quarta-feira, 11 de julho de 2018

A propósito do PSD e do NEP


A propósito do PSD e do NEP

O termo “ambiente”, que deixou de ser uma moda, pelo menos nos discursos de políticos, foi substituído por “sustentável”, por vezes para justificar muitas barbaridades que são feitas em nome da defesa daquele, indica de uma forma genérica tudo o que está em redor.

Muitas vezes confundido com o termo natureza, que é apenas uma parte do ambiente, este pode ser definido, de acordo com a Lei de Bases do Ambiente (1987) como “o conjunto dos sistemas físicos, químicos, biológicos e suas relações e dos fatores económicos, sociais e culturais com efeito direto ou indireto, mediato ou imediato, sobre os seres vivos e a qualidade de vida do homem.”

O modo como as pessoas se comportam afeta de modo diverso a qualidade do ambiente, nalguns casos levando à sua degradação com consequências por vezes desastrosas para as próprias pessoas e para os restantes seres vivos. Mas, se há comportamentos que contribuem para a degradação do ambiente há comportamentos que são pro-ambientais, isto é, ajudam à proteção do meio.

Os comportamentos favoráveis ao ambiente, segundo alguns autores, dependem de várias variáveis, entre elas, os comprometimentos verbais e as atitudes ambientais, podendo estas ser definidas como “atributos psicológicos do indivíduo que determinam a sua tendência para agir de determinado modo em determinada situação”.

A posição das pessoas em relação ao mundo varia desde uma visão antropocêntrica (PSD- Paradigma Social Dominante) a uma visão ecocêntrica (NEP- Novo Paradigma Ecológico).

Que diferenças existem entre as duas visões?

O PSD carateriza-se por “uma crença no não esgotamento dos recursos naturais, progresso contínuo e necessidade de desenvolvimento; expressa uma confiança na resolução de problemas pela ciência e tecnologia e um forte compromisso com a economia de livre-mercado e propriedade privada”.

O NEP, por sua vez, “deriva da metáfora da Terra como uma espaçonave, onde as fontes naturais são delicadas e limitadas, e onde, portanto, a possibilidade de crescimento humano é limitada e o esforço humano para sobrepor a natureza pode levar a graves problemas para toda a humanidade”.

Para a análise das atitudes face ao ambiente de uma dada população, usa-se a escala NEP que foi proposta, em 1978, por Dunlap e Van Liere e que após uma reformulação em 2000 era constituída por 15 itens.

Não estando no âmbito deste texto a apresentação da escala referida, aproveitamos para relembrar que nos Açores foi feito um estudo sobre o assunto, tendo os dados obtidos dado origem ao livro, publicado em 2007, “As atitudes face ao ambiente em regiões periféricas, coordenado por Emiliana Silva e Rosalina Gabriel, que recomendamos a quem quiser aprofundar o tema.

Não pretendendo dar a conhecer os resultados, com o pormenor que merecem, apenas mencionamos que nas “duas zonas periféricas estudadas - Açores e Castelo Branco – parecem predominar, de um modo geral, atitudes favoráveis face ao ambiente e uma diluição da visão antropocêntrica. Ou seja, os açorianos e albicastrenses estão dispostos a preservar o ambiente e são sensíveis às questões ambientais”.

Estando as pessoas preocupadas com o ambiente e tendo uma visão pró-ambientalista como se compreende os atentados diários ao mesmo que são cometidos diariamente nos Açores?

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31 568, 11 de julho de 2018, p. 17)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Novo Livro

terça-feira, 3 de julho de 2018

Homenagem a Afonso Cautela, pioneiro do Movimento Ecologista em Portugal


Homenagem a Afonso Cautela, pioneiro do Movimento Ecologista em Portugal

“As bestas do Apocalipse juraram que haviam de por nas mãos da humanidade os instrumentos da sua própria destruição. E nada melhor do que as armadilhas do consumo para que a própria humanidade acione o botão que a há-de destruir” (Afonso Cautela)

Faleceu na madrugada do passado dia 29 de junho, Afonso Cautela, o fundador, em maio de 1974, da primeira organização ecologista portuguesa, o MEP- Movimento Ecológico Português. Nascido em Ferreira do Alentejo, em 1933, Afonso Cautela foi professor do primeiro ciclo, poeta e jornalista, sendo autor de várias publicações de temática ambiental.

Não tendo conhecido pessoalmente Afonso Cautela, com ele troquei alguma correspondência, nos primeiros anos da década de oitenta do século passado. Na ocasião tive a oportunidade de adquirir algumas das suas publicações, de que destaco, a título de exemplo, as seguintes: “Contributo à Revolução Ecológica”, “Manifesto Ecológico Contra a Inflação e o Custo de Vida: Ecomania ou Ecologia?”, “Luta Ecológica e Luta de Classes”, “Essa Ecologia de que Somos Cobaia”, “Viva a Doença Abaixo a Medicina” e “Ecologia e Informação: Como os jornalistas nos lavam o cérebro”.

Foi, essencialmente, inspirado na leitura das suas publicações, de tiragens muito reduzidas, que, em julho de 1982, fundei, com alguns amigos, na ilha Terceira, a Associação “Luta Ecológica” que tinha, entre outros, os seguintes objetivos, defender o ambiente, contra o Nuclear e a sociedade a caminho da autodestruição; defender o equilíbrio ecológico, as espécies animais e vegetais, dia a dia ameaçadas pela nossa civilização e divulgar alternativas energéticas.

Afonso Cautela que achava que os males deviam ser extirpados pela raiz, não era homem de meias-tintas, não poupando nas palavras para dizer o que pensava, doesse a quem doesse.

Homem de ideias próprias, dizia ele que era a sua indústria, o seu mau negócio, “num País de Burrocratas”, Afonso Cautela inspirou-se em outros pensadores como “Ivan Illich, Michel Bosquet, Emanuel Mounier, Paulo Freire, Hélder Câmara e outros … profetas da Sociedade Pós- Industrial.”

Sobre o vazio de ideias em que se vivia na década de setenta do século passado – hoje, não sei se estamos melhor- escreveu o seguinte: “O ano de 1978 confirma que a indústria das ideias continua em decadência …Os partidos contentam-se com slogans. Os intelectuais traduzem os mestres de Vincennes e chega. Os poderosos bebem uísque. Os nuclearistas exigem uma conversão prévia dos ecologistas à tecnocracia para iniciar então o debate que eles comandarão. O povo, claro, prefere bacalhau com batatas à ideia” e acrescentou: “Mas será possível viver sem ideias?” perguntava Antero de Quental dirigindo-se aos compatriotas. Mas quem se lembra hoje de Antero, que até nem escreveu nenhum amor da perdição, já que as suas ideias eram o seu ofício e elas o perderam (mataram)”.

Afonso Cautela foi uma das pessoas que mais combateu a tentativa de introdução de centrais nucleares em Portugal.

Sobre o nuclear, Afonso Cautela não distinguia os “átomos pacíficos”, das bombas, nem, ao contrário de alguns outros, fazia a distinção entre o nuclear bom, o dos países ditos socialistas, nem o mau, o dos países capitalistas.

Sobre os resíduos nucleares escreveu que eram “um dos muitos poluentes para os quais não há antipoluentes nem lixeira nem retretes” e perguntou “se afinal o crime é nosso, se dos que deitam os resíduos ou dos que, embora não os deitando, logo a seguir os esquecem, ou dizem não ter importância, ou (demagogicamente) afirmam que para todo o poluente há um antipoluente”.

Como jornalista, esteve ligado aos jornais “A Escola Nova”, “O Pintassilgo”, “República” (1965-1968), “O Século” (1972-1977) e “A Capital” (1982-1996).

