quarta-feira, 14 de maio de 2014

Jardins



Jardins e Educação Ambiental

Em todo o mundo existem 2550 jardins botânicos que desempenham um papel importante na conservação da biodiversidade ex situ, isto é fora do seu ambiente, e na sensibilização dos cidadãos para a importância dos recursos naturais, nomeadamente acerca da premência da conservação dos recursos vegetais.
Deve-se a Aristóteles (284-322), segundo Fernando Pessoa e Ricardo Silva, a criação do ”embrião do que mais tarde viria a se constituir como Jardim Botânico”, o qual servia para a observação das espécies e para o ensino da sua classificação.
Em Portugal, o Jardim Botânico da Ajuda, o primeiro jardim botânico português, desde meados do século XVIII, é considerado como “a primeira e a mais importante instituição dedicada à cultura da história natural do País”, dedicou-se a estudar o potencial económico das plantas provenientes das colónias.
Na ilha de São Miguel, foi pela vontade e ação de três ilustres micaelenses, António Borges, José Jácome Correia e José do Canto que surgiram, no século XIX, os três mais importantes jardins da cidade de Ponta Delgada.
Não menosprezando o labor de ninguém, de entre os vultos referidos destacou-se José do Canto que construiu um jardim que, no seu tempo, ombreava com muitos outros a nível europeu, como se pode comprovar pelo seguinte texto da autoria de Edmond Goeze, diretor do jardim Botânico de Coimbra, que visitou São Miguel, em 1866: “O jardim do Sr. José do Canto é inquestionavelmente o mais rico de todos, possuindo talvez mais de 3000 espécies. Nenhum dos jardins particulares, que tivemos ocasião de visitar na Europa lhe pode ser comparado…”.
Pouco conhecidos pela maioria da população da ilha, os jardins referidos, para além de constituírem espaços únicos que deveriam ser aproveitados pelos residentes nos seus momentos de lazer, poderão constituir, se houver uma divulgação e uma animação adequadas, um atrativo para quem nos visita.
Os jardins e em especial os botânicos podem também desempenhar um papel fundamental na educação ambiental não formal, pois, segundo Fernando Pessoa e Ricardo Silva já referidos acima, o seu “espaço diferenciado de lazer tem a capacidade de despertar a curiosidade sobre as plantas, criando condições próprias à implementação de ações que promovam, junto aos visitantes, grupos escolares e comunidades locais, a perceção dos impactos da ação humana sobre o meio ambiente e a consciência sobre os efeitos negativos da perda da biodiversidade, motivando-os a participarem de um ciclo de desenvolvimento sustentável”.
De entre as possibilidades referidas por Júlia Wilison no livro “Educação Ambiental em Jardins Botânicos”, editado no Rio de Janeiro, em 2003, qualquer um dos jardins micaelenses mencionados detém coleções de plantas suficientes de modo a servirem para o ensino:
- da incrível diversidade do Reino Vegetal;
- das relações complexas que as plantas desenvolvem com o ambiente;
- da importância das plantas em nossas vidas, em termos económicos, culturais e estéticos;
- das principais ameaças que a flora mundial enfrenta e das consequências da extinção das plantas;

Com um pouco de boa vontade e com a criação de programas educativos adaptados a cada um dos jardins seria possível fazer com que os visitantes possam ter a possibilidade de “aprender sobre o trabalho que está sendo realizado pelos jardins botânicos e ajudar a salvar e conservar a flora mundial”, “apreciar a natureza como um todo”, “adquirir habilidades práticas e conceitos teóricos para conservação, reprodução de plantas e paisagismo” e “desenvolver atitudes, comportamentos e habilidades necessários para solucionar problemas ambientais” (Wilison, 2003).

