serviço de saúde decente. A injustiça social significa uma violência contra o ser mais complexo e singular da criação que é o ser humano, homem e mulher. Ele é parte e parcela da natureza.

A ecologia social propugna por um desenvolvimento sustentável. É aquele em que se atende às carências básicas dos seres humanos hoje sem sacrificar o capital natural da Terra e se considera também as necessidades das gerações futuras que têm direito à sua satisfação e de herdarem uma Terra habitável com relações humanas minimamente justas.

Mas o tipo de sociedade construída nos últimos 400 anos impede que se realize um desenvolvimento sustentável. É energívora, montou um modelo de desenvolvimento que pratica sistematicamente a pilhagem dos recursos da Terra e explora a força de trabalho.

No imaginário dos pais fundadores da sociedade moderna, o desenvolvimento se movia dentro de dois infinitos: o infinito dos recursos naturais e o infinito do desenvolvimento rumo ao futuro. Esta pressuposição se revelou ilusória. Os recursos não são infinitos. A maioria está se acabando, principalmente a água potável e os combustíveis fósseis. E o tipo de desenvolvimento linear e crescente para o futuro não é universalizável. Não é, portanto, infinito. Se as famílias chinesas quisessem ter os automóveis que as famílias americanas têm, a China viraria um imenso estacionamento. Não haveria combustível suficiente e ninguém se moveria.

Carecemos de uma sociedade sustentável que encontra para si o desenvolvimento viável para as necessidades de todos. O bem-estar não pode ser apenas social, mas tem de ser também sociocósmico. Ele tem que atender aos demais seres da natureza, como as águas, as plantas, os animais, os microorganismo, pois todos juntos constituem a comunidade planetária, na qual estamos inseridos, e sem os quais nós mesmos não viveríamos."

(Extraído de http://www.leonardoboff.com/)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Ecologia Social é Pelegagem?


A Ecologia Social é pelegagem ou a Pedagogia Libertária é mera retórica, para um falar e agir intelectualmente "confortante"?

Todas as idéias novas e constatação de fatos quando concebidos ou descobertos, a princípio, sempre são recebidos com a "desconfiança" do preconceito e a sua decorrente animosidade e desvalorização. Isto para apresentar uma forma mais amena de contrariedade.

Vide o que ocorreu com "livres–pensadores" como Copérnico, Giordano Bruno e Galileu Galilei na assim chamada idade média. Homens que podem representar o advento da série de questionamentos em diversos setores do saber e na visão de mundo que desembocou no "Renascimento" cultural e a redescoberta do próprio Ocidente.

No caso de Copérnico foi uma profunda e radical mudança de paradigma, chamada de revolução Copernicana, que consistiu na teoria de que a terra move-se em torno do sol e não o inverso, que era postulado dogmaticamente pela igreja. Consiste na oposição do geocentrismo da igreja ao heliocentrismo de Copérnico, pela qual a detentora do monopólio ideológico perdia, e perdeu, muito de sua influência e poder.

Em seguida, com o "Renascimento", como autoproclamado pelos estetas da época, surgiram novos paradigmas como o antropocentrismo, que colaborou para a desconstrução do teocentrismo até este momento dominante neste processo de transformações do Ocidente.
Decorreu em seguida o mercantilismo, a reforma protestante e o racionalismo cartesiano, de base "mecanicista" e etc. sendo que este último erigiu–se como uma "nova moral religiosa da modernidade" e sua conseqüência direta foi uma visão extremamente utilitarista do mundo, subordinando–o à sua lógica "analógica", "analítica" e "digital", antes da cibernética, com os seus: racional ou irracional, certo ou errado, lucrativo ou não.

