sábado, 7 de fevereiro de 2015

Nunca

MANIFESTO CONTRA A LEGALIZAÇÃO DA SORTE DE VARAS NOS AÇORES



Somos todos Açores e qualquer prática legalizada numa das nossas ilhas implicará a Região no seu todo. Ora, a recente divulgação de que estará a ser preparada, por parte de um grupo de deputados à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, uma iniciativa legislativa que contempla a introdução da chamada “Sorte de Varas”, ou “Tourada Picada”, na ilha Terceira (o que significa, naturalmente, verter para os Açores essa pretensa legalização), tem gerado forte contestação na opinião pública. Muitas são as vozes, de todos os quadrantes da sociedade, mesmo entre os aficionados, que se têm posicionado contra esta prática de crueldade extrema para com o touro, proibida em todo o país e que não se reveste, nas nossas ilhas, de qualquer caráter cultural, tradicional ou identitário. Acrescente-se que se trata da terceira tentativa de legalização desta variante tauromáquica, tendo sido rejeitada em 2009 por parcos dois votos.
Somos todos Açores e, numa altura de forte aposta no Turismo Sustentável, no Turismo de Natureza, assente sobretudo no respeito ambiental e na estreita e harmoniosa ligação do Homem com a Terra e com o Mar, não consideramos compreensível esta pretensão, que remete para uma forma de sofrimento animal que não é admissível nos dias que correm, e que mancharia, cá dentro e para quem nos visita, a imagem dos Açores – abrindo, além do mais, gravíssimas fendas na sociedade açoriana, que se quer coesa e unida.
Somos todos Açores. Estas nove ilhas do verde e das águas límpidas, das belezas naturais e da comunhão com a Natureza, não merecem isto. Não merecem ficar conotados com uma nova forma de crueldade animal. Não merecem a mancha social e política que a legalização de uma prática deste teor traria para todo o arquipélago.
Porque somos todos Açores, e independentemente de a suposta iniciativa parlamentar chegar ou não à Assembleia Legislativa Regional, manifestamo-nos CONTRA a legalização da Sorte de Varas nos Açores.
Subscritores: Álamo Oliveira, Escritor; Alexandra Correia, Administrativa; Alexandra Patrícia Manes, Aux. Ação Educativa; Alexandre Pascoal, Sociólogo/Promotor Cultural; Álvaro Borralho, Prof. Univ.; Alzira Silva, Jornalista (ref.) e Ex-Dep. ALRAA; Ana Isabel Serpa, Prof; Ana Loura, Eng. Téc. Eletrotecnia; Ana Luísa Araújo, Hematologista; Ana Madeira, Prof.; Ana Paula Andrade, Pianista/Prof. Música; Ana Paula Marques, Prof. e Ex-Dep. ALRAA; Ana Rita Afonso, Prof.; Ana Teresa Almeida Bettencourt, Ass. Social; André Bradford, Dep. ALRAA; André Franqueira Rodrigues, Jornalista; Aníbal Pires, Dep. ALRAA; Aníbal Raposo, Cantautor; Antero Ávila, Músico/Compositor; António Inocêncio, Dirig. Sindical; António Lucas, Prof./Pres. SPRA; António Manuel Amaral, Deleg. Sindical SITAVA; António Teixeira Maduro, Téc. Sup. (ref.); Armando Mendes, Jornalista; Benilde Oliveira, Dep. ALRAA; Bruno da Ponte, Editor; Bruno de Jesus Pereira, Piloto; Carla Rita Couto, Secretária; Carlos Cordeiro, Prof. Univ.; Carlos Costa Neves, Dep. AR e Ex-Ministro da Agricultura; Carlos Enes, Dep. AR; Carlos Frazão, Maestro; Carlos Arruda, Ortopedista; Carlos Manuel Martins do Vale César, Ex-Presidente do Governo Regional dos Açores; Carlos Medeiros, Músico; Carlos Mendonça, Fisioterapeuta/Pres. CMN e Ex-Dep. ALRAA; Carlos Oliveira, Prof.; Carlos Ribeiro, Prof. Univ.; Catarina Fraga, Dentista; Catarina Moniz Furtado, Dep. ALRAA; Catia Benedetti, Prof. Univ.; César Gonçalves, Médico Cl. Geral; Chrys Chrystello, Jornalista; Cipriano Pacheco, Padre; Clara Queirós, Prof. Univ. (ref.); Daniel Gonçalves, Prof./Escritor; Daniel Pavão, Prof; Davide Santos, Biólogo; Dinarte Oliveira Melo, Gestor; Diogo Caetano, Geólogo; Duarte Melo, Padre; Eduardo Ferraz da Rosa, Prof. Univ.; Elsa Violante Cavaleiro Lobo Ferreira, Téc Reinserção Social; Emanuel Couto, Solicitador; Emanuel Jorge Botelho, Prof. (ref.)