Pela criação de um Colectivo Açoriano de Ecologistas que tenha por objectivo a reflexão-acção sobre os problemas ambientais, tendo presente que estes são problemas sociais e que a sua resolução não é uma simples questão de mudanças de comportamentos, mas sim uma questão de modelo de sociedade.
sábado, 13 de janeiro de 2018
Tourada à corda é violência gratuita e desrespeito
Tourada à corda é violência gratuita e desrespeito
Não pode ser Património CulturaI Imaterial
Como se não houvesse mais nada de verdadeiramente útil para fazer em defesa da sua terra, os Açores, a deputada do Partido Socialista Lara Martinho, da Ilha Terceira, propôs, na Assembleia da República, que a tourada à corda seja classificada como Património Cultural Imaterial de Portugal.
Se esta pretensão já é má, péssima é a opinião do Ministro que devia ser da Cultura que admitiu que tal seja possível.
O Movimento pela Abolição da Tauromaquia de Portugal (MATP) já se pronunciou negativamente sobre a referida proposta e é uma das organizações subscritoras de uma petição (http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=tcordanaoepatrimonio) que entre outros assuntos denuncia as intenções e colocar as touradas à corda, que anualmente causam, em média, mais de 300 feridos e uma pessoa morta, na lista do Património Cultural Imaterial. As touradas, com ou sem corda devem ser colocadas no devido lugar, isto é no caixote do lixo da História.
Pelos animais, vítimas dos humanos, e pelos humanos, vítimas da ganância da indústria tauromáquica, tudo faremos para impedir que tal aberração aconteça.
(Vídeo ilustrativo do que é uma tourada à corda: https://www.youtube.com/watch?v=QBzu7ZBfOoI )
13 de janeiro de 2018
MATP/Açores
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Contributos para a história da tauromaquia e da oposição à mesma na ilha de São Miguel (Açores): Séculos XIX e XX
Introdução
Quer se goste ou não, a verdade é que as touradas são uma anacrónica tradição da ilha Terceira que persiste até hoje com o apoio descarado das entidades governamentais e com a hipócrita ajuda da Comunidade europeia que não ignora que os apoios comunitários também servem para o fomento da criação de gado bravo.
Não podemos ignorar que alguns terceirenses, sobretudo os que lucram com a exploração animal, mais do que preocupados em manter a tradição tudo fazem para expandir o negócio, o que tem acontecido com mais ou menos sucesso nas outras ilhas, como é o caso da ilha Graciosa, onde numa primeira fase as touradas foram repudiadas.
Na ilha de São Miguel, com apoio de governantes, tudo têm feito para que os maus tratos a bovinos para divertimento se generalizam.
Neste texto, sintetiza-se o ocorrido nesta ilha antes do presente século e dá-se a conhecer algumas posições contra as touradas.
Não está fora do nosso propósito, num futuro que não queremos muito longínquo, descrever o que aconteceu no presente século e denunciar as pessoas individuais e coletivas envolvidas na promoção de touradas e outros tristes espetáculos com bovinos.
São Miguel, 2 de janeiro de 2018
José Soares
Contributos para a história da tauromaquia e da oposição à mesma na ilha de São Miguel (Açores): Séculos XIX e XX
É antiga, não há dúvidas, a prática de maltratar animais, tal como àquela sempre esteve associada a oposição aos maus tratos. O caso da tauromaquia não foge à regra, havendo ao longo dos tempos várias vozes que se opuseram à mesma em todos os países do mundo onde aquela existe ou já existiu.
No século XIX, a oposição à tauromaquia na ilha de São Miguel fez-se através das páginas dos jornais “O Repórter” e “O Sul”.
“O Repórter” dirigido por Alfredo da Câmara, um dos fundadores da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, no dia 11 de abril de 1897, num texto intitulado “Guerra de Morte às touradas” para além de criticar a tauromaquia, faz ironiza com as reportagens tauromáquicas e satiriza os jornais que a promovem.
Sobre os jornais podemos ler o seguinte: “
“Assim, vai dedicando à santa missão da educação do povo, extensos artigos em que relata até às últimas minudências as peripécias selváticas acontecidas nas touradas, soltando ao mesmo tempo profundos e dolorosos gemidos porque os touros perderam a ferocidade que apresentavam noutro tempo.