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30341, 14 de Maio de 2014, p.14)

sábado, 5 de abril de 2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Assine

PELA IMPLEMENTAÇÃO DA RESOLUÇÃO DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DA REGIÃO AUTÓNOMA DOS AÇORES Nº 31/2013
PROTECÇÃO DOS ANIMAIS DE COMPANHIA E REDUÇÃO DO NÚMERO DE ANIMAIS ERRANTES
Sua Excelência Secretário Regional dos Recursos Naturais
C/Conhecimento 
Suas Excelências Presidentes dos Grupos Parlamentares à ALRAA
Sua Excelência Presidente do Governo Regional dos Açores

Ex.mo Senhor
Na sequência de uma petição intitulada “Por uma nova política para com os animais de companhia” que deu entrada a 24 de Dezembro de 2012 na ALRAA e que reuniu 1258 assinaturas, a ALRAA aprovou a 10 de Dezembro de 2013 uma resolução onde recomendava ao Governo Regional dos Açores o seguinte:
1. A promoção de campanhas de sensibilização, nomeadamente, através das Ecotecas, que apontem para as virtudes de uma política de não abate dos animais errantes e que esclareçam, nomeadamente, os benefícios da adoção de meios eficazes de controlo da reprodução;
2. A dinamização dos processos de licenciamento de centros de recolha oficiais, assegurando que os mesmos detenham condições de alojamento adequadas; 
3. Promova a realização de campanhas de sensibilização públicas e junto dos detentores de animais contra o abandono, assim como da adoção responsável;
4. Promova a celebração de protocolos com associações de proteção dos animais no sentido específico da promoção de tratamentos médico-veterinários e práticas de esterilização;
5. Promova a sensibilização necessária para a correção das falhas existentes ao nível dos sistemas de registo dos animais (SICAF), e promova igualmente a devida sensibilização para a necessidade de articulação entre as várias bases de dados de identificação de cães e gatos, junto das entidades competentes, através de pedido escrito;
6. Promova uma parceria com uma Associação de Proteção de Animais no sentido da exploração do Hospital Alice Moderno através de protocolo que assegure tratamentos médico-veterinários a preços simbólicos para detentores de animais que apresentem carências económicas comprovadas e desenvolver esforços no sentido da melhoria das instalações deste Hospital, de modo a honrar a memória da sua mentora, pioneira na defesa dos animais nos Açores.  

Considerando que esta resolução é um bom princípio para a implementação, nos Açores, de uma nova política para com os animais de companhia, solicitamos que o Governo Regional dos Açores, através da Secretaria Regional dos Recursos Naturais, implemente todas as medidas previstas na resolução.
Açores, 31 de Março de 2014
Assine aqui: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT73117