/Escritor; Emília Mendonça, Prof (ref.).; Fabíola Jael Cardoso, Prof.; Fátima Mota, Prof. (ref.)/Galerista; Fernando Lopes, Prof Univ. e Ex-Dep. ALRAA; Filipe Cordeiro, Coord. Secção PDL do SBSI; Filipe Tavares, Produtor/Realizador; Filomena Maduro, Funcionária da ALRAA (ref.); Francisco César, Dep. ALRAA; Francisco Wallenstein Macedo, Biólogo; Gilberta Rocha, Prof. Univ., Dir. CES-UA e Ex-Dep. ALRAA; Graça Silva, Dep. ALRAA; Guilherme Figueiredo, Reumatologista; Hélder Medeiros (Helfimed), Téc. Sup./Humorista; Hélder Silva, Prof. Univ., Dir do DOP-UA e Ex-Dep. ALRAA; Henrique Schanderl, Prof. Univ.; Herberto Gomes, Jornalista; Hernâni Jorge, Jurista e Ex-Dep. 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Jorge; Manuel Conde Bettencourt, Prof.; Manuel Faria, Tenente Coronel (na reserva); Manuel Moniz, Jornalista; Marco Coelho, Oficial de Placa; Marco Melo, Veterinário; Mª Alexandra Pacheco Vieira, Advogada; Mª Antónia Fraga, Prof (ref.); Mª das Mercês Pacheco, Empresária; Mª do Carmo Barreto, Prof Univ.; Mª do Céu Guerra, Atriz; Mª Fernanda Mendes, Psiquiatra e Ex-Dep. ALRAA; Mª Helena Frias, Livreira; Mª Isabel Lopes, Enfermeira; Mª Manuel Arruda, Prof. (ref.); Mª Margarida Lopes, Designer; Mário Abrantes, Eng. Silvicultor; Mário Furtado, Prof./Pres. Junta da Matriz da RG; Mário Roberto Carvalho, Artista; Marta Cabral, Veterinária; Marta Couto, Dep. ALRAA; Martim Cymbron, Artista Plástico; Martinho Baptista, Empregado Comercial; Miguel Balacó Amaral, Veterinário e Pres. CR Açores Ordem dos Médicos Veterinários; Milagres Paz, Bailarina e Prof. Dança; Milton Mendonça, Bancário/Vice-Pres. CMN; Milton Sarmento, Advogado; Nélia Amaral, Psicóloga e Ex-Dep. ALRAA; Nélio Lourenço, Sociólogo; Nelson Cabral, Ator e Encenador; Nuno Tomé, Jurista; Onésimo Teotónio de Almeida, Prof. Univ. e Escritor; Orlando Guerreiro, Eng. Ambiente; Paulo Borges, Prof. Univ. e Ex-Dep. ALRAA; Paulo Linhares Dias, Advogado; Paulo Marques, Coord. USSMSM; Paulo Matos, Técnico de Óticas; Paulo Mendes, Psicólogo e Ex-Dep. ALRAA; Paulo Pacheco, Veterinário; Paulo Sanona, Ajudante de Reabilitação; Paulo Santos, Advogado; Paulo Valadão, Veterinário e Ex-Dep. ALRAA; Pedro Bradford, Acupunctor; Piedade Lalanda, Prof. Univ. e Ex-Dep. ALRAA; Renata Correia Botelho, Dep. ALRAA; Ricardo Rodrigues, Advogado, Pres. CMVFC e Ex-Dep. AR; Ricardo Serrão Santos, Prof. Univ./Eurodeputado; Rita Blanco, Atriz; Roberto Correia Batista, Secretário; Rogério Sousa, Promotor Cultural; Rogério Veiros, Dep. ALRAA; Rosa Chaves, Designer de Comunicação; Rui Coutinho, Prof. Univ.; Rui Goulart, Jornalista; Rute Rocha, Professora; Sandra Medeiros, Dermatologista; Sara Carreiro, Administrativa; Sara Coutinho, Jornalista; Sílvia Torres (Sonasfly), Cantautora; Sónia Pastor Furtado, Secretária; Sónia Nicolau, Prof.; Suzete Frias, Psicóloga e Pres. Dir. ARRISCA; Tânia Fonseca, Psicóloga/Vice-Pres. CMRG; Teófilo Braga, Prof.; Tiago Matias, Ass. Imprensa; Tiago Miranda, Pres. Juv. Monárquica dos Açores; Tiago Redondo, Secretário; Tomás Silva, Arquiteto; Urbano Bettencourt, Prof. e Escritor; Urbano Resendes, Artista Plástico; Valentina Matos, Bióloga; Vamberto Freitas, Prof. Univ. e Escritor; Vera Pires, Func. SATA; Vítor Marques, Promotor Cultural; Vítor Silva, Coord. CGTP Açores; Zuraida Soares, Dep. ALRAA.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Não às touradas, picadas ou não!