Estas lamentações fazem-nos crer que o touro é menos refratário à civilização do que o próprio homem, pois que vai diminuindo de ferocidade, enquanto o homem aumenta.”
Sobre os repórteres, o extrato seguinte diz-nos tudo sobre o pensamento do autor do texto:
“…Segue-se àquela interessantíssima narração uma outra em telegrama de Valência referindo que “os touros de Saltillo saíram muito bons”.
Se cá os houvesse assim, pagava-se com certeza o deficit.
“Morreram 14 cavalos”, diz ainda o telegrama.
Não pode haver espetáculo mais comovente e que melhor satisfaça um coração bem formado do que ver morrer 14 cavalos, em agonia prolongadíssima com o corpo transformado num crivo, deixando passar pelos buracos os intestinos, arrastando-os pela arena e pisando-os muitas vezes com as próprias patas!
O selvagem do correspondente do “Século” devia exultar de satisfação todas as vezes que via desaparecer as armas do touro no corpo de um misero cavalo, que recebia assim o pagamento dos serviços que prestou ao homem durante toda a vida trabalhando para ele!
Termina o selvagem a sua notícia dizendo que “foi uma corrida magnífica”!...
O jornal semanal “O Sul” , que se publicou em Vila Franca do Campo, em Julho de 1898, ridicularizou os espanhóis aficionados das touradas, através de um texto magistral que com as devidas alterações e atualizações se aplica ao que está a acontecer hoje na ilha Terceira, onde perante uma situação que poderá ser dramática para a mesma, em termos de aumento de desemprego, com a saída de militares norte-americanos da Base das Lajes, as elites quase só pensam em touradas. Para memória futura e porque é mais esclarecedor do que um resumo, aqui fica um excerto do texto mencionado:
“Viva los Toros
Ao passo que em Cuba e nas Filipinas os soldados espanhóis caem varados pelas balas dos insurgentes, a população de Madrid entrega-se levianamente ao seu espetáculo favorito, como se o estado do país fosse o mais próspero possível.
Há dias houve ali uma bezerrada, em que tomaram parte atores, jornalistas, etc.
Entretanto a pátria gemia..,.
Pois não gema!
A nacionalidade vai-se perdendo…
Pois não se perca!
E as derrotas têm sido formidáveis…
Que se amanhem!
….”
A 26 de outubro de 1920, o Diário dos Açores publicou um aviso, assinado pelo Barão da Fonte Bela, onde se pode ler que em reunião foi decidido, por unanimidade, passar o capitão subscrito da Empresa Tauromáquica para a “nova industria açoriana de fiação e tecidos”. Na mesma reunião foi indicada a comissão encarregada de elaborar os estatutos da nova empresa cuja constituição é a seguinte: Conselheiro Dr. Luís Bettencourt de Medeiros e Câmara, Frederico Carlos Santos Ferreira, Filigénio Pimentel, António Taveira do Canto Brum e Horácio Teves.
Em 1924, o jornal Correio dos Açores noticiou “para muito breve, algumas corridas de touros” em Ponta Delgada, esperando-se a chegada do toureiro Angelo Herren que vinha escolher o local onde iriam ser “lidados bravos touros do importante lavrador Corvelo, da Terceira”.
De acordo com o Correio dos Açores, de 16 de Julho de 1922 , viviam na Terceira dois irmãos Corvelo, o Manuel e o Cândido, que eram os maiores criadores de gado manso e bravo dos Açores.
Fonte: Correio dos Açores, de 16 de Julho de 1922
Ainda de acordo com a notícia que vimos citando, apesar da sua riqueza, “nunca se calçaram e descalços tomavam parte em sessões da Junta Geral, no exercício do mandato de Procuradores, sendo sempre a sua voz escutada com respeito”.
Por último, através do mesmo texto ficamos a saber que, para além de grandes lavradores e proprietários, eram também “dois grandes corações e dois perfeitos homens de bem” que gostavam de bem receber quem os visitava. Tal aconteceu aquando de uma ida à Terceira de um grupo de micaelenses, em 1919, que foram muito bem acolhidos “durante uma ferra de gado organizada em sua honra, a que compareceram alguns milhares de pessoas”.