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Fábrica dos Poços


A fábrica dos Poços e a baleação em São Miguel
Neste texto faremos referência aos últimos tempos da baleação em São Miguel e nos Açores e a uma proposta de recuperação da fábrica dos Poços que caiu em saco roto.
De acordo com notícia publicada no jornal Açoriano Oriental, em Outubro de 1984, a Sociedade Corretora tinha a intensão de retomar a caça à baleia “com base em São Miguel para serem transformadas na velha fábrica dos Poços de São Vicente que será remodelada para o efeito”. Ainda ma mesma nota pode ler-se que a referida empresa estava a “reparar, no porto de Ponta Delgada, seis das nove canoas baleeiras que possui, quatro encontravam-se em Santa Maria e duas em São Vicente.
No dia 3 de Novembro, a associação Amigos da Terra (hoje, denominada Amigos dos Açores) num comunicado publicado no Correio dos Açores, mostra-se espantada com a intensão da Sociedade Corretora e aponta que a atividade não é rentável sem a “atribuição do subsídio de 6 escudos por kg de óleo, que este ano permitiu a exportação”.
A 30 de Setembro de 1995, num artigo publicado no jornal Directo, escrevemos o seguinte: “Quanto a nós, não havendo razões económicas nem financeiras para que a atividade prossiga, escasseando mesmo quem esteja disposto a dar continuidade àquele tipo de aventura tradicional (veja-se a idade da maioria dos corajosos baleeiros), resta aproveitar o máximo possível todo o património das empresas baleeiras e aprofundar o estudo da atividade que foi, e ainda é, fonte de inspiração para as mais diversas manifestações de carácter artístico, cultural e até religioso”. E concluímos o texto alertando para que: “Em São Miguel, sobretudo nas Capelas e em S. Vicente, urge meter mãos à obra e iniciar o estudo da baleação e preservar o que ainda for possível. As juntas de freguesia daquelas localidades deverão ter uma palavra a dizer…”
Em 1987, a Corretora reafirma a intensão de retomar a baleação tendo, segundo o jornal Açoriano Oriental, de 13 de Agosto de 1987, já “despendido neste empreendimento várias centenas de contos, desde a recuperação das canoas existentes em S. Miguel, até ao desenvolvimento de contatos nacionais e internacionais para a colocação dos produtos da baleia, óleo incluído.”
Esta pretensão da Corretora, que surgiu depois de no Pico terem manifestado a intensão de voltar a arpoar baleias, foi contestada na altura pelos Amigos da Terra que anunciaram que iriam fazer diligências para que fosse lançado um boicote turístico internacional aos Açores.
Contra a caça à baleia manifestou-se também o deputado europeu açoriano, prof. Vasco Garcia que referiu que “a agitação à volta deste assunto tem certamente motivações que visam colocar em situação difícil os Açores quer no plano nacional quer internacional”.
Em data que não consegui identificar, duas biólogas micaelenses, Judite Fernandes e Manuela Macedo, elaboraram um projeto para a Fábrica da Baleia dos Poços que para além da recuperação de um elemento valioso do património histórico-cultural da zona de S. Vicente/Capelas e, obviamente, da Região pretendia a “sua reconversão num complexo que visa a dinamização da atividade turística, na sua componente de turismo cultural e de ecoturismo”.
De acordo com o projeto a que tivemos acesso, na altura, estavam previstas duas fases: a primeira, a recuperação e reconversão da Fábrica e, a segunda, a recuperação do restante património existente na zona, como o Calhau Miúdo, as Casas dos Baleeiros e as vigias da Baleia da Quinta do Navio e da Ponta do Cintrão.

Nas instalações da fábrica, as autoras sugeriam a criação de um complexo que incluía: um museu da caça à baleia, um museu da pesca artesanal, uma sala de exposições, uma biblioteca, um aquário recriando fauna e flora locais, um aquário recriando lagoas, uma sala de seminários e um pequeno laboratório.

Não sei a que portas bateram, desconheço eventuais justificações para as sugestões não terem sido tomadas em consideração, o que se sei é que, pelas fotografias que constam nos anexos ao projeto as instalações ainda estavam de pé, sendo relativamente fácil a sua recuperação.

O que se constata é que depois quase tudo deitado abaixo, com exceção para a chaminé, o governo regional dos Açores decidiu recentemente que “ vai avançar para a classificação do espaço onde funcionou a fábrica da baleia de São Vicente Ferreira, na ilha de São Miguel, propriedade atual da banca.”

Antes tarde do que nunca!

Teófilo Braga


(Correio dos Açores, nº 30312, 2 de Abril de 2014, p.14)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Terra Livre 64