Da proibição do aguilhão à legalização da “puya”

Em 1928, alguns jornais dos Açores denunciavam o “processo bárbaro de estimular os animais”, tendo sido encontrada a pele de um animal jovem, proveniente da ilha Graciosa, com mais de duas mil cicatrizes de feridas provocadas por um aguilhão.
Na altura, as razões apontadas para a proibição do uso do aguilhão tinham mais a ver com alguma sensibilidade para com o sofrimento animal, mas, sobretudo, com aspetos económicos. Com efeito, o jornal “A União” foi claro relativamente ao assunto quando publicou um texto, mais tarde transcrito no Correio dos Açores, onde se pode ler: “Haverá pois toda a conveniência em que as autoridades competentes façam cumprir rigorosamente o decreto que acaba de ser publicado, proibindo o uso do aguilhão, e isso não só como medida de “caridade” mas também como proteção a uma indústria da nossa terra [fábrica de curtumes] ”.
Através do artigo 3º do referido decreto, datado de 27 de setembro de 1928, ficava proibida “o uso do aguilhão ou de qualquer instrumento perfurante na condução de animais, quer em transporte, quer em trabalho, excepto na condução e trabalho de bovinos da raça brava”. Curioso é que então como hoje há sempre animais que não são animais, isto é, os interesses da tortura para divertimento sempre falaram mais alto.
O decreto mencionado esteve em vigor por muito pouco tempo, tendo sido revogado a 16 de março de 1929 por outro que permitia “em todo o território da República Portuguesa o uso do aguilhão para guiar bovinos adultos em trabalhos de lavoura e carretagem”.
A barbaridade para com os animais continuou de tal modo que, durante cerca de duas décadas, uma das principais lutas de Alice Moderno e da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais foi contra o uso do aguilhão, mas agora por razões humanitárias e por compaixão pelos animais que ela dizia que eram “os seus irmãos inferiores”.
Varrido dos Açores o uso do aguilhão, acreditamos que, mais do que por imposições legais, pela evolução dos meios de transporte, isto é, com a caída em desuso das carroças e afins e sua substituição pelos veículos motorizados, continuou a prática imoralmente legal de torturar animais com bandarilhas nas praças de touros.
Não satisfeitos com a barbaridade que são as touradas de praça como as existentes, um grupo de amantes do sofrimento animal quer que o mesmo seja levado ao extremo, através da legalização das touradas picadas ou sorte de varas,, para posteriormente evoluírem para os touros de morte. Sobre esta horrenda barbaridade é bom recordar que, em 1989, houve uma proposta neste sentido que chegou a ser apresentada na ALRA por um membro do governo regional de então.
Quando pensávamos que o planeta Terra estava a girar normalmente em torno do seu eixo e que os deputados estavam preocupados com as gentes que os elegeram, quando acreditávamos que estavam a trabalhar para minimizar os impactos na vida de muitas famílias do desemprego que surgirá com a saída dos militares americanos da ilha Terceira, caiu como uma bomba a notícia que estavam a trabalhar numa atualização do Regulamento Tauromáquico que pretende legalizar a sorte de varas nos Açores ou apenas na ilha Terceira.
Em 2009, sobre o assunto interrogava-me o que teria levado a que alguns deputados apresentassem “ uma proposta legislativa no sentido de legalizar a sorte de varas, prática não tradicional, bárbara, aspiração de uma minoria e vergonhosa para a região, caso seja aprovada?”
Na altura, pensava que teria sido uma “ uma atitude impensada de desrespeito pelo bem-estar animal e pelo querer das pessoas de bom senso, confiantes que sairiam impunes perante a opinião pública açoriana, nacional e internacional” e acrescentava que os deputados ainda estavam a tempo de arrepiar caminho.
Hoje, perante a repetência de alguns, e pensando que sabem bem o que são as touradas picadas e que conhecem as dimensões dos instrumentos de tortura, as “puyas”, já não tenho qualquer vontade de repetir o apelo pois não os considero pessoas de bem.
A todos os opositores da barbaridade que é a sorte de varas, deputados ou não, a minha solidariedade e apoio, no que me for possível, para impedir que alguns sádicos manchem o bom nome dos Açores.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30548, de 4 de fevereiro de 2015)
Assine a petição: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT75986