Este tipo de visão tem como prioridade secionar, atomizar o conhecimento e a sua experiência. Ele vê as partes de uma árvore ao invés da árvore, ou de um bosque. "Adestra" a visão do homem em relação ao mundo e à "natureza", das coisas a uma determinada lógica. Este paradigma gera um "conforto", uma "conformidade" do pensamento no que ele poderia inspirar de reflexões mais instigantes, obscuras e ansiosas, pois as grandes questões não-eleitas como utilitárias ou importantes, e a própria reflexão sobre esses valores, são deixadas de lado. É um "conforto" que gera "conformismo" intelectual e pensamento estático. Ela divide, escrutina, separa, seciona o conhecimento e conquista o imaginário social diminuindo o poder de intervenção e elaboração simbólica de outros saberes como as culturas e tradições ancestrais em relação à natureza, sua ética e visão do mundo e para com o mundo.

Estamos numa época de profundos conflitos, gerados pela "globalização". Também dentro desta conjuntura há o florescimento, e o resgate de outras visões de mundo, ou o surgimento de outras. Podemos afirmar que estamos caminhando, se não houver nenhum "acidente", para uma provável nova "revolução Copernicana". Mas deixemos este ponto para mais adiante. Falemos agora das polêmicas surgidas dentro do "movimento libertário" a partir destas novas conjunturas.

Com a derrocada dos regimes do capitalismo estatal, como ex–URSS e leste europeu, ou seja, o fim da "guerra fria", com o mundo todo se tornando um imenso burgo lamacento, onde espaços antes ocupados no imaginário social, e antes de tudo nos movimentos sociais, em que esquerda fetichizava o operário industrial urbano e colonizava com o seu programa outros setores, tais como camponeses, favelados e contestações de fundo étnico, dando–lhes uma dinâmica monolítica e unidimensional, e com a falência deste projeto, novos movimentos e alternativas começaram a surgir ocupando estes espaços, dentro de uma enorme multiplicidade. Estes movimentos são de todos os tipos e aspectos. Muitos são meras reivindicações como princípios em si mesmos, como o movimento dos consumidores "conscientes". Outros de perfil que poderíamos chamar "não rigidamente" de "libertários". E muitos outros fundamentalistas, como os religiosos, nacionalistas e "Nazis".

Dos anos 60, séc. XX, até a atualidade, popularizou–se a revalorização das teses e práticas "libertárias anarquistas", o surgimento e valorização de movimentos étnicos, indígena e negro por exemplo, de gênero e anti–patriarcais, gays, lésbicas e mulheres, e a verdadeira "febre"” que é o "movimento ecológico internacional", sendo isto, em muito, herdeiro de um arcabouço teórico de origem anarquista, tendo como exemplo evidente a obra "Campos, fábricas e oficinas", de Pedro Kropotkin, e um dos seus lemas mais importantes é sintomático em relação a isto, "pensar globalmente, agir localmente". Apesar deste florescimento de movimentos, ousadias intelectuais e ativistas, o mundo não se tornou uma grande "aldeia–livre".

Estas novas concepções, e as resgatadas, de movimentos e visões de mundo ainda estão sendo digeridas, e talvez o seu pleno potencial ainda seja embrionário e contraditório. Conflitos entre estes elementos não foram totalmente superados, e isto somente a prática social quotidiana poderá silenciosamente responder.

Para assinalar a partir do campo da ação e reflexão anarquista pode ser exemplificada brevemente ao nível geral a polêmica surgida recentemente a respeito da Ecologia social e da Ecologia profunda. Tentar-se-á tratar deste tema como um todo.

Com a popularização das "teses" políticas e ecológicas colocadas em pauta em todo mundo, mais fortemente a partir dos anos 60, nasceram duas vertentes neste debate de pensamento e ação radical que são a ecologia social, de influência nitidamente e diretamente anarquista, vide a obra de Murray Boockchin, anarquista norte–americano membro fundador do Instituto de Ecologia Social de Nova Iorque, e a chamada “Ecologia Profunda”, inicialmente sem ligações diretas com o anarquismo, inspirada na obra do filósofo norueguês Arne Naess e posteriormente adotada pela "eco-guerrilha", ou sabotagem ecológica, pela organização chamada Earth First!, "A Terra Primeiro!", fundada inicialmente nos EUA em 1979, pelo fuzileiro veterano da guerra do Vietnã, Dave Foreman, cujos princípios básicos da organização são: estrutura federalista e radicalmente descentralizada, não–violência, ação direta e ecologia profunda.

