quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Nagasaki e as armas nucleares


Nagasaki e as armas nucleares

A 6 de agosto de 2014, publiquei no Correio dos Açores um texto intitulado “A propósito da bomba de Hiroxima”. Hoje, 9 de agosto de 2017, a propósito do aniversário do lançamento de uma bomba nuclear sobre a cidade japonesa de Nagasaki vou, uma vez mais, abordar a questão das armas nucleares.
As estimativas do número total de mortos em Nagasaki variam muito, havendo estudos que apontam que, até ao final de 1945, terão morrido entre 39 mil e 80 mil pessoas. O apelo da Conferência Mundial Contra as Bombas Atómicas e de Hidrogénio, realizada no dia 9 de agosto de 1981, em Nagasaki, para além da referência às “dezenas de milhar” de pessoas carbonizadas e mortas numa pequena fração de segundo, afirma que a bomba “deixou ainda atrás de si, um profundo, inapagável terror que continua a afligir o corpo, a mente e o quotidiano dos Hibakusha sobreviventes a este dia” e acrescenta que “este pavor, porém, não é nada, se comparado com a realidade de uma possível guerra nuclear nos nossos dias, no precipício à beira do qual nos encontramos”.
No referido documento são feitas, entre outras, as seguintes três exigências:
- “A imediata suspensão de todo o uso, ensaio, fabrico, armazenamento, desenvolvimento e proliferação de armas nucleares;
- Que a terra utilizada para propósitos de guerra nuclear, seja devolvida aos seus legítimos donos, respeitando a autodeterminação e a independência nacional;
- Que a Segunda Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas dedicada ao desarmamento, reúna as nossas aspirações para a realização de uma paz duradoura, apressando a abolição quer de armas nucleares, quer das armas convencionais, através de um efetivo e extenso programa de desarmamento”.
Hoje, passados 36 anos, não temos dúvidas de que o apelo caiu em saco roto, pois a corrida aos armamentos nucleares continua e os países que possuem armas nucleares não abdicam de as possuir nem chegam a acordo para a sua destruição simultânea.
Pouco mais de 70 anos depois dos crimes de Hiroxima e Nagasaki, e após muitos tratados e acordos nunca cumpridos, no passado dia 7 de julho foi aprovado na ONU o “primeiro tratado que proíbe armas nucleares”, o qual segundo o jornalista e geógrafo Manlio Dinucci “constitui um marco na tomada de consciência de que uma guerra nuclear teria consequências catastróficas para toda a humanidade”.

Atendendo ao que tem acontecido anteriormente, este tratado para pouco servirá, pois na votação, embora 122 países tenham votado a favor (a Holanda votou contra e Singapura absteve-se), nenhum dos países possuidores de armas nucleares participou nas negociações e o mesmo só se aplica aos Estados que o subscreverem.

De acordo com informação da Lusa/Açoriano Oriental, “até o Japão, único país alvo de um ataque atómico, em 1945, boicotou as negociações, assim como a maioria dos países da NATO, incluindo Portugal”. A posição de Portugal é perfeitamente compreensível, atendendo a que de país colonizador passou a colónia de interesses estrangeiros, quer europeus quer norte-americanos.

No que diz respeito à defesa da paz e à luta contra a guerra, os movimentos pacifistas, em todo o mundo, quase desapareceram ou estão em hibernação profunda.

Em Portugal existiu (ainda existe?), na década de 80 do século passado, o movimento “Não às armas nucleares em Portugal” que lutava por “manter o nosso país livre de armas nucleares” e estava convencido de que “se os povos de todas as Nações se mobilizarem no sentido de forçar os respetivos governos a não instalarem, ou destruírem as já instaladas, armas nucleares, o perigo do holocausto nuclear será definitivamente varrido da face da Terra”.