Em 1933, a revista Insula, nº 17, de maio daquele ano publicitava a realização de uma tourada integrada num “Festival na Lagoa das Furnas”
Em janeiro de 1942, o Correio dos Açores noticiou a vinda de um ganadeiro da ilha Terceira com o objetivo de estudar a possibilidade de introduzir em São Miguel touradas de praça e à corda.
Na mesma notícia, o redator referiu que era “de esperar que sejam satisfatórios os planos de estudo a realizar, devendo já para a próxima época ser corridos em Ponta Delgada touros em praça e à corda nas várias regiões desta ilha”.
Para além das investidas na ilha de São Miguel, alguns terceirenses sempre que acolhiam pessoas de outras paragens com segundas intenções ou não, tudo fazem para que os mesmos assistam a atividades relacionadas com a tauromaquia. A título de exemplo, menciona-se que, em 1960, aquando da visita à Terceira de um grupo de estudantes micaelenses em que participaram o então aluno João Bosco da Mota Amaral e o vice-reitor Dr. José de Almeida Pavão Jr.., logo no primeiro dia, a seguir ao almoço, foram levados para uma tenta que, para Cristóvão de Aguiar , outro dos participantes, é “uma espécie de tourada de praça com novilhos”
Desconhecemos se chegou a haver espetáculos tauromáquicos resultantes destas duas tentativas da indústria tauromáquica, mas a 25 de março de 1961, o Correio dos Açores , num texto intitulado “Touradas em São Miguel” informa que “há muitos anos para os lados da Vitória, houve uma “experiência” tauromáquica em São Miguel, que malogrou”.
Em 1961, de acordo com o referido jornal a indústria tauromáquica voltou a investir no mercado micaelense através da juventude liceal de Angra que se deslocou a Ponta Delgada trazendo consigo touradas de praça e de corda.
No referido ano, a tortura andou à solta, em Ponta Delgada, tendo ocorrido várias touradas que mancharam algumas festas religiosas a que não escapou a realizada em homenagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
No ano mencionado, “o domingo de Páscoa, assinalado na vida lisboeta, como o da abertura oficial do Campo Pequeno, foi escolhido para ser entre nós o da moderna tentativa de uma tourada de praça, a qual terá lugar no recinto do Cine Solar, pelas 16 horas, em que farão a sua aparição dois espadas, três bandarilheiros e um grupo de sete forcados capitaneados por Carlos Alcáçova”.
A publicidade do evento foi entregue à SPAL e o diretor da tourada de praça foi o Dr. Rafael Valadão dos Santos, sendo o empresário Marcelo Pamplona o qual tinha a pretensão de, se o espetáculo vingasse, passar a exercer a sua atividade em duas ilhas.
No dia seguinte, também pelas 16 horas, realizou-se uma tourada à corda na Avenida Príncipe do Mónaco.
Em 1961, as festas da cidade de Ponta Delgada, as maiores festas religiosas dos Açores, realizadas em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres foram manchadas pelo derramamento de sangue de animais (touros) para pura diversão de alguns sádicos que se dizem humanos. Com efeito, a Agência de Publicidade SPAL voltou a colaborar com um grupo de terceirenses na organização de dois festivais tauromáquicos que se realizaram nos dias 8 e 11 de maio, respetivamente segunda-feira e quinta-feira do Santo Cristo.
Nesta segunda investida da indústria tauromáquica terceirense, em 1961, recorde-se que a primeira ocorreu pela Páscoa, para além de touros das ganadarias de José de Castro Parreira e José Diniz Fernandes, vieram da ilha Terceira os amadores Henrique Parreira e Amadeu Simões e o grupo de forcados chefiados pelo cabo Osvaldo Simões que na sua estreia terá feito uma pega de costas. Para as duas touradas de praça, veio “expressamente de Madrid” o famoso matador espanhol Luís Lucena.
Na segunda tourada realizada o cabo dos forcados foi levado pelo touro de um extremo ao outro da praça até embater num muro. Levado ao hospital pela ambulância dos bombeiros voluntários foi-lhe diagnosticada “uma simples comoção sem fracturas” .
Para além das duas touradas, realizou-se uma garraiada onde atuaram oito “neófitos micaelenses”.