Poeta de valor, viu editado em março de 2017 o primeiro volume de “Lama e Alvorada”, com quase 600 páginas, organizado por outro pioneiro do movimento ecologista, José Carlos Costa Marques, estando para breve a edição do segundo volume que reunirá alguns inéditos e obras editadas anteriormente.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31561 de 3 de julho de 2018, p.10)

sábado, 23 de junho de 2018

Angra do Heroísmo: dinheiro público para financiar os caprichos da indústria tauromáquica

Angra do Heroísmo: dinheiro público para financiar os caprichos da indústria tauromáquica

O Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA) condena o contínuo uso de dinheiro público por parte da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo e de outras instituições públicas para financiar projectos de carácter muito questionável destinados unicamente a louvar e glorificar a indústria tauromáquica local.

O último projecto a servir de sorvedouro de dinheiro público será inaugurado no próximo dia 24 de junho: um “Monumento ao forcado”, da autoria do terceirense José João Dutra, com um custo total de 65 mil euros. Deste valor, a pedido do grupo de forcados da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, a Câmara Municipal vai contribuir com metade, 32,5 mil euros, para além da cedência de mão de obra de trabalhadores camarários para a instalação do monumento. Segundo o autarca de Angra do Heroísmo, Álamo Meneses, o desvio de dinheiro público para financiar esta nova frivolidade da indústria tauromáquica é um acto exemplar de parceria entre sociedade civil e poderes públicos que vai proporcionar "mais um marco de interesse na nossa cidade”.


Acontece que, apenas sete anos atrás, na cidade de Angra do Heroísmo inaugurou-se já um outro “Monumento ao toiro bravo”, da autoria do terceirense Renato Costa e Silva, considerado como o maior monumento do mundo dedicado ao touro, com onze metros de altura. Com um custo de 150 mil euros, o monumento foi financiado integramente pelo Governo Regional, ficando desde então a Câmara Municipal com todos os custos decorrentes da sua manutenção.

A este grande e frutífero negócio dos monumentos tauromáquicos que parece existir na cidade de Angra do Heroísmo é preciso acrescentar, por exemplo, que a Câmara Municipal entregou, há três anos, 200 mil euros à Sociedade Tauromáquica Progresso Terceirense com a doação do terreno onde está instalada a actual praça de touros. E também que, nos últimos anos, a autarquia tem financiado com 100 mil euros anuais a Feira Taurina de São João.

Sobre este assunto, uma recente petição na plataforma Change.org que pedia para acabar com o financiamento público das touradas em Angra do Heroísmo, reunindo um total de 2.589 assinaturas, denunciava que, em cinco anos, a autarquia tinha gasto nada menos que um milhão e trezentos mil euros na indústria tauromáquica.

Até quando o dinheiro público vai continuar a financiar a mãos cheias o negócio da tortura animal e, ainda, os grandes monumentos e demais caprichos da indústria tauromáquica terceirense?


Comunicado do
Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA)
20/06/2018

terça-feira, 1 de maio de 2018

Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (7)


Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (7)

Dando continuidade aos textos anteriores sobre o tema, hoje, terminamos esta série de textos, dando a conhecer alguns marcos importantes, tanto internacionais como nacionais, relacionados com a defesa do ambiente e a educação ambiental que ocorreram entre 1993 e o ano 2000.

Nos dias 5 e 6 de junho de 1993, realizou-se, na Horta, o I Encontro das ADAS da Região Autónoma dos Açores. No encontro, que contou na Sessão de Abertura com a Presença do Ministro da República, estavam inscritas as seguintes associações: Amigos dos Açores, Associação Arqueológica do Arquipélago dos Açores (Paisagem, Lei e Liberdade), SOS-Lagoas (SOS-Lagoas), Circulo de Amigos das Furnas (Eutrofização das Lagoas e Consequências no Vale), Azurina (Ponto de situação Azurina), Os Montanheiros (Preservação Ambiental das Cavidades Vulcânicas), Jovens Naturalistas de Santa Maria (A nossa experiência entre os jovens), Associação Cultural, Desportiva e Recreativa da Graciosa (Graciosa, Ambiente e Desenvolvimento), Alternativa Artissonho (Primeiro a Natureza e depois o Homem), Círculo de Amigos da Ilha do Pico (Protecção das Grutas da Ilha do Pico), Associação da Juventude em Defesa do Património Histórico, Cultural e Natural de São Jorge (Zonas Protegidas de São Jorge) e Azórica (Vulcão dos Capelinhos- Património dos Açores). Hoje, uma parte destas organizações desapareceu, outra parte remeteu-se ao quase silêncio.

Em setembro de 1994, realizou-se A Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), mais conhecida como Conferência do Cairo. Na Conferência foi abordado o relacionamento entre a população, o ambiente e o desenvolvimento sustentável. Nos Açores, mais propriamente na ilha Terceira, foi fundada a associação “Gê- Questa”.

Em 1995, realizou-se em Pequim a IV Conferência Mundial sobre a Mulher. De entre as áreas de preocupação abordadas, destacamos as seguinte: Mulheres e pobreza, Educação e capacitação de mulheres, Mulheres e conflitos armados, Direitos Humanos das Mulheres, e Mulheres e Ambiente.

Em 1996, Theo Colborn, John Myers e Dianne Dumanoski publicam o livro “O Nosso Futuro Roubado”, onde alertam para os perigos que a libertação de químicos sintéticos para o ambiente representa em termos de saúde reprodutiva

Em 1997, foi assinado o Protocolo de Quioto. As nações industrializadas concordaram reduzir as emissões de gases de estufa como um primeiro passo para combater o aquecimento global. De acordo com a página web da Agência Portuguesa do Ambiente “uma das características do KP é o da introdução de diferenciação entre metas de redução entre diferentes países. Esse conceito, introduzido na negociação pelos Estados Unidos, permitia diferentes tipos de argumentos que pudessem justificar circunstâncias especiais na consideração de metas para cada Parte. No final, o conjunto de reduções e limitações acordadas (nem todos as Partes se comprometeram a reduzir, algumas Partes, como a Austrália, têm um compromisso de limitar o crescimento) resultam na redução estimada global das emissões destes países em cerca de 5%”. Infelizmente, a não-ratificação pelos Estados Unidos limitou severamente a eficácia ambiental do Protocolo.

De 8 a 12 de dezembro de 1997, ocorreu na Grécia, a Conferência Internacional em Ambiente e Sociedade: Educação e Conscientização Pública para a Sustentabilidade. Na conferência foi aprovada a Declaração de Thessaloniki que reafirmou, entre outros pontos, o seguinte: “A reorientação da educação como um todo em direção à sustentabilidade envolve todos os níveis de educação, formal, não-formal e informal, em todos os países. O conceito de sustentabilidade compreende não somente o ambiente, mas também a pobreza, a população, a saúde, a segurança alimentar, a democracia, os direitos humanos e a paz. A sustentabilidade é, numa análise final, um imperativo moral e ético no qual a diversidade cultural e o conhecimento tradicional precisam ser respeitados”.;

Em 1997, nos Açores, inicia a sua publicação a revista “Ecológico”, editada pela Direcção Regional do Ambiente.

No ano 2000, foi aprovado o Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança com o objetivo de “contribuir para assegurar um nível adequado de proteção no campo da transferência, da manipulação e do uso seguros dos organismos vivos modificados resultantes da biotecnologia moderna que possam ter efeitos adversos na conservação e no uso sustentável da diversidade biológica, levando em conta os riscos para a saúde humana, e enfocando especificamente os movimentos transfronteiriços.”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 31511, 1 de maio de 2018, p.16)

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Veríssimo Borges e o desenvolvimento sustentável


Veríssimo Borges e o desenvolvimento sustentável

Veríssimo de Freitas da Silva Borges nasceu em Ponta Delgada a 17 de janeiro de 1948 e faleceu na mesma cidade no dia 8 de outubro de 2008.