Em abril de 1982, surgiu em Lisboa o Comité “Juventude pela Paz” que defendia, entre outras, o “desmantelamento de todas as armas nucleares” e “a proibição da produção e comércio de armas químicas, radiológicas, bacteriológicas e convencionais”.
Por último, no Verão de 1982, a revista de cultura e pensamento anarquista “A Ideia” divulgou um “Programa para a desmilitarização da República” onde era sintetizada uma política com três eixos: desarmamento, desmilitarização e neutralismo. No documento referido defendia-se entre outras medidas a “proclamação de um neutralismo activo, com a denúncia do recurso à força, dos pactos militares e da corrida aos armamentos. Abandono da NATO. Não alinhamento consequente. Apoio a todos os esforços para o desarmamento do globo terrestre e a solução pacífica dos diferendos. Condenação de todos os sistemas de opressão e violência”.
Como todas as tentativas anteriores não tiveram o sucesso que mereciam, não estará na hora de reativar um forte movimento pela paz no mundo?

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31300, 9 de agosto de 2017, p.13)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

TOURADAS NAS FESTAS DO SENHOR BOM JESUS DOS AFLITOS - FENAIS DA LUZ


TOURADAS NAS FESTAS DO SENHOR BOM JESUS DOS AFLITOS - FENAIS DA LUZ

O Pároco tinha-se manifestado, perante a Comissão de Festas do Senhor bom Jesus dos Aflitos, então em funções, contra a realização da tourada. Além de não ser uma tradição micaelense, a tourada é uma prática anti-cristã, que já foi várias vezes condenada pelos Papas. Inclusivamente a última encíclica do tão aplaudido Papa Francisco, Laudato Si', condena os maus tratos sobre animais. A tourada é uma prática sádica, na qual as pessoas se divertem à custa do medo e do pânico do toiro, além de ser uma actividade bárbara, anti-civilizacional e dispendiosa, que queima verbas que podiam muito bem ser canalizadas para uma acção social ou até para o restauro da Igreja.

Infelizmente, a Comissão realizou a indesejada tourada, na qual poucas pessoas participaram. Porém, a Comissão foi demitida pela Diocese, por desobediência aos ditames da Igreja, a este e a outros. E acabam-se 7 anos de barbárie contra animais em nome de Deus!

Enquanto eu for pároco, não haverá lugar para violência contra animais, nem touradas nem bezerradas. Porque, enquanto houver maus-tratos contra animais, haverá sempre violência contra pessoas...

O Pároco dos Fenais da Luz

P. Ricardo Tavares
25.07.2017
Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1383628365052083&set=p.1383628365052083&type=3&theater¬if_t=like¬if_id=1501716553489788

sábado, 29 de julho de 2017

Percurso Pedestre do Pico da Vara


Percurso Pedestre do Pico da Vara

Embora haja vários trilhos para se chegar ao Pico da Vara, recomenda-se o que tem início na freguesia da Algarvia, localizada na costa Norte de São Miguel a cerca de 11 km do Nordeste.

O trilho referido é, não temos dúvida, o mais percorrido do Concelho de Nordeste e um dos mais procurados pelos micaelenses por conter o ponto mais alto da ilha, o Pico da Vara, que possui a altitude de 1103 m.

O trilho que liga a Algarvia ao Pico da Vara foi percorrido anualmente pelos Amigos dos Açores desde 1984, data da sua criação. Contudo, o primeiro roteiro do trilho mencionado só foi editado, pela referida associação não governamental de ambiente, em 2007. O texto é da autoria de Nuno e Avelar e de Teófilo Braga, sendo as fotografias deste, bem como do geólogo Rui Coutinho.

O percurso pedestre inicia-se no 4º troço da Tronqueira, a cerca de 4,3 km do centro da freguesia da Algarvia e desenvolve-se na Reserva Florestal Natural do Pico da Vara.

Neste local, devidamente sinalizado, para além das matas de criptoméria destaca-se a presença de duas espécies invasoras: o gigante e o verdenaz (cletra). A primeira, originária da América do Sul, foi introduzida com fins ornamentais nos jardins das Furnas e a segunda é uma árvore ou arbusto endémico do arquipélago da Madeira.

Depois de uma longa subida, chega-se a uma zona plana onde se avista parte do concelho da Povoação. Vira-se à esquerda e ao fim de algum tempo encontra-se um cruzeiro que assinala a queda de um avião, em 27 de Outubro de 1949.