Entre estas duas vertentes existe uma certa animosidade mútua principalmente no campo teórico, já que a militância da EF! é mais forte e contem muitas individualidades e organizações ácratas. A EF! acusa os ecologistas sociais de excessivamente "antropocêntricos", preocupados apenas com a remediação dos problemas ecológicos, vendo apenas uma parte da vida, o homem, e não atentando para o todo do planeta, a Mãe Terra, categoria forte na EF!. Da parte dos Ecologistas sociais, aviso, nem todos de matriz anarquista já que a ecologia social se pretende enquanto uma das diversas subdivisões da ciência, acusam a Ecologia profunda de misantrópica, alienada das questões sociais e excessivamente "biocêntrica". Na linha de frente desta crítica está o próprio M. Boockchin. Como podem ver, está formada uma querela. Embora o próprio M. Boockchin no seu trabalho "Por uma ecologia social", reconheça a proximidade nos últimos tempos da EF! com a IWW, órgão sindical de orientação libertária, fato deveras inovador neste país onde o sindicalismo tem a tendência e tradição de ser corporativo e atrelado ao paradigma do credo industrial capitalista.

Para complicar um pouquinho mais este quadro, há a posição de setores anarco–sindicalistas portugueses da FAI que acusam os signatários das teses do Boockchin de "neo–anarquistas" de direita, que abandonaram "a luta dos trabalhadores". Fazendo uma breve análise destas questões, no caso específico dos anarco–sindicalistas, existe um equívoco em relação a este assunto. Primeiro por que estes não consideram estas questões. As suas avaliações são realizadas em categorias cristalizadas, desconectadas com o real, feitas na maioria das vezes de forma apriorística, e não que os companheiros sejam obrigados a uma “concordância” inexorável e a se tornarem PhDs em ecologia social, mas um pouquinho de sensibilidade e menos ortodoxias ajudariam bastante a sensibilizarem–se a novas e pertinentes questões. Talvez em Portugal seja um pouco como no Brasil. Em segundo, o anarco–sindicalismo ainda está atrelado ao paradigma da "luta econômica industrialista", sendo que é observado que esta tendência e as suas organizações não são mais um movimento preponderante, e nem representam mais uma alternativa concreta de transformação social. Sua preocupação primordial é promover a luta econômica industrial com tintas "anárquicas", mas estes hoje apenas sobrevivem em formas mumificadas e em discursos radicalmente ultrapassadas, convertendo–os assim em ortodoxos.
Em relação à dicotomia Ecologia Profunda e Ecologia Social, a questão às vezes é meio espinhosa, mas mesmo assim há de se aprender muito com a prática e a teoria das duas vertentes. A princípio, deve-se observar e esclarecer que no caso da Ecologia social esta não consiste numa organização e sim em uma elaboração teórica e proposta, como tantas outras teses anarquistas: o apoio mútuo, a desobediência civil, a ação direta, a autogestão etc. Nos EUA esta prática habita duas esferas: a acadêmica, como uma espécie sui generis de transdiciplinaridade, e o ponto programático, idéia-força, tese e princípio dos grupos organizados anarquistas. Porém existem grandes polêmica sobre os limites desta última esfera por parte de outros ecólogos sociais.

No caso da Ecologia Profunda, esta pode ser considerada como um conjunto de princípios éticos sobre toda forma de vida no planeta, seja humana ou não-humana, como são trabalhadas as categorias de discurso por parte dos ecólogos profundos. Como foi dito antes, a principal organização política que adota esta teoria é a já referida EF!, mas também há a incorporação de pequenos grupos pacifistas e de direitos e liberação animal.