Como cidadão preocupado com a causa pública teve, ao longo da sua vida, uma participação cívica e política exemplares.

No que diz respeito à participação política, antes do 25 de abril de 1974, Veríssimo Borges combateu a ditadura, foi preso algumas vezes pela PIDE, tendo-se tornado político, segundo ele, a partir de 1969 à custa das prisões.

Em 1969, Veríssimo Borges foi um dos estudantes universitários que participou em atos da pré-campanha eleitoral da lista de oposição democrática que era composta pelo Dr. António Borges Coutinho, pelo Dr. Manuel Barbosa e pelo Dr. João Silvestre. No mesmo ano, Veríssimo Borges foi, também, um dos subscritores da Declaração de Ponta Delgada, documento que teve como redator principal Ernesto Melo Antunes e que “constituiu a plataforma eleitoral com vista às eleições de 1969”.

Depois do 25 de abril, com um posicionamento na extrema-esquerda, embora “perfeitamente apartidário”, Veríssimo Borges revia-se no Bloco de Esquerda, tendo em 2008, sido o segundo candidato a deputado nas listas daquele partido por São Miguel.

A sua participação cívica no movimento ambientalista fez-se com a sua adesão aos Amigos dos Açores, em junho de 1993, a sua militância na segunda fase do SOS- Lagoas, sobretudo em 1994 e 1999 e através do Núcleo de São Miguel da Quercus, desde a sua criação em 1994 até ao seu falecimento em 2008.

Das várias lutas por ele travadas, algumas ainda não tiveram, ou nunca terão, infelizmente, uma solução aceitável, destacamos o combate à eutrofização das lagoas e a falta de tratamento adequado dos resíduos sólidos, neste caso opondo-se, sempre, à incineração.

Veríssimo Borges, nos vários textos publicados, recorria amiudadas vezes ao conceito de desenvolvimento sustentável.

O conceito de desenvolvimento sustentável, aquele que se refere a um desenvolvimento que é “capaz de satisfazer as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das gerações futuras”, serve para justificar tudo, mesmo os maiores atentados e crimes ambientais.
Se é certo que o conceito em si não é o responsável pelos atos cometidos pelos mais diversos tiranos e tiranetes, não é menos certo que para alguns, entre os quais nos incluimos, trata-se de um conceito que, servindo para tudo, para nada serve, por ser muito vago e tudo permitir.
O melhor texto de Veríssimo Borges sobre o assunto intitula-se “Crescimento Sustentado versus Desenvolvimento Sustentável nos Açores” publicado no livro “Perspetivas para a sustentabilidade na Região Autónoma dos Açores” que merecia ser amplamente divulgado, pois como muito bem escreveu os dois conceitos são “muitas vezes confundidos (inclusivamente pela classe política), por ignorância ou propositadamente para vender “gato por lebre”, dizemos nós.
Antes de terminarmos este texto dedicado a um amigo que nunca desistiu de lutar por aquilo em que acreditava, apresentamos dois exemplos por ele dados que permitem esclarecer alguns equívocos:

- “A agricultura, tal como as pescas, podem ser sustentadas na sua intensificação e, neste caso, tendem a ser insustentáveis porque, a prazo, deixam solos erodidos, poluídos e inférteis ou mares cujos stocks piscícolas foram destruídos”;
-
- “Quando um povo, ou uma geração, assenta a sua riqueza na sobre-exploração do seu território, ou na dependência da exploração de terceiros, cria uma dinâmica sustentada, mas não sustentável, ou seja, não duradoira nem reutilizável, cavando assim, com este crescimento sustentado, uma dinâmica de empobrecimento, se não no presente, pelo menos no futuro”.

Por último, recordo que a melhor homenagem que se pode fazer a Veríssimo Borges não é que já foi feita pelo poder político que através da Assembleia Legislativa Regional lhe concedeu, em 2011, a insígnia autonómica de mérito (categoria de mérito cívico). Pelo contrário, é sim, de forma desinteressada e com generosidade, continuar o seu combate por uma Terra mais solidária, limpa e pacífica para todos os seus habitantes.

Teófilo Braga
Pico da Pedra, 3 de abril de 2018
(Açoriano Oriental, nº 20055, 18 de abril de 2018, p.26)

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (6)


Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (6)

Dando continuidade aos textos anteriores sobre o tema, hoje, damos a conhecer alguns marcos importantes, tanto internacionais como nacionais, relacionados com a defesa do ambiente e a educação ambiental que ocorreram entre 1984 e o ano de 1992.

Em 1984, 20.000 pessoas e milhares de animais morreram quando a fábrica de pesticidas da Union Carbide, em Bhopal, na Índia, libertou 42 toneladas do gás isocianato metílico. A empresa conseguiu limitar a sua responsabilidade pela tragédia, evitando assim o pagamento de enormes indemnizações.

Em 1985, na Áustria, foi formalizada a Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozono. Segundo o texto da Convenção os vários países comprometeram-se a tomar medidas de modo a proteger o ozono estratosférico.

A nível nacional, em 1985, é criada a Secretaria de Estado do Ambiente e Recursos Naturais e nos Açores surge oficialmnete a associação “Amigos dos Açores- Associação Ecológica” que já desenvolvia atividades desde o ano anterior.

Em 1986, um dos quatro reatores da central nuclear de Chernobil, na então União Soviética, explode libertando uma nuvem de radioactividade que chega a atingir a Europa Ocidental. De acordo com algumas fontes, mais de 10 000 pessoas morrem como consequência do acidente, tendo muitas outras sido afectadas. Os efeitos ainda hoje se fazem sentir: as taxas de leucemias e de defeitos congénitos na população envolvente são anormalmente elevadas.

Em 1986, em Portugal, foi aprovada a Lei de Bases do Sistema Educativo, onde se dá lugar de destaque à Educação Ambiental e foram criadas duas associações de defesa do ambiente, ainda hoje em atividade: a Associação Nacional de Conservação da Natureza (QUERCUS) e o Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA).

Em abril de 1987, a Comissão Mundial para o Ambiente e Desenvolvimento, presidida pela primeira ministra da Noruega, Gro Bruntdtland apresentou um relatório (“O Nosso Futuro Comum”), onde defende a implementação do desenvolvimento sustentável, isto é, o que permite “satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem as suas próprias”.

Em Portugal, foi aprovada a Lei das Associações de Defesa do Ambiente (Lei nº 10/87) e a Lei de Bases do Ambiente, Lei nº 11/87, de 7 de abril, onde são definidas as bases da política do ambiente, seus princípios e diretivas programáticas. Foi criado, também, o Instituto Nacional do Ambiente com competências educativas (INAMB).

No dia 22 de dezembro de 1988, o líder trabalhista e ambientalista brasileiro Chico Mendes (1944-1988) foi assassinado a tiro, quando saía de sua casa, por lutar pela conservação da Floresta Amazónica e suas seringueiras nativas.

Em 1989, o petroleiro Exxon Valdez liberta 76 000 toneladas de crude, depois de embater num recife, no Alasca. A maré negra resultante afetou 5100 km de costa intacta e causou a morte a mais de 250000 aves.

A 22 de Abril de 1990 é comemorado, pela primeira vez nos Açores, o Dia da Terra, num encontro que a Associação Amigos dos Açores manteve com o presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Dr. Mário Machado, no Jardim António Borges, onde lhe entregou um memorando sobre os problemas ambientais da cidade de Ponta Delgada. No mesmo ano, o Núcleo Regional dos Açores da Quercus (Faial) e os Amigos dos Açores coordenaram uma petição “Pela Sobrevivência da Vegetação Autóctone dos Açores” que recolheu 6570 assinaturas.