Sobre aquele desastre, o jornal Açoriano Oriental, de 29 de Outubro de 1949, publicou o seguinte: “...sabendo-se então que era um super-Constelation da ”Air France” que, da uma para as duas da madrugada, fôra avistado sobrevoando a freguesia da Algarvia, vindo a despenhar-se no Pico Redondo nas faldas do Pico da Vara, do que resultou a morte de 11 tripulantes e 37 passageiros, entre os quais Marcel Cerdan, campeão francês de box, que seguia para a América, afim de ali disputar o campeonato mundial, no dia 1 do próximo mês.”

Neste local, entre outras espécies vegetais podemos observar o canicão, o patalugo, o feto do pente, o feto cabelinho e o queiró. Aqui, bem como ao longo do percurso é possível observar algumas aves com destaque para o melro-negro e o tentilhão.

Continuando o percurso, já próximo do Pico da Vara chega-se a um segundo cruzeiro, localizado na freguesia de Santo António, que assinala a queda de outro avião, ocorrida a 13 de maio de 1943. Neste acidente apenas foi vítima o 2º sargento Manuel Cardoso.

O trilho “termina” no cimo do Pico da Vara que está implantado na Reserva Natural do Pico da Vara, onde para além da presença do priolo, podemos encontrar quase todas as espécies da avifauna terrestre que nidificam nos Açores, sendo um dos raros locais da ilha de São Miguel de nidificação da narceja e da galinhola.

O priolo é uma espécie endémica da ilha de São Miguel que exibe uma coroa negra na cabeça e um bico forte, curto e cónico, de cor preta, apresentando a cobertura das asas e a parte superior da cauda acastanhada.
O priolo que no século XIX era abundante na parte Este da ilha de São Miguel foi considerado uma praga para os laranjais da ilha, hoje tem o seu habitat na floresta natural açoriana de altitude, constituída por várias espécies de árvores e arbustos endémicos, com destaque para o cedro do mato, o azevinho, a ginja, a urze, o pau branco e a uva da serra.
Depois de algum tempo de descanso no Pico da Vara, regressa-se à origem, chegando-se lá depois de se ter percorrido uma distância aproximada de 7 km e demorado cerca de 3 horas.
Teófilo Braga

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Animais em cativeiro nas escolas


Animais em cativeiro nas escolas

“ (...) a amizade pela árvore, pelo riacho, pelo animal livre é indispensável para a formação de um ser humano que pretendemos amplo e nobre” Agostinho da Silva

Pessoa amiga contou-me que na pré-primária algumas educadoras mantêm nas suas salas peixes e ou tartarugas em aquários, aves em gaiolas e hamsters também em cativeiro.

A existência dos animais em cativeiro é justificada como meio para dar cumprimento à seguinte aprendizagem a promover: “Manifestar comportamentos de preocupação com a conservação da natureza e respeito pelo ambiente”. Para a concretização do exposto, segundo as orientações curriculares para a Educação Pré-Escolar os educadores deverão promover “a participação e responsabilidade das crianças no cuidado e proteção de seres vivos dentro e fora da escola (cuidar de plantas, de animais ou da horta na escola; cuidado com ninhos, plantas e animais nos jardins, parques e espaços verdes fora da escola).

Para além da razão apresentada, o tratar animais serve para fomentar “a participação das crianças no processo educativo através de oportunidades de decisão em comum de regras coletivas indispensáveis à vida social do grupo e à distribuição de tarefas necessárias à vida coletiva constituem experiências de vida democrática, que permitem tomar consciência dos seus direitos e deveres.”


Segundo a pessoa amiga referida, que é educadora mas não concorda com a prática das colegas, uma outra justificação está relacionada com a possível empatia para com os animais que as crianças adquiririam ao responsabilizar-se pela sua alimentação.

Sendo contra a existência de animais em cativeiro e não pondo em questão o facto de ser possível atingir o pretendido com a presença dos animais nas escolas, penso que o mesmo poderia ser alcançado com o cuidado de plantas que depois os alunos poderiam levar para as suas casas e plantar nos seus quintais e jardins.

Além do exposto, tenho dúvidas se a manutenção de um animal em cativeiro não leve à distração para a questão fundamental que é a necessidade de se proteger os habitats naturais que são os locais onde os animais devem estar.