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Recordando ...


A Azórica contra as corridas picadas

Gostaria de saber em que é que se baseiam os defensores dos toiros picados para afirmarem que tal faz parte da tradição terceirense.
Quanto à defesa que tal tradição seria uma promoção turística, é no mínimo insustentável, já que não estou a ver ninguém a deslocar-se à Terceira, do Continente ou de qualquer outro sítio para ver toiros picados.
Hoje em dia, usa-se muito a expressão “estar com pica”, sendo sem dúvida que os defensores daquela actividade devem estar mesmo bem picados… Tal atitude, até me faz lembrar a dos que defendem estabelecimentos de diversão nocturna ou fogo de artifício, como se tal fosse uma atracção turística para estas ilhas, no meio do mar plantadas.
As pessoas que nos visitam vêm ao encontro da natureza e de um ambiente quase único, pautado por uma forma calma de viver o dia-a-dia.
É esta imagem que o Governo Regional tem publicitado e é ela que promove adequadamente os Açores.
Se alguma dúvida houvesse, bastaria ouvir os comentários das pessoas que nos visitam.
A propósito da legalização desta cruel actividade, não posso deixar de referir que quando era menino e moço, os cantoneiros e outros funcionários públicos, inspeccionavam o tamanho do aguilhão da aguilhada, sendo os proprietários sujeitos a multas se ultrapassem um determinado tamanho, com o objectivo de proteger os animais.
Recorde-se que tal norma foi feita no tempo da “Antiga Senhora” e agora em pleno Séc. XXI e em plena democracia pretende-se legalizar-se aquilo que alguém, muito bem, classificou de barbárie.
As sociedades protectoras dos animais e a própria Legislação vigente defende a qualidade de vida dos animais e agora os senhores deputados, pagos com o dinheiro de todos nós, se calhar vão aprovar uma Lei só para satisfazer uma minoria de “picados”, sabe-se lá porquê e com o quê.
O argumento de que só vai a tais toiradas quem gosta de ver não colhe, pois o pobre do animal não vai sofrer mais ou menos, pelo facto de ter muitas ou poucas pessoas a ver o seu mártir.
Já disse e volto a repetir que um dos grandes problemas da democracia é que muitas vezes não se decide de acordo com o que consideramos mais correcto, mas sim por parâmetros que indiquem a possibilidade de ter mais ou menos votos.
Espero que os nossos deputados tenham a coragem de votar naquilo que é mais correcto, ou seja, na não legalização de tais toiros picados e deixem o povo da Terceira divertir-se com as danças de Carnaval, touradas e outras festas.
A Terceira é considerada por muitos como um parque de diversões, mas certamente, a maioria dos terceirenses dispensa esta palhaçada…
A Azorica solidariza-se com todas as posições tomadas contra os toiros picados, nomeadamente com a dos “Amigos dos Açores”.
Manuel Faria de Castro*
12 de Maio de 2009