Em 1992, realizou-se a Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro, Brasil, juntando 117 chefes de estado e representantes da maior parte dos países. Na cimeirs foram adoptados documentos estruturantes para o chamado “desenvolvimento sustentável”, como a Convenção sobre Diversidade Biológica, a Convenção sobre as alterações climáticas e a Agenda 21.
(continua)
Teófilo Braga
Correio dos Açores, 31500, 11 de abril de 2018, p.12

sábado, 31 de março de 2018

Escavando na tauromaquia em São Miguel



Escavando na tauromaquia em São Miguel

A prática de torturar bovinos e cavalos é muito comum na ilha Terceira e tem-se mantido ao longo dos tempos não por ser uma tradição digna, mas porque é lucrativa para alguns. A sua sobrevivência só tem sido possível pelo apoio que recebe de políticos e governantes.

O farmacêutico natural da Lousã, que se estabeleceu em São Miguel, Francisco Maria Supico (1830-1911), na rubrica que manteve no jornal “A Persuasão” intitulada “Escavações” refere-se à realização de touradas na ilha de São Miguel, numa das muitas tentativas da indústria tauromáquica terceirense de espalhar o vício anacrónico de torturar animais ou assistir à tortura dos mesmos.

Numa notícia publicada no referido jornal, a 3 de julho de 1872, pode-se ler o seguinte: “Houve já duas corridas de touros, sendo a última, domingo. Quem nunca viu touradas não desgosta; quem as tem visto acha o divertimento abaixo de medíocre”.

A 17 de julho do mesmo ano, o jornalista depois de noticiar a realização de mais uma tourada, acrescenta que o dito divertimento “não promete sustentar-se, porque lhe faltam as condições essenciais: touros e toureiros”.

A 18 de setembro, no jornal referido, o redator pede “à autoridade competente para que não permita mais funções de touros, se não a pessoas competentes; porque, permitindo-se, acontece o que aconteceu no domingo último, que ia sendo fatal o divertimento”.

No 2º Volume das “Escavações”, Francisco Maria Supico faz uma síntese do abominável divertimento de ver sofrer animais nos seguintes termos:

“As touradas de 1872 deram-se num terreno da rua Formosa confinando com a rua da Alegria.

Para as de 1881 e 1882, armou-se praça em forma na rua da Mãe de Deus, quase em frente dado Negrão.

Gado e toureiros vieram da Terceira por conta de um empresário de lá, que não fez fortuna com a imperfeita exibição da arte tauromáquica.

Em S. Miguel dá-se o fenómeno de se não manter a braveza do gado indígena; e o que vem de fora amansa breve.

Não é por isso terra em que se possam ter grande apreço as bravias belezas do toureio.”

Hoje, a submissão dos principais partidos políticos ao capitalismo tauromáquico faz com que uma prática condenada em todo o mundo civilizado continue a fazer as suas vítimas, humanas ou não, nos Açores.

31 de março de 2018
Teófilo Braga

quarta-feira, 28 de março de 2018

Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (5)



Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (5)

Dando continuidade aos textos anteriores sobre o tema, hoje, damos a conhecer alguns marcos importantes, tanto internacionais como nacionais, relacionados com a defesa do ambiente e a educação ambiental que ocorreram entre 1974 e 1982.

Em 1975, por iniciativa da ONU e da UNESCO realiza-se, em Belgrado, um seminário internacional sobre educação ambiental no qual foi aprovada a Carta de Belgrado, um documento muito importante que ainda hoje devia ser alvo de reflexão. No seu texto, entre outros, encontra-se o seguinte alerta.

"Governos e formuladores de políticas podem ordenar mudanças e novas abordagens para o desenvolvimento, podem começar a melhorar as condições de convívio do mundo, mas tudo isso não passa de soluções de curto prazo, a menos que a juventude mundial receba um novo tipo de educação. Esta implicará um novo e produtivo relacionamento entre estudantes e professores, entre escolas e comunidades, e entre o sistema educacional e a sociedade em geral."

Em Portugal, em 1975, foi criada a Secretaria de Estado do Ambiente.

No dia 10 de julho de 1976, na cidade de Seveso, ocorreu uma explosão numa fábrica de produtos químicos, tendo havido a libertação dioxinas. Embora se pense que não terá havido mortes de humanos diretamente relacionadas com o ocorrido, 193 pessoas sofreram de váias doenças. Na altura morreram 3000 animais e outros 70 000 tiveram de ser abatidos para evitar a entrada da dioxina na cadeia alimentar.

Em Portugal a Constituição da República Portuguesa que entrou em vigor a 25 de abril de 1976 passou a reconhecer a todos os cidadãos o direito a um ambiente ecologicamente equilibrado e o dever de o defender (art. 66º).

Em 1977, realizou-se na cidade de Tbilisi (Georgia), antiga URSS a "Primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental", na qual foram elaborados os princípios, as estratégias e as ações orientadoras em educação ambiental que ainda são adotados em todo o mundo.

Em 1979, foi assinada, em Berna, a Convenção sobre a Vida Selvagen e os Habitats Nauturais na Europa com os objetivos de conserver a flora e a fauna selvagens e os seus habitats naturais, em particular as espécies e habitats cuja conservação exija a cooperação de diversos estados, e promover essa cooperação.

A 28 de março de 1979, o núcleo do reactor de uma central nuclear em Three Miles Island, Estados Unidos, funde parcialmente devido a uma falha no sistema de refrigeração. É libertada radiação para o exterior e fortemente abalada a confiança dos cidadãos na energia nuclear. Dois milhões de pessoas foram atingidas pelas radiações e foram necessários 400 milhões de dólares para voltar a por em funcionamento o reator, o que ocorreu três anos depois.

No mesmo ano, 1979, realizou-se, em Genebra a I Cimeira Mundial do Clima, onde pela primeira vez foi reconhecido que as alterações climáticas são um problema grave para o planeta.

Em 1982, realiza-se a Conferência de Nairobi, para analisar o trabalho feito após dez anos da Conferência de Estocolmo. Preocupados com o estado do ambiente, os participantes acordaram na formação da Comissão Mundial do Ambiente e do Desenvolvimento (CMAD), chefiada por Gro Harland Brutland.

A 10 de dezembro de 1982, na Jamaica realizou-se a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar que estabeleceu os princípios gerais da exploração dos recursos naturais do mar e criou o Tribunal Internacional do Direito do Mar.

Em 1982, nos Açores, foi criado o Círculo de Amigos das Furnas, com o objetivo de defender os interesses, também ambientais, do Vale Formoso.

(continua)
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31489, 28 de março de 2018, p.14)

domingo, 18 de março de 2018

Touros bons são os que matam mais



As torturas e a indiferença para com o sofrimento e animal são tradições enraizadas nalgumas mentes. Vejam o que escreveu A. de Castro Menezes: "Das touradas na Ilha Terceira são mais apeciadas aquelas em que a fama de braveza chegou a contra-se pelas colhidas e até pelas mortes que ocasionou". (Revista "Açores-Madeira", 10 de junho de 1950

quarta-feira, 7 de março de 2018

Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (4)


Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (4)

Hoje, publicamos o quarto texto dedicado a marcos importantes, tanto internacionais como nacionais, relacionados com a defesa do ambiente e a educação ambiental que ocorreram entre 1972 e 1974.