Teófilo Braga
25 de julho de 2017
Imagem : http://lilliverdi.blogspot.pt/2011/10/chora-coracaopassarinho-na-gaiola.html

terça-feira, 18 de julho de 2017

domingo, 16 de julho de 2017

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Percurso Pedestre do Sanguinho


Percurso Pedestre do Sanguinho

São essencialmente os trilhos pedestres, os estádios dos pedestrianistas, que levam os visitantes à Povoação. De entre os trilhos existentes naquele concelho, o do Sanguinho é o mais percorrido e um dos mais visitados da ilha de São Miguel.

A primeira edição do roteiro do percurso pedestre do Sanguinho, da responsabilidade dos Amigos dos Açores, com uma tiragem de 2000 exemplares, ocorreu no ano de 1997. Desde então até hoje, várias têm sido as reedições, sendo o mencionado roteiro um dos que mais procura tem, não só junto dos residentes mas também dos turistas.

O trilho do Sanguinho localiza-se na freguesia do Faial da Terra, assim denominada pelo facto do vale onde está implantada encontrar-se, na época da sua ocupação pelos primeiros habitantes, coberto de faias.

Na localidade, é digna de visita a igreja de Nossa Senhora da Graça. A primitiva igreja do Faial da Terra, que terá sido construída no início do século XVI, foi saqueada e incendiada, em 1597, por piratas ingleses, pertencentes a uma esquadra comandada pelo Conde de Essex. Em 1599, o vigário da localidade escreveu ao rei pedindo para que se construísse outra, o que terá acontecido pouco depois. Arruinada devido a frequentes abalos de terra, a igreja de Nossa Senhora da Graça começou a ser reparada e ampliada em 1818 e, a 8 de Abril de 1839, foi benzida pelo ouvidor Padre José Tavares de Medeiros, embora ainda não estivesse completamente remodelada. Por seu turno, a torre sineira desta igreja só seria construída em 1874.

Recomendamos o início do percurso em frente ao "teatro" do Espírito Santo, construído em 1908, no local designado por Burguete. Caminhando para norte e antes de chegarmos ao carreiro existente na margem direita da ribeira, passamos por algumas habitações e por um dos seis moinhos que chegaram a estar em funcionamento no Faial da Terra.

Depois de atravessarmos um afluente da ribeira do Faial da Terra, continua-se a subir um carreiro bastante inclinado onde se pode observar alguns vinháticos que é uma espécie que existe em todas as ilhas dos Açores, na Madeira e nas Canárias, tendo a sua madeira sido outrora muito apreciada. Para além dos vinháticos, podem ser observadas, entre outras plantas, acácias, conteiras, cigarrilheiras ou banksias e cavalinhas.

Quando se atinge à primeira bifurcação, vira-se à direita, caminha-se um pouco até o carreiro entrar numa mata de acácias e incensos. Descendo o trilho, um pouco depois chega-se à bonita queda de água, denominada Salto do Prego.

Depois de um merecido descanso ou um banho nas águas da Ribeira do Faial da Terra, regressa-se pelo mesmo caminho, até à bifurcação referida. Aí, continuando a caminhar, vira-se à direita, atravessa-se a ribeira da Fajã do Estaleiro, chegando-se às primeiras casas do Sanguinho alguns minutos depois.

No Sanguinho existem cerca de 20 casas, que outrora chegaram a albergar quase 200 pessoas que só se deslocavam ao Faial da Terra para irem à mercearia, ao médico, cumprir os seus deveres dominicais ou para assistir a uma ou outra festividade religiosa, em virtude dos produtos derivados da agricultura e da criação de animais serem suficientes para a subsistência dos seus habitantes.

No Sanguinho, assim chamado, segundo cremos, devido à presença da planta endémica da Madeira e dos Açores denominada sanguinho, reintroduzida recentemente, para além das espécies cultivadas nos pomares, como as laranjeiras, as bananeiras e os araçazeiros predominam os incensos, as criptomérias e as acácias.

No percurso, é muito frequente observarmos algumas espécies da avifauna açoriana, como o tentilhão, o melro-negro, o canário-da-terra, o milhafre, o canário, a alvéola e o santantoninho (pisco).
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31278, 14 de julho de 2017, p.16)