De acordo com o jornal Correio dos Açores os três novilhos foram lidados por António Manuel da Câmara Cymbron, Luís Ricardo Vaz Monteiro de Vasconcelos Franco e Henrique Machado Soares e como forcados atuaram Victor Manuel Rebelo Borges de Castro, Luís Fernando da Câmara Cymbron e João de Sousa Duarte com o auxílio de Luís Manuel Athayde Mota e António Manuel Rebelo Borges de Castro.
Na altura, o entusiasmo pelas touradas era tanto que era muito falada a construção de uma Praça de Touros em Ponta Delgada, tendo sido aventados um terreno pertencente à Câmara Municipal de Ponta Delgada na rua da Mãe de Deus, em frente ao Foral da Misericórdia, e um outro pertencente a particulares localizado em São Gonçalo.
A adesão de alguns micaelenses às touradas em 1961 causou algum pânico na ilha Terceira como se poderá confirmar através de alguns textos publicados nos jornais daquela ilha.
Assim, a 20 de Abril de 1961, a ANI transcreveu uma notícia do Diário Insular onde se afirmava que uma subscrição para a construção de uma praça de touros em São Miguel já havia recolhido cerca de 2000 contos. Na mesma notícia ainda se pode ler o seguinte: E a piada reside exactamente, desde que se confirme a notícia da tal subscrição, no facto de S. Miguel ameaçar desviar da Terceira o centro tauromáquico do arquipélago com a construção de uma praça que, naturalmente, destronaria a velha Praça de S. João” e continua: “Podem não achar-lhe qualquer piada os aficionados terceirenses, mas a verdade é que o facto não deixa de a ter. Ou não terá?”
De igual modo, o Jornal A União, citado pelo Correio dos Açores, de 4 de Maio de 1961, também publicou um texto intitulado “Virou-se o feitiço…” onde a dado passo pode ler-se:
“Por bem fazer…mal haver. A embaixada académica (Liceu) que foi a S. Miguel e quis levar até aos nossos irmãos micaelenses um pouco daquela descuidada alegria que as Touradas emprestam à mocidade terceirense, deve estar agora convencida de que, indo “por bem”, o seu esforço redundou num péssimo serviço prestado à ilha Terceira. Lançando em Ponta Delgada o “vírus” da Festa Brava, mudaram possivelmente o “eixo” desse atractivo até há pouco “exclusivamente terceirense” em terras Açorianas, criando-se mais uma situação “subsidiária” de que não será fácil furtar-nos dentro de pouco tempo”.
Ainda a atestar o interesse pelas touradas, o Correio dos Açores noticiou a organização de uma excursão de micaelenses à Terceira para assistirem a uma tourada de gala que se realizou a 3 de julho de 1961 e que contou com a participação do toureiro português António dos Santos e do “matador” espanhol Orteguita, onde foram corridos touros vindos do continente português.
Em 1962, o jornal “A União”, de 8 de março, publicou um artigo assinado por Estirau, onde este se refere à criação, em São Miguel, de um Clube Taurino que já possuía uma sede “com livros, revistas e jornais da especialidade” e acrescenta que os promotores da iniciativa já possuíam 2000 contos para a construção de uma praça de touros.
Sobre o futuro das touradas em São Miguel, o autor mencionado previa, com alguma tristeza, que seriam um sucesso, nos seguintes termos: “depois de se acostumarem a tal divertimento não querem outro, e nós, terceirenses, ficamos em 2º lugar”.
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
A pré-história da defesa do ambiente nos Açores
A pré-história da defesa do ambiente nos Açores
Desde os primeiros tempos do povoamento dos Açores existiram pessoas que se preocuparam com a destruição da natureza, mas aquela preocupação passou a ser mais generalizada a partir de 1972, em plena Primavera marcelista.
A nível nacional, o primeiro-ministro Marcelo Caetano criou, em 1971, a Comissão Nacional do Ambiente que preparou a participação de Portugal na Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em 1972 e que, entre outros assuntos, discutiu as políticas de desenvolvimento humano e de conservação dos recursos naturais.
Nos Açores, foi no ano de 1972 que a comunicação social começou a abordar as questões ambientais de forma mais regular, quer através de textos da responsabilidade das redações dos jornais, quer de alguns colaboradores.