Com a presença de 114 países realizou-se, em 1972, em Estocolmo, a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano. Nesta conferência foi criado o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), sediado em Nairobi, Quénia, e aprovada a Declaração do Ambiente que relativamente à educação refere o seguinte:

É essencial ministrar o ensino, em matérias de ambiente, à juventude assim como aos adultos, tendo em devida consideração os menos favorecidos, com o fim de criar as bases que permitam esclarecer a opinião pública e dar aos indivíduos, às empresas e às colectividades o sentido das suas responsabilidades no que respeita à protecção e melhoria do ambiente, em toda a sua dimensão humana.

John McCormick, num texto publicado no Rio de Janeiro intitulado “Rumo ao paraíso: a história do movimento ambientalista”, considerou que aquele evento foi “o acontecimento isolado que mais influiu na evolução do movimento ambientalista internacional” e acrescentou que “o pensamento progrediu das metas limitadas de proteção da natureza e conservação dos recursos naturais para a visão mais abrangente da má utilização da biosferapor parte dos humanos”.

No mesmo ano, a nível internacional, foi publicado o primeiro relatório do Clube de Roma que segundo Charles-Henri Favrod, “em vésperas da crise do petróleo que rebentará no ano seguinte, convida a opinião pública mundial, geralmente embalada por promessas expansionistas, a ganhar consciência dos «limites do crescimento». A sua repercussão imediata (45 000 leitores em França. 300 000 na Alemanha Federal, quase outros tantos nos Países Baixos) prova uma inquietação latente do público perante os «milagres económicos» e coloca em primeiro plano de atualidade um organismo até ali pouco conhecido”. Embora se possa considerar que o relatório foi alarmista, uma coisa é certa os “milagres económicos” têm acontecido à custa da delapidação de recursos não renováveis e a riqueza criada não tem chegado a todos os seres humanos, sobretudo aos seus principais criadores

A nível nacional foi criada a Subsecretaria de Estado do Ambiente, e apresentado na televisão o programa “Há só uma Terra”, da responsabilidade da Comissão Nacional do Ambiente.

Em 1973, o economista inglês Ernest Friedrich Schumacher (1911-1977) publica o livro “Small is Beautiful: um estudo de economia em que as pessoas também contam”, onde desenvolve o conceito de Tecnologia Intermédia e critica as economias ocidentais. No mesmo ano o engenheiro agrónomo francês René Dumont (1904-2001) publica o livro “Utopia ou Morte” que foi um marco importante no desenvolvimento do movimento da ecologia política que se opõe à “ideologia do crescimento ilimitado e à acumulação infindável de bens em que assenta a sociedade de consumo atual”.

A nível nacional, no ano de 1973, foi comemorado oficialmente, a 5 de junho, o Dia Mundial do Ambiente.

Em 1974, o químico dos EUA Sherwood Rowland (1927-2012) e o químico mexicano Mário Molina, nascido em 1943, descobrem que os clorofluorcarbonetos (CFCs) podem destruir a camada de ozono. No mesmo ano ocorre a primeira crise petrolífera. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) impõe um embargo do precioso líquido aos Estados Unidos pelo seu apoio a Israel na Guerra contra o Egipto e a Síria, catapultando os preços e originando uma crise energética e económica mundial.

Em Portugal com a implantação de um regime democrático a 25 de abril, foram criadas duas associações ligadas ao ambiente, o Movimento Ecológico Português, com sede em Lisboa, que foi dinamizado, entre outros, por Afonso Cautela e o Núcleo Português de Estudos e Proteção da Vida Selvagem, com sede no Porto.

Esta última organização tinha, de acordo com os seus estatutos, como objetivo prioritário a proteção da natureza, em especial da fauna e da flora, teve a sua sede localizada na rua Padre Manuel José Pires, localizada na freguesia de São Pedro, no concelho de Vila Franca do Campo. Foram seus principais dinamizadores, o francês Gerald le Grand e o vila-franquense Duarte Soares Furtado,

(continua)
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31471, 7 de março de 2018, p. 17)

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Alguns apontamentos sobre Vygotski



Alguns apontamentos sobre Vygotski

Por pensar que é muito reduzido o número de leitores do Correio dos Açores que já ouviu falar em Vygotski decidi dar a conhecer um pouco da sua vida e a sua influência no mundo atual, nomeadamente na área do ensino.

Lev Semenovitch Vygotski nasceu em Orsha, na Bielorrússia, a 17 de novembro de 1896, e faleceu muito novo, com 37 anos, vítima de tuberculose, em Moscovo, a 11 de junho de 1934.

Na sua breve passagem por este mundo, Vygotski dedicou-se a várias áreas do saber, tendo estudado direito e filologia, ensinado literatura, fundado a revista literária “Verask” e lecionado Psicologia e Pedagogia.

Tal como aconteceu com outros cientistas, com a ascensão de Estaline ao poder na então União Sovietica, o trabalho de Vygotski não foi respeitado, tendo-se chegado ao cúmulo, segundo Geraldo Magela Machado, do Partido Comunista ter, dois anos após a sua morte, proibido “todos os testes psicológicos na União Soviética e todas as revistas de Psicologia deixaram de ser publicadas durante 20 anos”.

No livro “Estaline e os Cientistas”, que foi publicado em Portugal em abril de 2017, o seu autor Simon Ings apresenta vários casos de cientistas cuja carreira foi perturbada ou que foram assassinados por não se submeterem à “ciência oficial”.

Dos vários cientistas referidos, alguns dos quais e apesar das condições existentes contribuíram para o avanço de várias áreas da ciência, consta o nome de Vigotski que esteve ligado a vários projetos, entre os quais o de um infantário que foi fundado pela psicóloga Vera Shmidt (1889-1937).

O Infantário Branco adotou o pensamento de Jean Piaget e apresentava semelhanças com a Escola de Summerhill, criada, na Inglaterra, em 1921, por A.S. Neill e que defendia que a criança devia “ter liberdade para escolher e decidir o que aprender e, com base nisso, desenvolver-se no próprio ritmo”.

Mas, os mentores do infantário não se ficaram pelas ideias de Piaget que começavam a ser difundidas em todo o mundo. Com efeito, acreditavam que as crianças dependiam da companhia das outras para desenvolver a sua linguagem e as suas aptidões, cabendo “aos psicólogos e aos professores socialistas descobrir qual o ambiente que produzia as personalidades mais saudáveis e mais felizes”.

Infelizmente, este infantário que segundo o autor que vimos citando “foi o mais célebre de toda uma série de experiências sociais bolcheviques, concebidas para derrubar séculos de encarceramento, de arregimentação e de punição, e substituí-los por formas racionais, científicas e humanas de engenharia social” fechou as portas, alegadamente por falta de fundos, dois anos após a sua abertura.

Apesar de Vygotski já ter morrido há mais de 80 anos, a sua obra continua a ser uma referência em todo o mundo e tem influenciado os movimentos pedagógicos contemporâneos, como o português Movimento da Escola Moderna.

No que diz respeito à influência de Vygotski no Movimento da Escola Moderna, Sérgio Niza, que é a principal referência daquele movimento pedagógico português, em entrevista à revista Noésis, de janeiro-março de 1997, disse o seguinte: “…ensinou-nos, por exemplo, que os alunos aprendem sobretudo no convívio cultural com os adultos e com os pares. O que quer dizer que não se aprende principalmente com as lições formais. O próprio Vygotski, numa espécie de parábola, acaba por concluir que o papel mais importante do professor é o da organização social das aprendizagens. Não é o da função ensinante.”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31465, 28 de fevereiro de 2018, p. 17)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (3)


Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (3)

Hoje, damos seguimento ao texto publicado no passado dia 31 de janeiro, com a apresentação de alguns marcos importantes relacionadas com a defesa do ambiente e a educação ambiental que ocorreram entre 1951 e 1971.