Manuel Faria de Castro, natural da freguesia da Praia do Norte, Ilha do Faial, Açores. Faleceu subitamente a 24/9/2009, com 63 anos, na Fajã da Praia do Norte. Licenciado em História pela Universidade Clássica de Lisboa, foi professor da Escola BI António José de Ávila, na cidade da Horta. Eleito em 1985, presidente da Direção de Futebol da Horta. Ele contribuiu grandemente para a evolução do futebol, seu incremento e dinamização, e o lançamento do fustal - futebol de salão. Desde 1996, presidente da Associação de Defesa do Ambiente (Azorica). Também era membro do Núcleo Regional da Liga Portuguesa contra o Cancro. Recentemente havia se tornoado no responsavel pela Delagação do Faial da Associação de Consumidores da Região Açores (ACRA). Conhecido pelo seu voluntarismo e dedicação às causas públicas. Também foi habitual colaborador em vários jornais locais com artigos de opinião. Autor do livro 75 anos ao serviço do futebol (1930-2005), editado pela Associaçao de Futebol da Horta, em 2006. Era uma personalidade controversa, polémica, e por vezes, incómoda. Por ocasião do seu falecimento, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) manifestou o seu sentido pesar pela pessoa do seu Vice-presidente. (Jornal Incentivo 25/9/2009, Horta, pág. 8, artigos de Ricardo Freitas e Luís Rosa)(http://acores.wikia.com/wiki/Manuel_Faria_de_Castro)

sábado, 31 de janeiro de 2015

Sorte de varas nunca


Irresponsável a pretensão de alguns deputados de legalizar a sorte de varas nos Açores


Para o Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA) constitui uma surpreendente irresponsabilidade política a pretensão de alguns deputados da ilha Terceira ao pretenderem trazer, uma vez mais, para o debate parlamentar regional a legalização da sorte de varas (dissimulada ou não na actualização do regulamento tauromáquico), que consiste numa sangrenta prática de tortura animal proibida em todo o território português e já rejeitada nos Açores.

Num momento de graves constrangimentos económicos para a ilha Terceira, como consequência dos despedimentos da base das Lajes, que vêm somar-se aos já suficientemente graves efeitos do empobrecimento generalizado da sociedade portuguesa dos últimos anos, parece que para estes deputados a prioridade resume-se na legalização de uma nova forma de torturar os animais, apenas para satisfação de ideias retrógradas duma pequena minoria de terceirenses que envergonha o conjunto dos cidadãos açorianos.

É surpreendente também que num momento de grave crise económica para a Terceira, estes deputados nada tenham a propor para além da promoção duma atividade esbanjadora de dinheiros públicos como são as touradas. O governo regional e autarquias esbanjam cada ano nesta prática perto de 580 mil euros de dinheiros públicos, que saem do bolso de todos os contribuintes açorianos, através de apoios e subsídios directos ou indirectos à tauromaquia.

Assim, num momento em que se pede para a ilha Terceira a solidariedade de todos os açorianos e de todas as ilhas, todas elas com os seus próprios problemas sociais e económicos, e em que o governo regional pretende canalizar importantes quantidades de dinheiro para a revitalização económica da Terceira, a atitude dos mencionados deputados só pode ser considerada leviana na medida em que a introdução da sorte de varas, uma prática anacrónica rejeitada pela maioria dos açorianos e condenada em quase todo o mundo, para além de incrementar o esbanjamento de dinheiros públicos só poderá contribuir para a má imagem da região junto dos potenciais visitantes.

Num momento que em Portugal já é considerado delito, condenado penalmente, torturar animais (infelizmente com uma absurda excepção para os touros), num momento em que a prática da tauromaquia é abolida em todo o mundo civilizado, estes deputados da Terceira, em pleno século XXI, só pensam legalizar uma prática que leva a um maior derramamento de sangue e que eleva a tortura infligida a uns animais inocentes. Levados pela sua irresponsabilidade, o seu único interesse parece ser denegrir a imagem dos Açores como destino turístico e envergonhar e denegrir todos os açorianos como seres civilizados.