A EF! advoga uma profunda transformação nas estruturas econômicas, políticas e das mentalidades. As suas "ações diretas" de eco-sabotagem são contra os agentes diretos da poluição e depredação da natureza. O alvo principal é o grande capital das megacorporações transnacionais e também nacionais. Tem se observado que nos últimos anos, nas fileiras da EF!, tem crescido bastante o número de militantes de orientação anarquista.

Visto isso, pode-se interpretar que as posições de luta pela melhoria da qualidade de vida das comunidades humanas com uma conseqüente transformação "profunda" da sociedade a pressupostos de defesa de quaisquer formas de vida e seus ecossistemas não são contraditórios e nem oponentes. A dicotomia entre antropocentrismo e biocentrismo é falsa. Mas ocorre um fato além da vaidade e briga por espaço político. Acontece realmente que adeptos da Ecologia profunda, eventualmente, e alguns setores, têm a tendência há um certo "fundamentalismo biológico preservacionista", e talvez isto seja reflexo das proposições do próprio Foreman. Mas o seu empenho ativista, dedicação e base ética bem constituída na esfera da condução filosófica do ativismo, são invejáveis, mesmo se estes ainda engatinharem na clareza de sua análise social para a "comunidade humana". Enquanto que com a ecologia social, esta tem claras e objetivas propostas em relação ao social, mas apenas principia-se em uma visão mais holística com outros elementos vitais ao ser humano e à vida. Prendem-se a vícios do passado que também atrapalham com que esta visão se amplie.

Estas teses e proposições ideológicas, metodológicas, filosóficas, científicas, práticas e éticas devidamente criticizadas são possivelmente intercambiáveis aqui no Brasil. Jamais devemos ser certos de nossas certezas em demais pois isto atrofia a prática, esteriliza a reflexão e dogmatiza o espírito, mas mesmo assim nas condições tropicais brasileiras talvez seja possível florescer uma "Ecologia social de visão profunda" como uma linha de interpretação do mundo e linha de ação. O nosso patrimônio biológico, multicultural, humano e social podem contribuir muito para com a nossa própria sociedade e por que não com o próprio planeta. Esta temática e este tipo de proposta com certeza enfrentaram (e enfrentam) resistências infundadas ou talvez preconceituosas.

Dado que os anarquistas brasileiros, muitos, mas não todos, sofrem de uma estranha doença "da auto-afirmação", depois de anos de inação e auto-enclausuramento em conventos culturalistas, agora que estes estão começando a despertar para a ação nas gerações mais recentes sofrem desta estranha patologia, que é repetir retoricamente um anarco-comunismo datado combinado aos vícios da visão anarco-sindicalista com práticas de análise em “dogmatismos principistas” da esquerda tradicional. Mas esta crítica está associada apenas aos reprodutores da “velha escola” e “culturalistas de classe média” por que já existe uma nova geração composta de elementos sinceros e tolerantes que estão trabalhando para alavancar as lutas sociais vitais para a nossa sociedade.

Pois é nítido, empiricamente comprovado, que o paradigma cartesiano-mecanicista, “industrialista” e utilitarista-econômico hoje, com o processo de globalização, porá em cheque a humanidade e quaisquer formas de vida ameaçando severamente a Mãe Terra.

A militância libertária para este princípio de terceiro milênio além de não transigir com os seus princípios vitais incorporados nas lutas populares, deve ter uma atuação prática dentro de uma visão multidimensional, ou seja, signatária de novos paradigmas Holísticos e transdiciplinares filosóficos-científicos como também otimisadores de outras tradições, saberes; o intuitivo com o racional conjugado com os saberes populares e comunitários, e também dos saberes milenares dos povos ancestrais “originários”, africanos, indígenas e etc. Pois urge cada vez mais o rompimento com as metafísicas mistificadoras religiosas tanto quanto com os vícios e males do materialismo. Deixemos isto para o marxismo.

