domingo, 21 de setembro de 2014

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Herbicidas


O veneno é o melhor remédio?

Um dia destes, estava a passar numa determinada localidade do concelho da Ribeira Grande e deparo-me com duas pessoas com uma máquina às costas a aplicar um herbicida sobre ervas que cresciam numa rua.
A primeira constatação foi a de que tendo ouvido falar num conjunto de regras que os agricultores têm de cumprir, quer relativamente à compra, quer à aplicação de pesticidas, parece-me que as mesmas não são exigidas aos serviços oficiais, isto é Câmaras Municipais e no caso concreto Juntas de Freguesia.
No que toca à aplicação do produto, esquecendo a preparação a que não assisti, não vi quaisquer óculos, isto é não havia proteção aos olhos, não havia qualquer proteção ao nariz e à boca, não usavam luvas e estavam a trabalhar com a roupa que usam no dia-a-dia.
Fui indagar que produto era utilizado e cheguei à conclusão que felizmente não era o que foi denunciado recentemente pela Quercus e pela Plataforma Transgénicos Fora, o qual segundo aquelas organizações possui uma substância ativa o glifosato que “atua nos animais como desregulador hormonal e cancerígeno, em doses muito baixas, que podem ser absorvidas nos alimentos e na água de consumo, supostamente “potável”. Este herbicida tem ainda uma degradação suficientemente lenta para ser arrastado (pela água da chuva, da rega ou de lavagem, em conjunto com um resíduo também tóxico resultante da sua degradação), para a água, quer a superficial (rios, ribeiros, albufeiras e lagos), quer a subterrânea.”
De qualquer modo, embora não sendo o especificamente mencionado, o produto em questão também possui na sua composição o glifosato pelo que todo o cuidado deve ser pouco com o seu ab(uso).
No comunicado referido, aquelas organizações mencionam que se dirigiram a todos os presidentes de Câmaras Municipais “alertando para os riscos ambientais e de saúde, da aplicação de herbicidas em espaços urbanos, prática generalizada por todo o país”.
Não sei se quando se referiram todo o país, incluíram as regiões autónomas, muitas vezes esquecidas. Não conheço qualquer reação por parte das Câmaras Municipais, mas acho que a carta deveria chegar diretamente aos presidentes das Juntas de Freguesia, pois são eles que estão no terreno e são eles os principais responsáveis pelo cuidado das ruas e caminhos.
Mas, se não devem ser usados herbicidas, ou pelo menos alguns, pelos impactos na saúde e no ambiente, que alternativas existem?
Neste momento em que algumas autarquias têm à sua disposição muita mão-de-obra, o uso à monda manual não é de por de parte. Contudo, para quem ache que tal é voltar ao passado, as associações referidas sugeriram o recurso a diversos métodos com destaque para os seguintes: de abafamento, com interesse para jardins, mecânicos e térmicos.
Neste texto, vamos apenas referir os dois primeiros, apresentando as suas vantagens.
Sobre o primeiro método, no documento que vimos citando, podemos ler o seguinte: “O empalhamento consiste em colocar, no local onde se pretende o controlo das plantas infestantes, resíduos vegetais como relva cortada ou simplesmente deixar no local as plantas cortadas. Tem a vantagem de manter a humidade do solo. A plantação de plantas abafantes, de preferência de espécies autóctones, por exemplo em taludes, tem a vantagem de fixarem o solo evitando assim a erosão através de ravinamento”.
Sobre os métodos mecânicos, o texto refere que têm“ já uma expressão considerável no controlo de plantas infestantes em particular nas bermas e taludes ao longo das estradas e, em nossa opinião, deveriam ser mais aplicados em espaços urbanos e outros espaços públicos, em detrimento do uso de herbicidas. Estes métodos originam a produção de grande quantidade de biomassa e, como tal, um recurso com potencial para produção de composto em unidades de pequena escala, por exemplo à escala municipal, que permitem ainda aproveitar outras fontes de matéria orgânica como resíduos verdes dos jardins públicos”.
Em síntese, há alternativas ao uso de herbicidas, falta apenas acabar com as más “tradições” e vontade política para aplicá-las.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30434, de 10 de Setembro de 2014)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Apelo ao Bispo - Tenta na Graciosa



TENTA NAS FESTAS DE SANTO ANTÓNIO DA VITÓRIA NA ILHA GRACIOSA - AÇORES
Está programada uma tenta comentada inserida nas Festas de Santo António da Vitória na Ilha Graciosa, promovida por uma comissão de festas ligada à Igreja Católica dos Açores.
Escreva a protestar contra tal iniciativa.
Pode usar o texto abaixo ou personalizá-lo a seu gosto.