A região não é pertença de um pequeno grupo de interessados economicamente nesta prática, e por isso, é um assunto que diz respeito a todos açorianos que insistem em não querer os Açores salpicados de sangue.


Comunicado do
Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA)
29/01/2015

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Herbicidas

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Sujidade verde


Verde, mas sujo

Depois de um longo período em que o ambiente, ou melhor a natureza, era uma preocupação de uns poucos que eram apodados pelos donos disto tudo de lunáticos, alguns problemas ambientais, nomeadamente catástrofes, como as de Seveso, Bophal ou Chernobil, fizeram com que crescesse o número de pessoas que se envolveram em movimentos criados para lutar pela defesa do ambiente e consequentemente por uma melhor qualidade de vida para todos os seres que com os humanos partilham a vida na Terra.
Para os mais esquecidos ou para quem nunca teve conhecimento, abaixo apresenta-se uma síntese do que foi cada uma das catástrofes.
A 10 de Julho de 1976, na cidade de Seveso, na Itália, uma instalação industrial libertou alguns quilos de uma dioxina que para além de contaminar os solos causou a morte direta de cerca de 3000 animais e fez com que outros 70 000 tivessem de ser abatidos para evitar a contaminação das cadeias alimentares. Além disso, desconhece-se se houve vítimas mortais humanas, mas sabe-se que no ano seguinte a taxa de defeitos congénitos aumentou mais de quarenta por cento.
Considerado como o mais grave desastre industrial ocorrido até hoje, a catástrofe de Bophal ocorreu a 3 de Dezembro de 1984 quando uma fábrica de pesticidas da Union Carbide, em Bhopal, na Índia, libertou 40 toneladas do gás isocianato metílico. Não se conhece exatamente a dimensão dos danos económicos e ambientais e o número de vítimas, mas Edward Goldsmith e Nicholas Hildyard estimaram o seguinte: pessoas mortas, entre 2 352 e 10 000; incapacitadas, 17 000 a 20 000, expostas, 200 000, evacuadas, 70 000.
A empresa, como é quase tradição, procurou fugir com o rabo à seringa, mas, segundo um relatório, o ocorrido deveu-se a “uma combinação de erros de gerência, equipamento mal concebido e má manutenção”.
Contrariando a propaganda da segurança infinita das centrais nucleares propalada pelos cientistas e dirigentes do capitalismo de estado russo, ou melhor soviético, a 26 de Abril de 1986, relativamente perto de Kiev, na Ucrânia, ocorreu um acidente numa central nuclear.
Como é habitual nestes casos onde as tecnologias são seguríssimas, nunca se saberá o número exato de vítimas, havendo uma previsão do professor John Gofman, da Universidade da Califórnia, que fala em mais de um milhão de vítimas.
Entre nós, não querendo ser alarmista, em breve vamos ter em funcionamento uma tecnologia também extra segura, que é a queima de resíduos para produção de energia elétrica que, pelo menos em parte do dia é desnecessária. Além disso, tem a vantagem de ser renovável, dizem eles, e verde, se pintarem as instalações de tal cor.
Verde também é a taxa que foi criada, pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, para penalizar o uso de sacos de plástico e que se traduzirá no saque de mais uns cobres a uma população que desinformada, deseducada, consumista e conformista irá pagar mais, em vez de mudar as suas atitudes e seus comportamentos. Se o que se pretende é reduzir até zero os sacos de plástico por que não se proíbe, de uma vez por todas ou gradualmente, o seu fabrico?
Verdes são também as taxas que vão inventando para sacar o máximo possível aos bolsos já depauperados de uma população que está exangue e exausta de tanto alimentar uma casta que se diz democrática, mas que não presta contas pela má gestão que levou o país à ruina.
Por que razão os nossos ambientalistas oficiais, defensores do aceite universalmente desenvolvimento sustentável que tanto gostam de louvar o princípio do poluidor- pagador, não alargam o conceito e criam o princípio do fazedor de dívida pública - pagador da mesma?
Se assim acontecesse, todos os políticos profissionais, ou afins, responsáveis por projetos megalómanos, inviáveis ou inúteis, todos os autarcas que derreteram as finanças das suas autarquias em obras de Santa Engrácia ou em aberrações de impossível manutenção, ficariam responsáveis, pessoalmente, pelo pagamento das dívidas que fizeram.
Só por si não era democracia a sério, mas era um bom começo.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30532, 14 de janeiro de 2015, p.17)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Alice Moderno, a SMPA e as touradas