Em 1951, o brasileiro Josué de Castro (1908-1973) publica o livro “Geopolítica da Fome”. Neste livro o autor reafirma, tal como já havia escrito, para o Brasil, em “Geografia da Fome”, que a fome mundial não resulta da escassez de alimentos mas da sua má distribuição.

Também em 1951, depois dos crimes das bombas atómicas lançadas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, os EUA iniciaram o seu programa de testes nuclares. Apesar dos esforços para acabar com as armas nuclares, entre 1945 e 1962, ocoreram 423 detonações nucleares, da responsabilidade dos EUA (271), da URSS (124), da Inglaterra (23) e da França (5).

Em 1952, o filósofo, teólogo e médico Albert Schweitzer (1875-1965), que popularizou a Ética Ambiental, recebe o Prémio Nobel da Paz. Numa conferência proferida, em Paris, naquele ano afirmou: “Uma ética que nos obrigue somente a preocupar-nos com os homens e a sociedade não pode ter esta significação. Somente aquela que é universal e nos obriga a cuidar de todos os seres nos põe de verdade em contato com o Universo e a vontade nele manifestada."

Em 1955, o físico Albert Einstein (1879-1955) e o matemático e filósofo Bertrand Russel (1872-1970) lançaram um manifesto, apelando ao fim das armas nucleares.

Em 1961, foi fundado o WWF- “World Wildlife Fund, hoje “World Wide Fund For Nature” (ou Fundo Mundial para a Natureza). Com sede na Suíça, o WWF desenvolve atividades em mais de 100 países com o objetivo de travar a degradação ambiental e construir um futuro em que o homem viva em harmonia com a natureza.

Em 1962, a bióloga marinha Rachael Carson publica o livro “A Primavera Silenciosa” (“Silent Spring”), onde alerta para o perigo que os pesticidas e os métodos agrícolas industriais apresentam para a saúde e para o ambiente. Embora o livro não tenha sido bem aceite por toda a sociedade, como por alguns altos funcionários e algumas indústrias químicas que participaram numa vil campanha de difamação da autora, segundo Edward O. Wilson, conhecido biólogo americano, “aplicou um choque galvânico na consciência pública e, como resultado, infundiu ao movimento ambientalista uma nova substância e significado”.

Em 1963 é fundada, na ilha Terceira, a Sociedade de Exploração Espeleológica “Os Montanheiros” que embora pelo tipo de atividades que sempre desenvolveu seja mais uma associação de carácter recreativo e desportivo, ao longo dos tempos tem implementado ações relacionadas com o estudo e a conservação das cavidades vulcânicas dos Açores, com maior incidência na ilha Terceira.

Em 1968 foi criado o Clube de Roma por iniciativa do industrial italiano Aurélio Peccei. O Clube, constituído por pessoas que ocupam posições de relevo em grandes empresas privadas ou organismos internacionais ao longo da sua existência elaborou vários relatórios sobre a situação do planeta Terra. No mesmo ano na 23ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas foi convocada de uma conferência mundial sobre problemas do Ambiente que se realizou em 1972.

Em 1969, surge, em São Francisco, nos Estados Unidos da América, a organização “Friends of the Earth”, ainda hoje uma das maiores associações ambientalistas a nível mundial. Nos primeiros anos após a sua constituição os Amigos dos Açores fizeram parte daquela rede mundial.

Em 1970 surge no Canadá, a mais conhecida organização ambientalista a nível internacional, o “Greenpeace” e nos EUA a 22 de abril é celebrado pela primeira vez o Dia da Terra. A nível nacional foi promulgada a lei básica que serviu para a para a criação de Parques Nacionais e outros tipos de reservas (Lei 9/70) e na ilha de Santa Maria foi publicado o primeiro boletim do Centro de Jovens Naturalistas de Santa Maria, organização criada pelo senhor Dalberto Pombo.

Em 1971 foi criado pela UNESCO o Programa sobre o Ser Humano e a Biosfera e a nível nacional foi criada a Comissão Nacional do Ambiente.

(continua)

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31459, 21 de fevereiro de 2018, p. 17)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ratos, uma praga sem fim alimentada pelo desleixo


Ratos, uma praga sem fim alimentada pelo desleixo


Em 1991, o engenheiro Luís Monteiro, no texto de uma comunicação intitulada “As ilhas, a fauna e o turismo”, apresentada no 2º Encontro de Ambiente, Turismo e Cultura, escreveu que a fauna mamológica dos Açores era muito pobre, sendo constituída essencialmente por “elementos introduzidos acidental ou intencionalmente pelo homem”. Relativamente às espécies introduzidas, são referidas as seguintes: “o ourico-cacheiro (Erinaceus europaeus), o ratinho (Mus musculus), a ratazana castanha (Rattus norvegicus) e a ratazana (Rattus rattus), o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), introduzido possivelmente ao mesmo tempo que os primeiros colonos, a doninha (Mustela nívalis) e o furão (Mustela furo)”.

A presença de ratos na ilha de São Miguel é muito antiga, tendo o cronista Gaspar Frutuoso a eles feito referência, nas Saudades da Terra, nos seguintes termos: “…Estes cágados se criariam bem nesta terra por esta experiência que se achou, como se criam doninhas e infinidade de ratos”.

Num texto publicado no jornal “A Ilha”, no dia 13 de outubro de 1956, o Dr. Carreiro da Costa menciona que o coronel Afonso Chaves mencionava a existência de três espécies de ratos, o das quintas, o murganho e o comum das casas. Os dois primeiros teriam chegado através dos navios que cá aportavam desde o povoamento e a última espécie terá sido introduzida em São Miguel através de um navio russo que naufragou há cerca de cem anos.

Sobre os prejuízos causados pelos ratos, podemos ler na Persuasão, de 4 de setembro de 1895, que depois do combate, contestado na altura por Tomaz Hickling e pelo padre João José d’Amaral, às aves, a grande praga dos campos eram os ratos. No texto referido, podemos ler o seguinte: “Todos os municípios deviam proceder para extingui-los como se fazia com os pássaros. A Câmara da lagoa já deu o louvável exemplo que nenhuma outra seguiu. E todavia a destruição por aqueles roedores é de extraordinárias proporções, e cada vez aumenta mais.”

No início do século XX, a praga dos ratos causava enormes danos, de tal modo que o jornal “O autonómico”, de Vila Franca do Campo, de 12 de março de 1910, escreveu que “não descansavam as mãos na distribuição de venenos por toda a face da terra micaelense e as ratoeiras chegaram a ser poucas para extirparem um inimigo, um pesadelo, que nem mesmo a dormir nos deixava tranquilos”. No mesmo texto, o autor noticia a criação, em Ponta Delgada, da Sociedade Exterminadora de Ratos que num relatório deu a conhecer que “foram mortos n’este distrito 125 447 roedores, sendo 86936 morganhos e 38 511 ratos das espécies grandes”.

Dois anos depois, através do jornal República fica-se a saber que o problema continuava., de modo que a Sociedade Exterminadora de Ratos, através do seu presidente Dr. Jayme Tavares Netto, solicitou à Junta Geral auxílio para uma campanha de desratização, tendo solicitado para tal uma verba de 1 200 000 reis.

Em 1972, Dinis da Silva, escreveu dois textos no Correio dos Açores, alertando para o facto de, depois de um período em que as autoridades atuavam convenientemente, o silêncio e inação da Junta Geral perante o problemas da proliferação dos ratos na ilha de São Miguel era tal que “de então para cá, a ratazana em paz e em campo livre, tem aumentando perigosamente e, de novo começaram a atacar os milharais, destroçando-os na terra e, depois, em todos os lugares onde se guardam os milhos mas sem segurança de espécie alguma”.