Enviar para:
geral@diocesedeangra.pt, bensaude@bensaude.pt, presidencia@azores.gov.pt, geral@cm-graciosa.pt, radiograciosa@sapo.pt, matpalicemoderno@gmail.com

Exmo. e Revmo. Senhor
Dom António de Sousa Braga
À administração do Grupo Bensaúde
c/conhecimento: Presidente do Governo Regional dos Açores e Presidente da Câmara Municipal da Graciosa e Rádio Graciosa.
Tomámos conhecimento que a Comissão de Festas de Santo António da Vitória irá promover, pela primeira vez, no próximo dia 23 de Agosto, uma tenta (ver*) comentada que conta com o apoio da BENTRANS numa ilha onde a desertificação humana não é travada e onde uma parte significativa da população é carenciada.
Embora não seja caso único, é com estranheza que vemos que gente que se diz cristã promove maus tratos a animais, aliás condenados pela própria Igreja. Com efeito, um texto do Papa Pio V, datado de 1567, reforçando um decreto saído do Concílio de Trento desse mesmo ano, é muito claro na condenação desta prática, dizendo que "com espectáculos desta natureza mais se ofende a Deus do que se lhe presta culto".
Por considerarmos que as tentas, espetáculos em que
que se maltratam animais, são contrárias ao estipulado no Evangelho;
Por considerarmos que o papel da Igreja devia ser ao lado dos fracos e não dos poderosos como são quem beneficia com a tauromaquia, vimos manifestar o nosso repúdio.
Com a esperança de que V. Rev. use a sua influência junto da comissão de festas para que cancele o bárbaro evento e para que de futuro, as festas promovidas sejam isentas de maus tratos aos animais.
(*) http://mgranti-touradas.blogspot.pt/2012/06/tenta.html
Com os melhores cumprimentos.

Roteiro, 2014

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Notas Zoófilas

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Hiroshima



A PROPÓSITO DA BOMBA DE HIROSHIMA
“De todas as alterações que os homens introduziram na natureza a fissão nuclear em escala industrial é sem dúvida a mais perigosa e a mais profunda. Em consequência disso, as radiações ionizantes tornaram-se o mais sério agente de poluição do meio ambiente e a mais grave ameaça à sobrevivência do homem sobre a Terra.” Schumacher, Small is Beautiful
A 6 de Agosto de 1945, a Alemanha já estava derrotada, a Itália já se havia rendido e Hitler e Mussolini, já se encontravam no Inferno a pagar pelos seus pecados. Apenas restava o Japão que ainda resistia, mas já estava de joelhos.
Pelas 8 horas e 15 minutos do mencionado dia um avião dos Estados Unidos lançou uma “ogiva secreta de quase 20 quilos e potência equivalente a quase 20 mil toneladas de TNT”. O resultado, segundo Ireneu Gomes, foi a morte de 78 150 pessoas só no primeiro segundo após a detonação da bomba, 13 983 desaparecidos e 130 mil pessoas mortas, ao longo dos anos, vítimas da radiação.
Como se este horror fosse pouco, três dias depois outra bomba foi lançada sobre a cidade de Nagasaki, onde terão morrido cem mil pessoas.
Para alguns autores, a derrota do Japão estava assegurada pelo que o lançamento das duas bombas atómicas foi um crime contra a humanidade já que as principais vítimas foram populações indefesas e não passou de uma demonstração de força para todo o mundo e em especial para a União Soviética.
A rendição do Japão foi o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da “guerra fria”. Começou uma corrida louca aos armamentos, desde os ditos convencionais, aos nucleares, passando pelos químicos, por parte das duas superpotências imperialistas, os Estados Unidos da América e a União Soviética.
Hoje, com a quantidade e a qualidade dos armamentos disponíveis, se algum dos conflitos regionais se transformar numa guerra mundial as consequências para a humanidade serão incalculáveis. Como muto bem escreveu Albert Einstein, que é considerado um dos pais da bomba atómica e que se terá arrependido de ter escrito uma carta, a 2 de Agosto de 1939, ao presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Roosevelt, onde mencionava a possibilidade da criação de um novo tipo de bomba e sugeria os caminhos a serem seguidos: “Não sei que armas serão empregadas numa Terceira Guerra Mundial. Mas tenho a certeza de que, se houver uma Quarta Guerra Mundial, as armas serão paus e pedras”.
Nos Açores, os jornais referiram-se ao evento, nos dias a seguir, tendo relatado o ocorrido nas duas cidades japonesas e feito menção aos prodígios da energia nuclear.
No dia 9 de Agosto, o Correio dos Açores transcreveu uma notícia com origem em Lisboa e datada do dia anterior, intitulada: “A bomba atómica lançada sobre Hiroshima matou todos os seres vivos: homens e animais”. De acordo com a mesma notícia o “segredo do novo invento “foi levado por “uma senhora que conseguiu fugir da Alemanha para o campo aliado”.
Noutro texto, publicado no Correio dos Açores, no mesmo dia, refere-se a revolução que a descoberta da fissão nuclear trará para a humanidade. Assim, na altura, acreditava-se que a invenção poderia “fazer mover, indefinidamente, toda a espécie de veículos mecânicos, com uma quantidade diminuta de novos combustíveis, e será o fim do petróleo e de todos os seus derivados, será o fim das grandes fábricas que produzem energia” e resolveria “o problema das comunicações interplanetárias”.
No dia 16 de Agosto, o Correio dos Açores reproduz um texto publicado, em 1920, pela revista portuguesa de engenharia “Eletricidade e Mecânica”. Neste, o autor, para além de fazer uma descrição do átomo, hoje já ultrapassada, prevê a utilização da energia atómica como substituta do carvão e refere as suas possíveis utilizações.
A dado passo do texto, o autor refere que Sir Oliver Lodge, numa comunicação na Royal Society of Arts, em Londres, considerou que a energia atómica era tão “rica de aplicações” que se congratulava pelo facto do homem ainda não a saber utilizar. Segundo ele, a descoberta do modo como usar a energia atómica só devia ocorrer quando o homem tivesse “a inteligência e a moralidade necessárias para bem aplica-la, porque se esta descoberta for feita pelos maus, este planeta tornar-se-á inabitável”.
Infelizmente, a moralidade muitas vezes mete férias e a inteligência quando existe não é usada.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30405, 6 de Agosto de 2014)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