Neste tempo de demanda por transformações politico–sociais, é contatado que novas formas de conhecimento como a ecologia, que por acaso significa o “estudo da casa”, ou seja ambiente, universo, requer o trabalho sócio-cultural da consciência ambiental irmanado com a questão econômica. Economia significa administração da casa, do ambiente. Para continuarmos a viver e não meramente sobreviver como humanos devemos entender e lutar por quem vai “administrar”, respeitar ou arrumar a casa. Nós todos ou uma casta genocida?

Tanto se fala entre os anarquistas brasileiros e outros ativistas populares na defesa de uma concepção de acordo com a cultura popular brasileira e latino-americana e se faz tão pouco para implementá-la. O paradigma Holístico é uma janela que se abre para esta questão.

Afinal de contas o termo libertário hoje é um conceito muito amplo. Ele não é mais de nenhuma forma monopólio dos anarquistas, devemos ter consciência disto, pois dentro dos próprios princípios dos “autonomistas” europeus, por exemplo, admite-se que em outras culturas, de outros continentes surjam formas diversas de “libertários”. Os “Resistentes”, “Magonistas” e “Zapatistas” podem enquadrar-se neste caso, ou seja, sermos globais, internacionalistas, sem esquecermos de quem somos ou dos nossos rituais culturais comunitários.

O que se entende por "libertários" são aqueles que lutam e ao mesmo tempo têm como princípio a liberdade. Isto dado não apenas numa forma idealizada e abstrata, metafísica, e sim com práticas concretas como, ação direta, descentralização, democracia direta horizontalizada, fóruns coletivos públicos de deliberação e federalismo. Dentro destes princípios existe hoje uma grande multiplicidade de correntes e movimentos sociais adeptos tais como os autonomistas, movimento Zapatista no México, movimento Okupas na Espanha, movimentos ecológicos, ação global dos povos, movimentos indígenas etc. Somente dialogando apoiando, agindo conjuntamente e incentivando estas iniciativas contra o verdadeiro adversário da humanidade que é o capitalismo “globalitarista” promotor de guerras, genocídios e ecocídios, somente através de alianças em “rede” e horizontalizadas que as pessoas poderão resistir “globalmente.”

Desconstruindo quaisquer formas de obscurantismos, mentalidades confortantes e acomodadas mal-disfarçadas de principismo, poderá se construir uma democratização econômica com a descentralização produtiva, com gestão comunitária em rede gerando empregos saudáveis e para todos em oposição às concentrações da produção industrial que é hierárquica, sexista, anti-humana e poluidora. Características típicas da economia capitalista.

Pode-se afirmar que a vida na terra seja humana e não-humana, seja comunitária e que os ecossistemas estão além do que nossas arbitrárias medidas de valores supõem.

Para esclarecer melhor o que foi discutido neste ensaio é recomendada a leitura de obras dos autores clássicos tais como Petr Kropotkin, os irmãos Reclus e de autores recentes como Felix Guatarri, Cornelius Castoriadis, Fritjof Capra, Michel Foucault, Arne Naess, Murray Boockchin, Lewis Munford e Pierre Clastres.

Concluindo, para se trabalhar de forma concreta a consciência ambiental e ecológica, de nossa casa que é o mundo, com um processo de aprofundamento da tomada de consciência social é pertinente se trabalhar na educação popular incluindo na sua área temática e didática a educação ambiental. E esta Educação popular pode apoiar-se no seguinte tripé temático: pedagogia libertária, estudo e aplicação da ecologia social mesclada à ecologia profunda e práticas técnicas para a melhoria direta da comunidade feita em regime de mutirão.

A pedagogia libertária é a educação na vida e a ecologia é a ética na ciência conjugando um “modo de vida” voltado para a vida.