Algumas décadas depois a situação pouco se terá alterado como demonstra um artigo “Contribuição para o estudo integrado da Leptospirose humana e animal na Ilha de São Miguel”, da autoria de Mariano Pacheco, Clara Paiva, Margarida Collares Pereira, Maria Luísa Vieira e Francisco Melo Mota. Com efeito nos Açores as taxas brutas de incidência anual de leptospirose, entre 1991 e 1997, eram maiores do que nas outras regiões do país, o mesmo acontecendo com as taxas brutas de mortalidade média anual entre 1991 e 1996. Como razões prováveis, para além das condições ambientais favoráveis o documento referido aponta “uma importante densidade de roedores”.

No final do ano passado várias pessoas, sobretudo ligadas à criação de gado, “apanharam” leptospirose, a qual poderá estar associada ao aumento da densidade de ratos, devido ao excesso de alimentação dos mesmos causado por más práticas ligadas à agricultura/pecuária, à proliferação, sem as mínimas condições, de viteleiros ilegais e ao abrandamento do combate por parte de quem de direito.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31455 de 16 de fevereiro de 2018, p. 12)

Fotografia de José de Melo publicada aqui:

http://natur-mariense.blogspot.pt/2013/03/conheca-um-rattus-norvegicus-o-maior.html

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Briant Barrett e os Animais nos Açores


Briant Barrett e os Animais nos Açores

Briant Barrett foi um inglês, que visitou os Açores, entre 1812 e 1814, autor de um manuscrito que se encontra na Biblioteca Pública de Ponta Delgada e que terá chegado aos Açores pela mão de Rainer Daehnhardt, historiador e colecionador luso-alemão, que foi proprietário da Livraria Nove Estrelas, em Ponta Delgada.

Alertado pelo Dr. George Hayes, um dos tradutores do manuscrito, por diversas vezes o consultei à procura do que o autor havia escrito sobre o tratamento dado aos animais no período em que esteve de visita aos Açores. Na altura, a pedido de diversas pessoas, não tornei público o resultado das minhas pesquisas, pois estava para breve a publicação de todo o manuscrito pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada, o que não veio a acontecer. Com efeito, foi a editora Letras Lavadas a responsável pela edição, recente, do manuscrito referido com o título “Relato da minha viagem aos Açores 1812-1814”, com uma nota prévia de Manuela Vaz de Medeiros e o prefácio de Susana Serpa Silva.

Sobre o modo como eram tratados os animais, o autor relata as barbaridades que viu nas festas de São João, na ilha Terceira, o que prova que na tradição, felizmente, nem tudo perdura e que há tradições que, por inumanas, deveriam fazer parte do caixote do lixo da história.

Segundo Briant Barret durante os festejos “os principais nobres da ilha exibem grupos de danças, equitação e touradas, ou melhor, atormentam uma quantidade de gado infeliz, utilizando dardos, espetos e cães da mesma raça do nosso bull.dog ingês”.

Mas, não se pense que eram só os bovinos que eram importunados, Briant Barrett relata também outras malvadezes, como quebrar com uma espada vasos de barro que continham no seu interior gatos, coelhos pombas ou galinhas.

Para culminar as atrocidades, Barrett deixa para a posterioridade o seguinte texto: “As proezas de equitação terminavam com a exposição de um infeliz pato, pendurado pelas pernas, atingido, também, com uma espada, em pleno galope.”

Não pelas atrocidades descritas, mas pelo todo, recomenda-se a leitura do livro de Briant Barret, felicitando todos os que tornaram possível a sua edição.

Teófilo Braga
14 de feveriro de 2018

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Touradas à corda mais facilitadas

Sempre disseram que nas touradas à corda não havia maus tratos, agora dizem que criam legislação para proteger os animais, entre outros dos aguilhões. A verdade é que a legislação foi criada para facilitar as touradas e dar mais dinheiro a que delas beneficia.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Não à caça


Nova lei que regula a caça nos Açores de costas voltadas para a conservação da natureza e o desenvolvimento do turismo

Como cidadãos açorianos e também como ambientalistas queremos manifestar o nosso pesar pela aprovação na Assembleia Regional da nova lei que regula o exercício da caça nos Açores. Com ela perdeu-se mais uma oportunidade de colocar a defesa da natureza e o interesse geral de todos os açorianos por cima dos interesses particulares duma minoria elitista de caçadores, pouco representativa do conjunto dos caçadores açorianos, que pretende converter a natureza e o território da região num parque temático para a prática de determinados tipos de caça.

Com a finalidade de apoiar esses interesses, o governo regional, o proponente da nova lei, perdeu-se tecendo toda uma série de argumentos contraditórios e sem sentido. Num primeiro momento, por exemplo, considerou que o coelho-bravo é uma praga que causa danos na agricultura e que o exercício da caça é fundamental para poder controlar as suas populações. Mas depois, noutro momento, considerou que não se pode proibir a caça das aves nativas açorianas, aquelas que precisam de protecção, porque isso aumentaria a pressão cinegética sobre as outras espécies, isto é, sobre os tais coelhos que são uma praga.

Mas ainda, noutro momento, considerou que não há estudos que demonstrem que os coelhos sejam uma praga. E isto apesar de esta espécie estar incluída entre as 100 piores espécies exóticas invasoras a nível mundial e também a nível da Macaronésia, e apesar dos estudos, realizados por exemplo nas Canárias, que demonstram o seu forte impacto na flora nativa das ilhas oceânicas.

Durante o debate da lei na Assembleia Regional infelizmente não foi retirada nenhuma ave nativa da lista de espécies cinegéticas, tal como seria lógico fazer a partir dos diferentes argumentos científicos apresentados pelas associações conservacionistas. Pior ainda, foi acrescentada uma nova espécie à lista, a narceja-americana, o que parece claramente ilegal considerando que contraria o Decreto Legislativo Regional (15/2012) da Conservação da Natureza e da Protecção da Biodiversidade.

Desta forma, não foram retiradas da lista espécies como a narceja, que possui apenas cerca de 300-400 casais reprodutores nos Açores, mas por exemplo apenas uma dezena de casais na ilha de São Miguel, muitíssimos menos casais que por exemplo o priôlo. Não foram retiradas da lista espécies como o pato-real e a marrequinha, espécies migratórias das quais já existiram no passado registos de reprodução na nossa região. E não foram retiradas da lista espécies como as perdizes, espécies exóticas cuja introdução na nossa região também seria ilegal, e certamente disparatada quando se pretende que seja realizada por uma entidade pública como o governo regional.

A nova lei regional continua a permitir o exercício da caça nas zonas húmidas e nas proximidades dos trilhos pedestres, em grave confronto com o desenvolvimento do turismo na nossa região, nomeadamente o de observação de aves. O direito dos proprietários à “não caça” nos seus terrenos fica reduzido à decisão e boa vontade do governo. E também nada é feito para impedir a utilização na caça de espécies exóticas invasoras ou para reduzir os maus-tratos aos animais.

Claro que ainda pior foi a intervenção na Assembleia Regional de outros partidos como PSD e CDS, reclamando a caça de espécies ameaçadas como os pombos-torcazes, o aumento das populações de coelhos ou a introdução de mais espécies exóticas. Também foi bastante negativa a ideia recorrente em todo o debate, sem a mínima base científica, de que os animais selvagens precisam de ser caçados para manter reguladas as suas populações, como se a regulação natural das espécies e dos ecossistemas precisasse das espingardas dos caçadores.

Esperamos que no futuro, com governantes e representantes políticos mais iluminados, o bom senso acabe finalmente por se impor na lei. Esperamos que a conservação da natureza passe a ser finalmente uma realidade e uma prioridade política, honrando o que é de facto um direito e um dever constitucional de todos os cidadãos açorianos.