domingo, 23 de março de 2014

Não à tortura

quarta-feira, 19 de março de 2014

CONGRO



A Lagoa do Congro de A a Z
Nos próximos tempos a Lagoa do Congro vai ser alvo da visita de muitas pessoas, quer individualmente, quer integradas em grupos. Para eles, e não só, elaboramos um esboço de “glossário” que poderá ajudar a compreender melhor o local ou servir de pista para quem quiser aprofundar as suas pesquisas.
Amigos dos Açores - Em 1997 editaram o livro Lagoas e Lagoeiros da Ilha de São Miguel onde, entre outras foram descritas as lagoas do Congro, Nenúfares e Areeiro.
No ano 2000, os Amigos dos Açores apresentaram ao Governo Regional dos Açores uma “Proposta de Classificação das Lagoas do Congro e dos Nenúfares como Área Protegida”.
Em 2010, editaram a brochura “Lagoas do Congro e dos Nenúfares- Proposta de recuperação e gestão da cratera”, que pretendia ser uma “ideia base a desenvolver em plano de pormenor” com o objetivo de “recuperar o património “perdido” e restituir ao local parte do seu antigo esplendor”.
Anfíbios- Na lagoa ou na área envolvente existem duas espécies: a rã (Rana perezi) e o tritão de crista (Triturus cristatus carnifex).
Aves- Na zona envolvente à Lagoa do Congro é possível encontrar diversas espécies, de que se destacam: a estrelinha (Regulus regulus azoricus), o tentilhão (Frigilla coelebs moreletti), o melro negro (Turdus merula azorensis), o pombo torcaz (Columba palumbus azorica), a alvéola (Mottacila cinerea patriciae) e o milhafre (Buteo buteo rothschildi). Além destas, é possível encontrar diversas aves migratória, sendo a mais observada a garça-real ou cinzenta (Ardea cinerea).
Designação – Está relacionada com o cognome do seu proprietário André Gonçalves Sampaio que era homem de muitas posses. Gaspar Frutuoso explica da seguinte forma: “…por em seu tempo ser o mais rico homem da terra, como dizem ser o congro, entre os peixes que se comem, o maior peixe do mar”.
Governo Regional dos Açores – Em 2007, a cratera das lagoas do Congro e dos Nenúfares foi classificada como “área protegida para a gestão de habitats ou espécies (Decreto Legislativo nº 15/06/2007) e no ano seguinte, em 2008, parte da bacia hidrográfica foi adquirida pela Secretaria Regional do Ambiente e do Mar.
Idade – A cratera terá sido formada há cerca de 3 900 anos.
José do Canto (1820- 1898) – Mandou plantar nos terrenos circundantes matas de criptomérias, pinheiros, eucaliptos e acácias bem como ajardinou a parte de sul da propriedade e construiu uma casa de campo.
Localização - Nas freguesias de Ponta Garça e de Ribeira das Tainhas, concelho de Vila Franca do Campo.
Maar – A lagoa está implantada numa cratera de explosão do tipo maar. As explosões que deram origem há cratera foram “freatomagmáticas, em que houve contato do magma em ascensão, com níveis freáticos existentes nas formações sobrejacentes”
Mamíferos – são possível encontrar diversas espécies de ratos (Rattus sp.), coelhos (Oryctolagus cuniculus), morcegos (Nyctalus azoreum) e esporadicamente furões (Mustela furo).
Peixes – Têm variado ao longo dos tempos. Atualmente é possível encontrar a carpa (Cyprinus sp.) e a perca (Perca fluviatilis).
Plantas nativas/endémicas – Não são muito abundantes, mas é possível encontrar o louro (Laurus azorica), o cedro do mato (Juniperus brevifolia), a Lysimachia azorica, a uva-da-serra (Vaccinium cylindraceum), o azevinho (Ilex azorica), etc.
Plantas introduzidas – São muitas com destaque para criptomérias (Cryptomeria japónica), hortênsias (Hydrangea macrophylla), azáleas (Rhodondendron indicum), eucaliptos (Eucalyptus globulus), incensos (Pittosporum undulatum) e conteiras (Hedychium gardneranum). De entre as introduzidas destaca-se pela abundância e pelo porte, o til, espécie endémica da Madeira.
Plantas invasoras – Para além da conteira, da silva (Rubus ulmifolius), do incenso, ultimamente a área envolvente à Lagoa está a ser invadida pela madressilva-dos- Himalaias (Leycesteria formosa).
Tradições – Era tradição, em Vila Franca do Campo, festejar o dia de São João, 24 de junho, na Lagoa do Congro. Numa altura em que é crescente a busca pelos espaços verdes faria todo o sentido retomar esta saudável tradição.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30301, 19 de Março de 2014, p.14)