Coletivo Domingos Passos - São Gonçalo, 2001.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Perspectivas sobre a Ecologia Social

"A dominação da natureza pelo homem tem origem na própria dominação do humano sobre o humano."A Ecologia da Liberdade, pág. 1, Murray Bookchin

A ecologia social reclama que a crise ambiental é um resultado da organização hierárquica do poder e da mentalidade autoritária, enraizada nas estruturas da nossa sociedade. A ideologia ocidental da dominação da natureza advém destas relações sociais.
A alternativa é uma sociedade baseada em princípios ecológicos; uma unidade orgânica na diversidade, liberta da hierarquia e baseada no respeito mútuo pelo interrelacionamento de todos os aspectos da vida. Se mudarmos a sociedade humana, as nossas relações com o resto da natureza também se modificarão.

Princípios chave:

O cerne da ecologia social é que os problemas ecológicos advêm de enraizados problemas sociais. A hierarquia social e as classes sociais legitimam a nossa dominação do ambiente e suportam o sistema consumista;

"As causas profundas dos problemas ambientais são o comércio pelo lucro, a expansão industrial e a identificação do ‘progresso’ com os interesses corporativos."O que é a Ecologia Social?, Murray Bookchin

O dano ecológico praticado pela nossa sociedade é mais do que equivalente ao mal que inflige à própria humanidade. A Ecologia Social acentua que o destino da vida humana segue palmo a palmo com o destino do mundo não-humano.

"Os ecologistas Sociais acreditam que coisas como o racismo, o sexismo, a exploração do terceiro mundo são produtos do mesmo mecanismo que causa a devastação das florestas tropicais."Filosofia ambiental: Dos direitos dos animais à Ecologia Radical.

"A ecologia mostra que a natureza nos pode fornecer princípios éticos. Um ecossistema vigoroso maximiza a diversidade e a interacção e minimiza a hierarquia e a dominação. O melhor de tudo é que é arquivado/conjugado/alcançado através de uma ‘individualidade rica e um complexo interrelacionamento das partes.’"Renovando a Terra, John Clark, pág. 5

Maria Silva

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

ECOLOGIA SOCIAL VERSUS ECOLOGIA LIBERAL

A ecologia é a ciência das trocas e dos equilíbrios naturais, isto é, ciência que trata das relações entre os seres vivos, plantas e animais, e entre estes e o seu meio e habitat.

Ao lado desta ecologia natural, pertencente ao domínio das ciências da natureza, juntamente com a biologia e a geografia física, desenvolveu-se, entretanto, a partir daquela uma ecologia politica que estuda o impacto das actividades humanas, nomeadamente as de carácter económico e produtivo, sobre aqueles equilíbrios naturais. Pela sua abordagem específica da realidade envolvente, a ecologia mantém uma relação conflitual com a tradicional ciência económica, vista as mais das vezes como um verdadeira ideologia dominante da civilização industrial, mercantil e produtivista do capitalismo.

A ecologia política deu origem, desde os anos 60/70 do século XX, a um crescente e cada vez mais poderoso movimento social, o ecologismo, cujo objectivo é mudar a forma como se produz e como se consome a fim de preservar o ambiente natural.

Dentro do ecologismo podemos encontrar várias teorias/doutrinas ecologistas, todas reclamando a necessidade de defender o ambiente natural.

No plano filosófico há fundamentalmente uma oposição entre uma ecologia antropocêntrica, que coloca o homem no centro do seu concepção, e uma ecologia biocêntrica, que preconiza um descentramento daquela visão de molde a envolver todos os seres vivos, não só os seres humanos como também os animais e as plantas.

No plano económico diferenciam-se duas concepções contrárias: a ecologia liberal e a ecologia social.

A ecologia liberal lança os seus fundamentos nos mecanismos do mercado e acredita que através de uma legislação normativa apropriada será possível resolver os problemas ambientais que afectam as sociedades contemporâneas. Na linha desta visão ambientalista, os seus representantes defendem a chamada internalização dos custos (e prejuízos infligidos à natureza) através do cálculo económico e contabilístico das empresas e das famílias ( com a consequente criação de taxas e de subsídios, tal como acontece para com qualquer outra actividade económica ), a promoção da investigação e da inovação técnica ( para se obter técnicas produtivas limpas, como os carros não-contaminantes, etc), assim como o desenvolvimento do denominado capitalismo verde (eco-business, eco-indústrias, etc, etc) que permitirão gerir economicamente os recursos da natureza, sem causarem grande impacto sobre as grandezas macro-económicas como o PIB, o emprego e o crescimento económico. No fundo, a ecologia liberal pretende substituir o capital natural pelo capital técnico como único meio para garantir as capacidades produtivas das gerações futuras.