Neste texto, recordamos três textos publicados no jornal “Correio dos Açores” naquele ano.
No dia 23 de março, o Dr. Júlio Quintino, depois de reconhecer que a única vantagem de se viver “numa região economicamente subdesenvolvida” é o facto de estarmos “integrados num ambiente de quase pureza original”, acrescentou que seria importante a constituição de um grupo de trabalho “com a dupla missão da defesa do meio ambiente e da orientação criteriosa da exploração dos recursos naturais”.
No dia 25 do mesmo mês, num texto não assinado, o jornal Correio dos Açores apela à classificação da Lagoa do Fogo como “reserva integral” para defender a “sua beleza primitiva à volta de um conjunto panorâmico que importa salvar integralmente enquanto é tempo”.
O terceiro texto, “Em defesa do Meio Ambiente”, do Engº Agrónomo e Silvicultor Orlando de Azevedo, publicado no Correio dos Açores, no dia 2 de agosto de 1972, tal como o anterior é rico em lições para quem hoje vive e sobretudo ocupa cargos públicos nos Açores.
No seu texto, o autor menciona algumas medidas tomadas por várias entidades, como o Congresso dos EUA, o governo francês que instituiu o Ministério pra a Proteção da Natureza e do Ambiente, o governo português e faz referência à “magna Conferência para a Defesa do Ambiente Humano”.
Sobre a realidade regional, Orlando de Azevedo escreveu sobre “o conjunto magnífico das Sete Cidades, cujo progressivo arroteamento das vertentes maculou a beleza original da famosa cratera, além do que concorreu para aumentar o volume dos carrejos que ameaçam entulhar as magníficas lagoas”. Em relação ao aeroporto das Lajes o autor escreveu: “Profanou-se, assim, a paisagem portentosa e inutilizou-se para sempre centenas de alqueires de solos dos mais produtivos do Arquipélago, diríamos dos mais férteis do mundo”.
O autor, também, esclarece no seu texto que não é contra o progresso, referindo que “A técnica e a economia regional têm que ser condicionadas pela ecologia, não somente para defesa do equilíbrio do meio ambiente, mas também para que pela sua própria destruição não sejam inutilizados, ou precários, os resultados económicos que se pretendem atingir pela própria técnica”.
Terminámos com mais uma citação plena de atualidade: “Há bem poucos anos, aqueles que falavam da defesa da paisagem, dos perigos que ameaçavam os recursos naturais- minerais, animais ou florísticos – eram considerados sonhadores ou idealistas- “poetas” no sentido irónico da palavra”.
Hoje, fala mais alto a destruição do património em nome do desenvolvimento que dizem sustentável. Hoje, fruto de pressões da sociedade, a autocensura é rainha. Senhores que estão no poder, deixem-nos continuar a ser poetas, pois como muito bem escreveu Sebastião da Gama “pelo sonho é que vamos”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31413, 27 de dezembro de 2017, p. 12)
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
A Gruta do Carvão: memória dos primeiros tempos (4)
A Gruta do Carvão: memória dos primeiros tempos (4)
Hoje, termino um conjunto de textos onde dei a conhecer o trabalho dos Amigos dos Açores em defesa da Gruta do Carvão, desde a criação da associação em 1984 até à abertura ao público do Troço da Rua do Paim
Após quase oito anos de espera, em 2005, a Gruta do Carvão foi classificada como Monumento Natural Regional, através do Decreto Legislativo Regional nº 4/2005/A, de 11 de Maio.
Entre Fevereiro de 2005 e Dezembro de 2006, decorreram as obras relativas à construção do edifício de acesso à Gruta do Carvão, sito à Rua do Paim – 2ª Circular à cidade de Ponta Delgada.