Assinantes:

Avifauna dos Açores
Amigos dos Açores – Associação Ecológica
Coletivo Açoriano de Ecologia Social (CAES)
Ambiflores – Associação de Defesa do Ambiente da Ilha das Flores
Vegaçores - Associação Vegana dos Açores


Alexandra Manes
Ana Cesário
Ana Nogueira Loura
Ana Sofia Ferreira
Carlos Ricardo
Carmo Barreto
Cristina D’Eça Leal Soares Vieira
Dário Rosa
David M. Santos
Diogo Caetano
Elsa Ferreira
Fabio Jorge da Silva Couto
Gabriela Mota Vieira
George Hayes
Hélder Correia
Helena Melo Medeiros
Jessica Pacheco
João Pacheco
Joël Bried
Jordana Vasconcelos
Jorge Ávila de Lima
José Manuel N. Azevedo
Lúcia Ventura
Luís Estrela
Luís Silva
Luís Viveiros
Maria Adelaide Oliveira
Maria Antónia T. de Fraga
Maria Anunciação Mateus Ventura
Maria Cristina de Sousa Tavares
Maria Helena Câmara
Maria Inês de Vargas
Maria José Aurélio
Maria Miranda Teixeira
Marlene Raposo Dâmaso
Nélia Melo
Paulo Monteiro
Rita P.P. Bernardino
Rui Soares Alcântara
Sérgio Rego
Teófilo Braga
Vera Correia


Comunicado:
http://avifaunadosacores.blogspot.pt/2018/01/nova-lei-que-regula-caca-nos-acores-de.html

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Contra a tourada à corda




Cidadãos açorianos contra a continuidade das touradas à corda na Região

Mais de 1.600 pessoas já assinaram a petição “Não mais touradas, com ou sem corda, nem violência contra os animais nos Açores” disponível na plataforma Change.org (https://www.change.org/p/assembleia-regional-dos-a%C3%A7ores-n%C3%A3o-mais-touradas-com-ou-sem-corda-nem-viol%C3%AAncia-contra-os-animais-nos-a%C3%A7ores).

Os assinantes protestam contra a intenção do Governo Regional dos Açores de introduzir novas alterações à legislação que regulamenta a tourada à corda na Região, qualificando esta prática como cruel e retrógrada, sendo que cada vez mais açorianos a repudiam e pretendem o seu fim.

Os peticionários manifestam-se contra a prática da tourada à corda principalmente por três razões: pelo facto de as touradas à corda serem responsáveis pela morte e pelo ferimento frequente de numerosos animais, que são abusados inutilmente para mera diversão humana; pelo facto de as touradas à corda serem a causa de ferimentos e da morte de seres humanos, calculando-se serem responsáveis, em média, por uma pessoa morta e 300 feridas anualmente na Região; e pelo facto de as touradas à corda contribuírem para uma imagem negativa dos Açores junto de cidadãos nacionais e estrangeiros, que se sentem incomodados pelos maus-tratos infligidos aos animais nos Açores, optando por escolher outros destinos turísticos.

Os assinantes consideram que está na hora de introduzir o progresso no âmbito das festividades populares dos Açores e deixar atrás, no seu sepulcro caiado, todas as tradições que envergonham os açorianos como povo.

A petição será entregue proximamente à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, ao Presidente do Governo Regional e a outros responsáveis políticos e governamentais da Região.


Comunicado do
Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA)
01/02/2018

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (2)



Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (2)

No texto anterior, apresentámos alguns marcos importantes relacionadas com a defesa do ambiente e a educação ambiental que ocorreram na segunda metade do século XIX.
No texto de hoje, damos continuidade ao proposto através da divulgação de alguns acontecimentos ocorridos na primeira metade do século XX.

Em 1901, o estado português publica legislação relativa ao Regime Florestal e à Defesa dos Povoamentos Florestais e no ano seguinte, em 1902, a 19 de março, foi assinada, em Paris, a Convenção Internacional para a Proteção das Aves Úteis à Agricultura.

Em 1905, foi fundada, em Nova Yorque, nos E.U.A., a National Association on Audubon Societies for the Protection of Wild Birds and Animals, designada atualmente por National Audubon Society. O seu primeiro presidente foi o fotógrafo amador de aves, ornitólogo e homem de negócios William Dutcher (1846 -1920), mas o seu nome foi uma homenagem a John Audubon, o mais ilustre e conhecido ilustrador de história natural do século XIX, que nasceu em 1785, Santo Domingo, hoje Haiti, e faleceu em 1851, em Nova Yorque.

Em 1909, o naturalista suíço, Paul Sarasin (1856-1929), propôs a criação de um comité para preparar a criação de uma Comissão Mundial para a Proteção da Natureza. A sua ideia só foi concretizada 39 anos depois com a fundação da UIPN- União Internacional para a Proteção da Natureza. No mesmo ano, foram criadas a Liga Suíça para a Protecção da Natureza, a Sociedade Sueca para a Protecção da Natureza, a Wildlife Preservation Society (Austália) e a National Conservation Associaton (EUA).

Em 1910, ocorreu, nos EUA, um desastre ecológico com petróleo. Com efeito, entre março daquele ano e setembro de 1911, no vale de S. Joaquim, houve um derramanento de petróleo devido à explosão no poço Lakeview Gusher. Estima-se que foram libertados cerca de 9,4 milhões de barris, destes apenas a metade foi recuperada.

Em 1922, foi fundado, em Londres, num encontro que contou com a presença de 40 países, o Conselho Internacional para a Proteção das Aves (ICBP).

Em 1948, em França, foi criada a União Internacional para a Conservação da Natureza no decorrer da Conferência Internacional de Fontainebleau realizada com o apoio da UNESCO, criada três anos antes.

No mesmo ano, em Portugal foi criada a LPN - Liga para a Proteção da Natureza, que tem por missão “contribuir para a Conservação da Natureza e para a defesa do Ambiente, numa perspetiva de desenvolvimento sustentável, que assegure a qualidade de vida às gerações presentes e vindouras”.

Na origem da criação da LPN está o seguinte apelo, em 1947, do poeta Sebastião da Gama ao Eng. Miguel Neves para que intervenha no sentido de impedir a destruição da Mata do Solitário na Arrábida:

"Senhor Engenheiro Miguel Neves.
Socorro! Socorro! Socorro! O José Júlio da Costa começou (e vai já adiantada) a destruição da metade da Mata do Solitário que lhe pertence. Peço-lhe que trate imediatamente. Se for necessário restaure-se a pena de morte. SOCORRO!"

O Prof. Carlos Baeta Neves (1916-1992), Eng.º Silvicultor e Professor Catedrático do Instituto Superior de Agronomia, tendo tomado conhecimento do apelo, interveio, tendo conseguido impedir a destruição da mata. No ano seguinte, em 1948, fundou a mais antiga organização não-governamental de ambiente da Península Ibérica, a LPN.

Em 1949, é publicado, postumamente o livro de Aldo Leopold (1887-1948), Almanaque do País das Areias, que para alguns autores é o “livro mais importante alguma vez escrito”.

No seu livro, traduzido para português com o título “Pensar como uma Montanha”, a propósito dos professores Aldo Leopold escreveu:

“Cada um deles [professores] seleciona um instrumento e passa a vida a separá-lo dos outros e a descrever-lhe as cordas e teclados….Um professor pode tanger as cordas do seu próprio instrumento, mas nunca as de um outro, e se conseguir ouvir a música nunca deverá admiti-lo junto dos seus pares ou dos seus alunos. Pois todos estão coibidos por um tabu férreo que decreta que a construção dos instrumentos é do domínio da ciência, ao passo que a deteção da harmonia é do domínio dos poetas”.
(continua)

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31442 de 31 de janeiro de 2018, p.17)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Tourada é tortura