A ecologia social não tem uma visão economicista dos problemas ambientais, considerando mesmo que a própria economia se tornou com o neo-liberalismo num instrumento de mistificação e legitimação de um sistema sócio-económico depredatório e suicidário, para além de se ter mostrado profundamente iníquo.

Sob a designação geral de ecologia social, originariamente associada a Murray Bookchin, encontram-se no entanto vários autores (Lewis Mumford, J.Ellul, I.Illich, A. Gorz, etc.) e abordagens que questionam o capitalismo, a ideologia produtivista, a sociedade de consumo e de desperdício, assim como as desigualdades sociais, o racismo e o domínio e a exploração de uns homens sobre os outros, abordagens estas que se complementam e que preconizam um novo paradigma (modelo) social e uma nova forma de relacionamento para com a natureza.

Para estes autores a técnicas produtivas da indústria capitalista ao procurarem satisfazer uma necessidade, através da produção industrial das mercadorias, geram outras tantas carências e insatisfações que, num ciclo interminável, aguardam pela sua superação. O crescimento económico, segundo estes autores, alimenta-se dos seus próprios prejuízos e insatisfações que produz incessantemente. A conclusão é, pois, óbvia: a economia tal como a conhecemos, isto é, a economia capitalista é contra-produtiva, já que o crescimento se mostra nefasto, lesivo e ilusório. Nefasto, porque destrói os recursos não renováveis e gere, além disso, altíssimos custos sociais: exclusão, precariedade, desemprego tecnológico, alienação social e mercantil, perda do sentido e de autonomia face às forças poderosas do Estado e das grandes mega-corporações, as empresas transnacionais. Ilusório, porque não existe na realidade valor acrescentado senão por via dos preços, e estes não dão conta das inutilidades crescentes (desperdícios,etc) e dos valores perdidos.

Claro está que um questionamento do progresso e do crescimento económico deste género arrasta consigo outros problemas, como o problema do emprego e a indispensabilidade de um outro modelo e de uma outra lógica que não seja o produtivismo economicista de inspiração liberal ( ou marxista) da economia clássica, predominante desde a Revolução Industrial. Uma vez que não haverá empregos para todos haverá então que dividir os rendimentos gerados ( consultar a esse propósito André Gorz) e redefinir o papel do Estado e do mercado, bem como da esfera das actividades autónomas (triângulo de S.C. Kolm).

Nesta perspectiva valorizam-se as actividades autónomas, fora do âmbito do mercado, que são conviviais, que se mostram pouco poluentes , porque utilizam técnicas produtivas alternativas, e são promotoras do salário mínimo universal, o qual deverá ser acrescentado ao elenco já tradicional dos direitos do homem, e como tal qualificado.

O controle das chamadas tecnociências, até agora submetidas aos imperativos económicos do lucro ou do poder ( consultar sobre a matéria L.Mumford, J.Ellul), integram todo um projecto alternativo que valoriza as sinergias comunitárias de cooperação e entre-ajuda, e contesta frontalmente o capitalismo e o seu pretenso realismo em resolver a crise ambiental, cujo desencadeamento e agravamento ele próprio foi o principal responsável.

A ecologia social aponta claramente para a superação do paradigma modernista da ideia de «progresso» e de «crescimento», cujos limites são cada vez mais patentes com o rápido esgotamento dos recursos naturais, remetendo para aquilo que já é designado por alguns como sociedades do pós-crescimento.
(retirado de Pimenta Negra)