De Outubro a Dezembro de 2006, um grupo de voluntários membros dos Amigos dos Açores e familiares e amigos procederam a trabalhos de desobstrução e limpeza da Gruta do Carvão -Troço Paim. Na ocasião foram removidos do interior desta cavidade 22 toneladas de terras trazidas pelas águas de escorrência, pedras e resíduos introduzidos pelo Homem. Estiveram envolvidas nos trabalhos cerca de 50 pessoas, entre as quais as seguintes: Alice Afonso, António Barreto, António Medeiros, Arlinda Fonte, Cândida, Catarina Furtado, Diogo Caetano, Eduardo Almeida, Eduardo Santos, Eva Lima, Francisco Botelho, Frederico Cardigos, Goreti Sebastião, João Carlos Nunes, João Fontiela, João Manuel Vasconcelos, João Paulo Constância, Jorge Almeida, Jorge Silva, José Alfredo, José Carlos Santos, José Pedro Medeiros, Leonor Medeiros, Lúcia Ventura, Luís Noronha, Manuel Araújo, Manuela Livro, Maria Pereira, Mário Araújo, Mário Furtado, Norberto Carreiro, Nuno Ferreira, Osvaldo, Paulino Amaral, Paulo Garcia, Pedro Andrade, Pedro Nunes, Raul Valadão, Rodrigo Sousa, Rui Lopes, Ruy Ribeiro, Sara Medeiros, Teófilo Braga e Teresa Silva.
Não querendo destacar ninguém especial, pois considero que é através do trabalho coletivo e cooperativo que é possível alterar o mundo em que vivemos, registo a presença de Frederico Cardigos que na altura era Diretor Regional do Ambiente.
Como mencionei um Diretor Regional do Ambiente, seria injusto não referir o grande contributo do arquiteto Eduardo Mário do Val Mendes Carqueijeiro, que exerceu o mesmo cargo de 2001 a 2006 e que se destacou pela dedicação com que desempenhou o cargo, o seu apoio ao trabalho dos Amigos dos Açores não só para a recuperação da Gruta do Carvão e para a concretização de estudos espeleológicos mas também para a educação ambiental nos Açores.
No mesmo ano, a 30 de novembro, em Angra do Heroísmo, foi aprovado o Plano de Gestão da Gruta do Carvão- Troço do Paim. Neste ficou definida a organização das visitas e as regras a que todos os visitantes são obrigados a cumprir.
Em 2007, a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar anunciou a construção do “Centro de Interpretação e Receção de Visitantes” do Monumento Natural da Gruta do Carvão, na Rua de Lisboa, o qual até hoje não foi concretizado. No mesmo ano, a partir de Abril, o troço do Paim passou a estar aberto a visitas organizadas para escolas e grupos diversos e a partir de Agosto passou a estar diariamente aberto à visitação do público em geral.
Com a colaboração de “Os Montanheiros” entre 13 e 16 de Setembro realizaram-se os trabalhos de campo da campanha “Espeleo-Arcanjo 2007”, no âmbito da qual se procedeu à confirmação de acessibilidades à Gruta do Carvão/Paim na zona dos Arrifes, nomeadamente no Quartel dos Arrifes, “Loja do Madeira” e zonas vizinhas, tendo sido cartografados 130 novos metros desta gruta na zona da Rua da Saúde, na freguesia dos Arrifes.
Bibliografia
Amigos dos Açores, (2008). Estudos espeleológicos na ilha de S. Miguel e as potencialidades da Gruta do Carvão.
Garcia, P. (2008). Gruta do Carvão: Património Geológico da Ilha de São Miguel. Ponta Delgada: Amigos dos Açores-Associação Ecológica
(Correio dos Açores, 31410, 22 de dezembro de 2017, p. 14)
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
A Gruta do Carvão: memória dos primeiros tempos (2)
A Gruta do Carvão: memória dos primeiros tempos (2)
Hoje, no seguimento do texto publicado a semana passada, apresento um breve relato do ocorrido entre 1989 e 1994.
No ano seguinte, em 1989, a gruta do Carvão (os dois troços) voltou a ser visitada no âmbito de uma expedição científica em que participaram especialistas das Universidades de Edinburg (Escócia), La Laguna (Canárias) e Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, chefiados, respetivamente, por Nelson Ashmole, Pedro Oromi e Paulo Borges. Recordo aqui, que a visita ao troço do Paim, antes da construção do atual acesso, sempre foi possível graças à boa vontade do senhor António Belchior.