As odiadas árvores



As odiadas árvores
“O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente.” –  Mário Quintana
1-      O horror à árvore
É de todos conhecida a importância das árvores para o equilíbrio do planeta, sendo também conhecida a importância da sua presença em meios urbanos, tanto em jardins como nos arruamentos. No segundo caso, sabe-se que as árvores contribuem para a amenização da temperatura do ar, promovem a descontaminação atmosférica e são propiciadoras de sombra.
Apesar do conhecimento das virtudes das plantas ser quase generalizado, uma parte significativa das pessoas comporta-se perante as mesmas como se nada soubesse, agindo pensando apenas nos seus interesses materialistas de curto prazo.
Assim, um pouco por todo o lado, assiste-se a chamadas podas radicais e a abates de árvores a pedido de moradores, por vezes preocupados com a simples queda de folhas. A título de exemplo, refiro o caso de um morador das Capelas que, há alguns anos, queria abater um plátano porque o seu vizinho da frente, havia tido a autorização para abater um para tornar possível a abertura de um portão para a sua moradia recém- construída ou o caso, recente, de um cidadão de Vila Franca do Campo que achava que se deviam abater um conjunto de metrosiíderos pelo simples facto das suas flores caírem sobre os automóveis estacionados.
Quando não está em risco a vida das pessoas ou o estrago de bens, não consigo perceber o que leva algumas criaturas a não terem qualquer respeito pelas árvores.
Querem sombra, querem ver as suas terras ou ruas bonitas, mas não suportam ter o trabalho de recolher as folhas ou a as flores quando caiem.
Hoje, em que para todos os problemas a técnica tem uma solução, pelo menos pensam alguns, recomenda-se que as autarquias substituam as árvores existentes por árvores plásticas, isto apenas enquanto a engenharia genética, ou outra, não inventar árvores que não cresçam e sem folhas.
2-      Em defesa da árvore
Alice Moderno, conhecida pela sua luta em defesa dos animais, também não foi indiferente às árvores de tal modo que, apesar das dificuldades momentâneas por que passou, nunca mandou “abater e reduzir a achas uma árvore que não tenha tido morte natural”.
Em 1940, a propósito de uma campanha movida contra os metrosíderos do “Largo 5 de Outubro”, Alice Moderno denunciou aqueles que pretendiam dar cabo dos mesmos, tendo afirmado que cabia a todos os que sabiam escrever “ser intérpretes perante as pessoas de quem depende a sorte das formosas árvores que constituem um dos patrimónios vegetais de Ponta Delgada”.
No mesmo texto, publicado no Correio dos Açores, Alice Moderno mencionou o caso do pianista Roger Godier e da mulher que ficaram comovidos ao assistirem ao corte de “lindas araucárias” no Largo Almirante Dunn.
Infelizmente, outrora como nos nossos dias, os residentes nem sempre dão valor ao que é seu.
Outra pessoa sensível ao (mau) tratamento das árvores foi o Eng. Silvicultor e Arquiteto Paisagista Ilídio Gonçalves. Natural de Vila Pouca de Aguiar, viveu na Horta e em Angra do Heroísmo, tendo sido professor convidado do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores.
A propósito das podas mal feitas, Ilídio Gonçalves escreveu em 1985: “Nós que purificamos o ar poluído das ruas; nós que vos damos a sombra refrescante no estio e o abrigo acolhedor no Inverno; nós que ajudamos a construir o vosso lar e aquecemos a vossa lareira; nós que vos deleitamos com cores garridas e variadas ou com aromas inebriantes …por que nos mutilais os ramos frondosos? Por que nos crivais de feridas que apodrecem o lenho valioso? Por que nos sangrais a seiva viçosa?”
Depois de dar exemplos de trabalhos mal executados, o Engº Ilídio Gonçalves termina o seu texto com o seguinte apelo: “Senhores responsáveis! Acreditem que estão errados; procurem o auxílio e o conselho de quem sabe e pode ajudar-vos a salvar as martirizadas árvores amigas que teimam em sobreviver!”.


Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30399, 30 de Julho de 2014, p.14)