Alice Moderno, a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e as touradas

A posição de Alice Moderno sobre as touradas é a de clara oposição às mesmas e foi manifestada publicamente por mais de uma vez, através dos seus escritos, de que são exemplos as suas Cartas das Ilhas, números XIX e XX.
Na “Cartas das Ilhas – XIX”, dedicada a Luís Leitão, publicada no jornal “A Folha”, de 8 de Março de 1912, Alice Moderno relata que contrariada foi assistir a uma tourada a convite de amigos terceirenses e confessa a sua compaixão pelo cavalo “esquelético”, um “pobre animal, ser incompleto, irmão nosso inferior” que “no fim da vida, é posto à margem e alugado a preço ínfimo, para ir servir de alvo às pontas de uma fera…”. A fera (o touro) por seu lado, “será barbaramente farpeada, até que, enfurecida, ensanguentada, ludibriada, injuriada, procurará vingar-se arremessando-se sobre o adversário que a desafia e fere”.
Na “Cartas das Ilhas – XX”, publicada no jornal “A Folha”, de 10 de Março de 1912, Alice Moderno confidencia que, para não ferir suscetibilidades, não fala no “tema perigosíssimo das toiradas”, nem comunica o que vai na sua alma aos terceirenses, que segundo ela são “ semi-espanhóis no capítulo de los toros, e não compreenderiam a minha excessiva sentimentalidade”.
No dia 23 de Abril de 1933, reuniu, na casa de Alice Moderno, a direção da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais para “deliberar sobre assuntos urgentes”. De acordo com o jornal Correio dos Açores, do dia 25 do mesmo mês, um dos assuntos a tratar eram as touradas com touros de morte. Na ocasião foi lido um ofício da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa a solicitar a colaboração da SMPA no sentido de pedir ao governo para que “não permita o estabelecimento neste país dos touros de morte. Ficou acordado enviar um telegrama “ao sr. Presidente do Ministério, manifestando a S. Exa o quanto magoaria a sensibilidade dos amigos dos animais a introdução de tão bárbaro divertimento, e quão deprimente seria para a civilização portuguesa o conhecimento do mesmo perante o mundo culto”.
A este propósito, convém recordar que os touros de morte haviam sido proibidos em Portugal, por decreto datado de 14 de abril de 1928, mas continuam, ainda hoje, legalmente, em Monsaraz e em Barrancos, o que não deixa de ser absurdo.
No relato de uma visita que fez a Espanha publicado no Correio dos Açores, de 2 de Fevereiro de 1935, Alice Moderno escreve “Barcelona seria um verdadeiro Éden “ se o autocarro “não tivesse parado em frente a um enorme edifício, de construção luxuosa, cujo fim o seu aspeto logo indicava, e deve ter custado à província alguns milhões de mal empregadas pesetas”.
O edifício em causa era a Praça de Touros Monumental, onde não há touradas desde Setembro de 2011, na sequência da proibição de touradas de praça, a partir de 1 de Janeiro de 2012, na Catalunha. A outra praça de touros, a Praça de Las Arenas, existente na mesma cidade foi transformada em centro comercial.
Ao estar frente à Praça de Touros, Alice Moderno lembrou-se dos “sofrimentos inauditos” de que eram vítimas os animais e acudiram à sua mente o que escreveu o escritor Victor Hugo:
“Em todas as corridas de touros aparecem três feras, que são o touro, o toureiro e o público. O grau de brutalidade de cada um destes brutos pode calcular-se pelo seguinte:
O touro é obrigado.
O toureiro obriga-se.
O público vai por um ato espontâneo da sua soberana vontade e, ainda por cima, dá dinheiro.
Observem bem esta graduação:
O touro, provocado, defende-se.
O toureiro, fiel ao seu compromisso, toureia.
O público diverte-se.
No touro há força e instinto.
No toureiro, valor e destreza.
No público não há senão brutalidade”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30522, de 31 de Dezembro de 2014)