Em colaboração com a Associação “Os Montanheiros” e a Universidade dos Açores, os Amigos dos Açores, entre 9 e 29 de Agosto de 1990, implementaram os trabalhos de campo do Projeto “BIOSPEL-S. Miguel”, tendo na altura procedido à caracterização topográfica e geológica da Gruta do Carvão. Entre outros, participaram nestes trabalhos Fernando Pereira e Manuel Aguiar, membros dos “Montanheiros”, da ilha Terceira, João Cabral, João Carlos Nunes, Lúcia Ventura e Teófilo Braga.
No ano de 1991, foi criado, no seio dos Amigos dos Açores, o “Grupo de Trabalho de Espeleologia”, coordenado por João Carlos Nunes, o qual, durante muitos anos, estudou e visitou as diversas cavidades subterrâneas da Ilha de S. Miguel, com especial destaque para a Gruta do Carvão, tendo para esta gruta elaborado, entre outros documentos, uma proposta de musealização e uma proposta de classificação como área protegida. Para além do referido, o grupo fez o levantamento do património espeleológico da ilha de São Miguel, foi responsável pela edição do livro “Património Espeleológico da Ilha de S. Miguel- Grutas, Algares e Vulcões”, deu um contributo importante para a elaboração da Base de Dados sobre as Grutas e Algares dos Açores e para um Sistema Classificativo do Património Espeleológico dos Açores e alguns dos seus membros integraram o GESPEA- Grupo de Trabalho para o Estudo do Património Geológico dos Açores, desde a sua criação em 1998 até dezembro de 2008. Ao grupo inicial constituído por João Carlos Nunes, João Paulo Constância e Teófilo Braga juntaram-se mais tarde, entre outros, Diogo Caetano e Eva Lima.
Em 1992, trabalhos de saneamento básico da Câmara Municipal de Ponta Delgada destroem uma parte do teto da Gruta do Carvão, na rua Pintor Domingues Rebelo. Na altura, para além de intervenções na comunicação social, recordo uma reportagem publicada no jornal Açoriano Oriental no dia 22 de abril, onde João Carlos Nunes refere que um grupo de geólogos que visitaram a gruta estranhou “o facto de a gruta não estar aberta ao público”.
Na ocasião, Teófilo Braga, munido de algumas fotografias do interior da gruta deslocou-se à Câmara Municipal de Ponta Delgada com o objetivo de sensibilizar o seu presidente para a necessidade de salvar aquele património natural, tendo aproveitado a oportunidade para o convidar para uma visita. Foi recebido pelo presidente e pelo senhor Dourado. Este disse que tinha sido ele o responsável pela canalização dos esgotos da Escola do Carvão para a gruta e ao convite o presidente afirmou: “Não sou coelho”.
Também em 1992, foi elaborado um documentário sobre a Gruta do Carvão, salientando a sua importância turística, didática e científica, tendo sido apresentado no “I Encontro Internacional de Vulcanoespeleologia das Ilhas Atlânticas”, que decorreu em Angra do Heroísmo. Os autores do texto, Teófilo Braga e João Carlos Nunes, com o videograma pretenderam “colmatar a carência de material escolar no domínio da vulcanologia, promover a tomada de consciência de problemas ambientais e possibilitar a criação de novos comportamentos.”
Em 1994, foi elaborada uma “Proposta de Intervenção Museológica na Gruta do Carvão, ilha de São Miguel”, da autoria de João Paulo Constância, João Carlos Nunes e Teófilo Braga, a qual foi apresentada publicamente em Março, durante os trabalhos do “1º Encontro das Instituições Museológicas dos Açores”, realizado em Ponta Delgada, no Museu Carlos Machado. A proposta foi publicada, em 1996, pelo Museu Carlos Machado no livro “1º Encontro das Instituições Museológicas dos Açores” e no ano seguinte, pelos Amigos dos Açores, em separata do livro referido.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31392, 29 de novembro de 2017, p. 16)
sábado, 25 de novembro de 2017
Câmara Municipal de Ponta Delgada continua a espalhar veneno
Ontem, dia 24 de novembro, pelas 13 h 45 min trabalhadores da Câmara Municipal de ponta Delgada espalharam veneno na zona da Pranchinha.
Depois de ter prometido uma alternativa a autarquia continua a envenenar a nossa terra.
Depois de ter prometido uma alternativa a autarquia continua a envenenar a nossa terra.
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